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quinta-feira, 9 de julho de 2020

TBT - AURORA (1927) - "Sunrise" de "F. W. Murnau"


  Nosso TBT de hoje relembra um clássico marcante do cinema. O filme ganhou o Oscar de melhor produção cinematográfica única e artística, prêmio nunca mais concedido novamente, uma espécie de consolação pelo segundo lugar na disputa pelo Oscar de melhor filme laureado a Asas em 1929. Aurora é considerado um dos mais importantes filmes da cinematografia mundial. Sem dúvidas, uma obra máxima do genial cineasta alemão F. W. Murnau, diretor dos memoráveis Nosferatu, Fausto e Tartufo. Além de ter vencido 3 oscars em 1929, em 1967 a conceituada revista francesa Cahiers du Cinéma escolheu o filme com a maior obra prima da história do cinema, em 1989 recebeu a classificação de significância histórica estética e cultural pela biblioteca do congresso dos Estados Unidos e foi selecionado para preservação pelo British Film Institute, uma pesquisa feita entre os críticos para este mesmo instituto considerou Aurora o 7º maior filme da história do cinema. Dentre os cineastas que o têm como seu filme favorito, estão John Ford, que o considerou "o maior filme já produzido, o cineasta francês François Truffaut, que o elegeu o "filme mais belo do mundo" e Martin Scorsese que classifica Aurora não como um filme, e sim como um "poema visual".




   Na historia, seduzido por uma moça da cidade, um fazendeiro tenta afogar sua mulher, mas desiste no último momento. Esta foge para a cidade, mas ele a segue para provar o seu amor. Seu roteiro foi adaptado a partir do conto Viagem a Tilsit, do escritor alemão Herrman Suderman, embora nele possam ser encontrados vários elementos do romance Uma história americana, de Theodore Dreiser, lançado dois anos antes e um sucesso comercial literário daquela época nos Estados Unidos. Sua influência se estende por um sem-número de filmes. A cena do beijo do casal que interrompe o trânsito foi copiada à exaustão, com muitas variações. Outra passagem marcante é a que ocorre na igreja, quando o casal, ao presenciar uma cerimônia de casamento alheia, recupera sua identidade matrimonial. Esse mesmo trecho existe em Assim caminha a humanidade, filme americano de 1956, dirigido por George Stevens. Seus efeitos especiais eram inovadores para a época, com imagens soprepostas, e o efeito Schüfftan, que emprega espelhos para inserir a imagem de atores em cenários em miniatura, ambos também utilizados no ano anterior por Fritz Lang em sua obra-prima Metrópolis, as técnicas abriram muitas possibilidades para o cinema mundial, permitindo a exploração de temas antes inalcançáveis. 




    Uma grande herança artística do filme são seus avançados movimentos de câmera. A sofisticada fluidez da sucessão de imagens cria uma inusual sensação de vastidão e profundidade. Filmes notáveis sofreram forte influência dessa técnica cinematográfica primorosa, como O Delator, rodado em 1935 por John Ford, e Cidadão Kane, filmado em 1941 por Orson Welles. Aurora foi a primeira grande produção cinematográfica com som ambiente sincronizado. Também foi o primeiro a ter trilha musical incorporada, composta por Hugo Riesenfeld. A bela atuação de Janet Gaynor (Nasce uma Estrela) rendeu a ela o Oscar de melhor atriz, Aurora é uma obra poética de grande beleza plástica, repleta de cenas inesquecíveis e pureza que fazem dessa obra admirável. PRECIOSO.



A Versátil Home Video lançou a produção no Brasil em DVD em versão restaurada e esgotada. Haverá um relançamento da obra em mídia física pela distribuidora, um item essencial na coleção de um cinéfilo.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Hype TBT - Asas (1927) de "William A. Whellman"


    Nosso TBT de hoje revisita um filme clássico que sem dúvidas marcou a história do cinema. Asas (Wings), o primeiro filme a vencer o Oscar na categoria de Melhor Filme no ano de 1929 dividindo o prêmio com Aurora. O filme teve versão restaurada em alta definição e lançada em 2012 em mídia física DVD e Blu-ray, com a trilha sonora baseada na música original totalmente regravada e orquestrada, essa edição nos leva de volta no tempo para imaginar como era a vida, os pensamentos e como a simplicidade de uma história pode ser tão pura e ao mesmo tempo ser uma forte influência que ultrapassa gerações, na forma de contar uma história e comover sua plateia. 


     O filme em preto em branco e mudo pode ser um desafio para quem não é um admirador do cinema e de sua capacidade de encantamento, a história tem 2 horas e 24 minutos e foi filmada com poucos recursos, composta de limitações técnicas e pouca tecnologia, ainda assim a criatividade impressiona com emoção e simplicidade, que cativa e engrandece essa arte tão magnífica que é o cinema. O filme é ambientado durante a primeira Guerra Mundial e acompanha o sacrifício de dois homens, Jack Powell (Charles “Buddy” Rogers) e David Armstrong (Richard Arlen), dois vizinhos apaixonados pela mesma mulher, Mary (Clara Bow). Jack e David deixam as diferenças de lado quando são convocados para servir na força aérea americana. Uma série de eventos coloca os dois protagonistas em uma delicada situação de confronto em meio a histórica Batalha de Saint-Mihiel. O enredo não tem nada muito diferente de qualquer drama ou romance de guerra feito hoje em dia com o diferencial do fator histórico como charme. 


    O modelo adotado pelo filme até hoje é considerado "americanizado" demais e pouco universal, um modelo de melodrama bastante utilizado pelos principais estúdios nos anos seguintes. O governo americano usou o filme como propaganda militar (os alemães eram os vilões cruéis e os americanos apenas entraram na guerra para trazer a paz de volta no mundo, assim era vendido o filme aos recrutas americanos). Diante do patrocínio do governo americano o filme ganhou ares de superprodução com milhares de figurantes e efeitos especiais surpreendentes para a época. O foco quase total é nas atuações, quase teatrais da época, a produção e uma das poucas chances de ver Clara Bow atuando. 


    Sem uma tecnologia disponível para algo mais elaborado, muitos trechos da história são apenas narrados. O filme foi pioneiro em mostrar pela primeira vez uma cena de nudez no cinema e um beijo entre dois homens, com poucas controvérsias pelos conservadores da época. São quase 100 anos dessa obra-prima que ressalta o início do espírito americano pelo "Blockbuster", onde se cria um espetáculo de efeitos especiais e romantismo. Uma pena a obra ser um reflexo da obsessão  dos americanos pela guerra. Sem dúvida nenhuma um registro memorável, indispensável a qualquer cinéfilo que se preze. CLÁSSICO!



Disponível em DVD e Blu-ray




quinta-feira, 25 de junho de 2020

Hype TBT - O BEIJO DA MULHER ARANHA (1985).


    Nosso TBT de hoje aproveita o mês do orgulho LGBT+ para enaltecer um clássico bastante importante para o cinema brasileiro e que ainda precisa ser descoberto por essa nova geração de cinéfilos. O  Beijo da Mulher Aranha (Kiss of the Spider Woman) é dirigido por Hector Babenco e adaptado por Leonard Schrader através de um romance homônimo escrito por Manuel Puig. A história apresenta um "filme dentro de um filme", com o personagem Luis Molina  que episodicamente contando  o enredo de um fictício filme de ficção chamado "Her Real Glory" ("A Verdadeira Glória Dela" em português), onde brilha a estrela de Sônia Braga. A produção de 1985 tem mensagens importantes e uma trama envolvente.


     A trama conta a história do prisioneiro político de esquerda Valentín Arregui (Raul Julia) e Luís Molina (Willian Hurt), um gay afeminado condenado por "corrupção de menor". Os dois dividem uma cela numa prisão brasileira durante a ditadura militar. Molina relembra, na prisão, um de seus filmes favoritos, um suspense romântico de guerra que também é uma propaganda nazista. Ele tece os personagens do filme numa narrativa que traz conforto a Arregui para distraí-lo da dura realidade da prisão e da separação de sua namorada Marta, a quem ele ainda ama. Arregui permite que Molina penetre sua autodefensiva intimidade e se abre para ele. Apesar de suas discussões sobre a política por trás do filme assistido por Molina, uma improvável amizade se desenvolve entre os dois prisioneiros.


     O filme foi um desafio para ser adaptado, além do tema homossexual ter sido encarado como um obstáculo para atrair um público amplo, havia também o medo da censura devido ao contexto político da ditadura presente no longa. Babenco, uma vez radicado no Brasil, temia uma reação xenofóbica contra a produção em virtude dos atores norte-americanos nos papéis principais e ser originalmente falado em inglês.  Foi um dos primeiros filmes brasileiros a tentar um formato  internacional para atrair visibilidade. Obstáculos adicionais à produção incluíram o antagonismo de Manuel Puig em relação a Babenco; o escritor não gostava de seu filme Pixote e suspeitava que o diretor fosse um "oportunista". Contrariando todos os pesares a produção foi um sucesso. O filme estreou no Festival de Cannes de 1985, onde Willian Hurt ganhou o prêmio de Melhor interpretação masculina, ganhando também o Oscar e o BAFTA de Melhor Ator. Babenco foi indicado para a Palma de Ouro pela direção. O filme concorreu ao Oscar de Melhor Filme, perdendo para  Entre dois Amores em uma clara demonstração de homofobia por parte dos jurados da Academia, até hoje esse Oscar gera controvérsias no real mérito do vencedor. 


    A produção foi reconhecida pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) como um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, ocupando a posição de número 61 da lista. Sem dúvidas, uma obra prima de Hector Babenco e reconhecida em todo mundo.  Luís Molina permanece como um dos personagens gays mais memoráveis do cinema brasileiro e mundial, Sônia Braga ganhou relevância com beleza de diva do cinema em suas cenas, grande parte de sua popularidade nos EUA se deve ao filme que segue sendo relevante e poderoso até hoje. 


Recomendamos que seja vista a versão restaurada do filme pelo Canal Brasil, disponível para alugar em plataformas digitais como Now, Vivo Play e outras.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

ESPECIAL: OSCAR 2020 - Vencedores e Críticas


A 92° edição do Oscar tenta reverter as críticas  negativas sobre a falta de diversidade e polarização de indicados, no geral, o destaque foi Parasita sendo o primeiro filme internacional a vencer a categoria principal. 


Veja os principais vencedores e o link da nossa crítica.


Parasita - 4 prêmios: Filme, Filme Internacional, Diretor (Bong Joon Ho) e Roteiro - Crítica realizada em agosto de 2019 como Hype: (https://bit.ly/2vlTmgK)



1917 - 3 prêmios técnicos: Melhor Mixagem de Som, Melhores Efeitos Especiais e Melhor Fotografia - Crítica: (https://bit.ly/2w7c1gX)


Coringa - 2 prêmios: Melhor Ator (Joaquin Phoenix) e Melhor Trilha Sonora Original - Crítica: (https://bit.ly/37eYAZ8)


Era uma vez em Hollywood - 2 prêmios: Melhor Ator Coadjuvante: Brad Pitt e Melhor Design de Produção - Crítica: (https://bit.ly/31HXgNp)


Ford Vs. Ferrari - 2 Prêmios categorias técnicas: Melhor Edição de Som e Melhor Montagem - Crítica: (https://bit.ly/2SfoEz9)


JoJo Rabbit - 1 prêmio - Melhor Roteiro Adaptado - Crítica: (https://bit.ly/2UEVX08)



Adoráveis Mulheres - 1 prêmio - Melhor Figurino - Crítica: (https://bit.ly/37d70QS)


História de Casamento - 1 prêmio - Melhor Atriz Coadjuvante para Laura Dern - Crítica: (https://bit.ly/37hHN7I)


Toy Story 4 - 1 Prêmio - Melhor Animação - Crítica: (https://bit.ly/2Sz3GKh)



O Escândalo - 1 Prêmio - Melhor Cabelo e Maquiagem - Crítica: (https://bit.ly/2vYhTc6)



Rocketman - 1 Prêmio - Melhor Canção Original - (I’m Gonna) Love Me Again de Elton John - Crítica: (https://bit.ly/2uA5Tgz)


Judy - 1 Prêmio - Melhor Atriz - Renée Zellweger - Crítica: (https://bit.ly/3bqNgfP)



Indústria Americana - 1 Prêmio - Melhor Documentário - Crítica: (https://bit.ly/31Ed43E)


Até ano que vem! 


sábado, 8 de fevereiro de 2020

FORD VS FERRARI (2019) de "James Mangold"



Drama de automobilismo com Matt Damon e Christian Bale é um relato bonito que emociona quem gosta de corridas ao apresentar a rivalidade entre as montadoras de carros mais famosas do mundo.

O filme é um drama esportivo naquela velha construção habitual do cinema Hollywoodiano de exaltação de pessoas comuns que se tornam personagens de uma história extraordinária de superação. A produção tem aparência bonita em retratação interessante da época abordada e cenas de ação corretas mas não muito empolgantes, sobre dois garotos do mundo admirador do automobilismo. Baseado em uma história verídica e repleta de momentos emocionais bem concentrados ao mundo de personagens masculinos, que trabalham em fábricas e possuem uma dedicação ao esporte e amor por carros. James Mangold dirige em piloto automático o filme a partir de um roteiro original do dramaturgo Jez Butterworth, John-Henry Butterworth e Jason Keller. Matt Damon traz seu familiar personagem "gente-boa" com descontraído charme infantil para o papel de Caroll Shelby, o piloto que virou designer de corrida que foi contratado pela Ford no final dos anos 60 para montar um carro e uma equipe que derrotariam a Ferrari, de origem italiana e pompa de referência em qualidade e beleza. Christian Bale interpreta Ken Miles, o britânico difícil, impulsivo, mal-humorado, mas brilhante, contratado por Shelby como seu piloto principal, o rebelde que bate de frente as imposições da Ford, que querem um jogador de equipe que obedeça as regras. Tracy Letts interpreta Henry Ford Jr com gosto e Josh Lucas interpreta Leo Beebe, seu assistente. Jon Bernthal faz o que pode com o papel subimaginado de Lee Iacocca, o executivo da Ford cuja ideia evidentemente era o primeiro lugar para a montadora assim como entrar no mundo glamouroso e caro do automobilismo. A pessoa com o papel mais ingrato é Caitriona Balfe, que interpreta a adorada esposa de Miles, Mollie. Ela não tem muito o que fazer, e este é um filme de homens. É um filme que assim como O Irlandês de Scorcese, mostra o abismo entre homens e mulheres nos séculos passados, é constrangedor que uma produção nos tempos atuais ainda se permita a exaltar a masculinidade tóxica e mulheres apenas como um adereço a grandes "homens". O desempenho de Bale é o oposto da representação descontraída de Damon. É uma exibição de ator: uma coleção ridícula de maneirismos espetaculares, esquisitos, sotaques e uma linguagem corporal matuta. O filme ganha vida rapidamente nos solavancos e acidentes que ocorrem quando motoristas ferozmente competitivos se chocam, e percebemos que, ao contrário de muitos outros esportes, o automobilismo é potencialmente perigoso e foi especialmente o caso nos anos 60. Todo esse risco em busca da glória a empresa uma de motores ou serão apenas emoções de velocidade egoístas? São questionamentos necessários mas que certamente não afeta a base de fãs de corridas e muito menos quem ainda perde horas da vida assistindo um corrida de Fórmula 1 na tv. Como filme é uma produção correta, meio monótona, antiquadra e cheia de vícios tóxicos da sociedade sem mostrar consequências. CORRA, FORD, CORRA!


O filme está disponível em Vídeo On Demand e plataformas digitais para alugar ou comprar.

Hype: BOM - Nota: 7,0

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

INDÚSTRIA AMERICANA (2019) - "American Factory" de "Steven Bognar" e "Julia Reichert"


Documentário vencedor do prêmio de direção em Sundance e indicado ao Oscar, é  um intenso exercício de percepção do capitalismo e das diferenças culturais. 

O filme já estava pronto quando a Netflix e a Higher Ground (produtora do ex-presidente americano Barack Obama e da ex-primeira-dama Michelle Obama) adquiriram a produção no Festival de Sundance de 2019 para sua distribuição mundial. O documentário tenta ir além dos noticiários sobre economia e globalização, mostrando o dia a dia de uma empresa chinesa que se estabelece nos Estados Unidos ocupando o lugar de uma fábrica americana da GM e põe operários chineses e americanos para trabalharem juntos. O olhar racional das câmeras transita em uma edição nervosa e interessante transmitindo uma sensação de tensão nesse fluxo por ambos os lados. A ilustração muitas vezes caracteriza que as questões econômicas e políticas também são questões culturais. Entra em choque o modelo Ocidental contra o modelo Oriental e o desafio de unificar padrões diferentes de produção. Em um primeiro momento, a comunidade americana acolhe de braços abertos a presença da Fuyao e a promessa de oportunidades econômicas para a região. Os executivos da empresa projetam uma imagem de unidade, procurando integrar os empregados em suas práticas metódicas. O processo desanda rapidamente quando a empresa tenta descumprir muitos procedimentos de segurança e proteção dos trabalhadores. A expectativa é que a fábrica de Dayton atinja os mesmos níveis de produção de vidro que as fábricas da Fuyao na China. As dificuldades surgem, principalmente, quando os ideais sobre o trabalho e a linha de produção da empresa oriental não funcionam com os funcionários americanos, ainda em maioria na fábrica. O filme busca entender essas diferenças sem julgamentos ao realizar uma análise sobre os metódos de trabalho. Os operários chineses são motivados por um senso coletivo de missão, algo que é intensificado pelos executivos chineses, vistos no filme usando apelos nacionalistas para mobiliza-los e semear o antagonismo entre eles e os americanos. Já os operários americanos são tratados como preguiçosos por buscar direitos e bater de frente com os executivos da empresa. Uma das principais queixas é uma série de acidentes sofridos no trabalho devido a falhas nos procedimentos de segurança. Eles começam a se organizar para participar do sindicato United Auto Workers em busca de qualidade de vida no trabalho e melhores benefícios. Boa parte do filme é uma saga tensa e às vezes frustrante de tentar um equilibrio nesse conflito e também a bussca por humanizar todos os envolvidos, desde um simples operário imigrante como o alto escalão da empresa. No meio do caminho ainda surgem outras questões interessantes como as máquinas substituindo a mão de obra humana. Com uma direção precisa e uma reflexão sobre as diferenças de pensamentos, o filme é um documentário que pode também servir de alerta sobre o abuso dos grandes empresários na busca cega por lucro.. "CAPITALISMO SELVAGEM".


O filme está disponível no catálogo da Netflix.

Hype: BOM  - Nota: 7,5

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

LINK PERDIDO (2019) - "Missing Link" de "Chris Butler"


Filme animado vencedor do Globo de Ouro e indicado ao Oscar 2020 de Melhor Animação e é mais uma produção criativa do estúdio Laika que mesmo sem o brilho hábitual do estúdio vale muito ser visto.

Não é de hoje que a Laika Entertainment, LLC. chama a atenção no ramo das animações, o estúdio norte-americano de animação stop-motion especializado em longas-metragens e outros conteúdos é mais conhecido por seus longas-metragens conceituais como os sucessos: Coraline e o Mundo Secreto (2009), ParaNorman (2012) e Kubo e as Cordas Mágicas (2016), que ganhou o Oscar de Melhor Animação para o estúdio. A mais recente produção Link Perdido segue a mesma linha usando recursos modernos da tecnologia Stop-motion, os movimentos são bem realizados e nem se percebe o quão trabalhoso é o uso da técnica. A trama se passa no ano de 1886 com um visual de época esteticamente atraente, com cores que fogem do habitual e uma fotografia que foge do comum. Inclusive tem uma linda cena que mostra a Estátua da Liberdade atracando no porto de Nova Iorque. Apesar da beleza visual a história não chega a ser seu ponto forte mesmo que seja bastante pontual na mensagem que busca passar, a animação tem bastante elementos para quem gosta do genêro que busca agradar tanto as crianças como os adultos. Infelizmente o desenho foi um fiasco de bilheteria, custou mais de 100 milhões e não arrecadou nem metade disso, um dos principais motivos foi o descaso da Disney em distribuir o desenho recebendo pouca divulgação em seu lançamento. Mesmo assim é uma produção encantadora, tanto que venceu outros medalhões da animação no Globo de Ouro e agora ganha novamente destaque concorrendo ao Oscar de animação. Na trama, cansado de viver uma vida solitária no noroeste do Pacífico, o Sr. Link recruta o destemido explorador Sir Lionel Frost para guiá-lo em uma jornada para encontrar seus parentes perdidos há muito tempo no lendário vale de Shangri-La. Junto com a aventureira Adelina Fortnight, o trio se depara com diversos perigos enquanto viajam para os confins do mundo.Entre os dubladores da versão original estão Hugh Jackman, Emma Thompson, Zoe Saldana, Zach Galifianakis e Timothy Olyphant. Mesmo se perdendo em um tema bastante explorado pelos estúdios, recentemente outros dois desenhos abordaram a lenda do pé grande, Pé Pequeno (2018) e Abominável (2019), o toque de originalidade e a nova perspectiva é o principal frescor de Link Perdido se destacando pela abordagem madura de seus carismáticos personagens em uma aventura divertida. BEM REALIZADO.


O desenho foi exibido rapidamente nos cinemas e em breve estará disponível em Video On Demand e Plataformas digitais.
Hype: BOM - Nota: 7,0

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

HONEYLAND (2019) de "Tamara Kotevska" e "Ljubomir Stefanov."


Filme-documentário macedônio indicado ao Oscar 2020 mostra o poder de uma história, é uma bonita lição de vida de uma das personalidades mais fascinantes do cinema em 2019.

O documentário acontece na vila rural de Bekirlijia, cerca de 55 km a sudeste da capital do norte da Macedônia, Skopje. Os dois co-diretores descobriram enquanto pesquisavam em um documentário ambiental uma apicultora quase solitária e decidiram registrar sua vida ao se apaixonarem por seu modo de vida. A equipe passou três anos no local para os registros. O filme ganhou o prêmio Sundance World Cinema Grand Jury de 2019 para documentário e dois prêmios especiais do júri por fotografia e impacto por mudança. É o primeiro filme indicado ao Oscar de Melhor Documentário e Melhor Filme Estrangeiro simultaneamente. Tudo acontece graças a Hatidze, uma personagem real e dona de uma doçura fenomenal ao tratar cuidadosamente das abelhas, respeitando religiosamente o meio natural e o ecossistema em que vive. Além de tratar da abelhas ela também cuida da sua mãe, já bastante idosa e cheia de limitações, sem conseguir sair da cama. Elas vivem em uma pequena casa sem água corrente ou eletricidade, em uma aldeia abandonada. Em visitas episódicas a Skopje, a maior cidade da região, constituem os raros momentos em que ela vê mais gente e pode vender o mel cultivado, comprando algo para a sobrevivência e consumo. A calmaria de Hatidze termina com a chegada de novos vizinhos. Desacostumada com o barulho externo e vivendo para cuidar de sua mãe, ela acompanha com um olhar desavisado uma família turca entrando em seu mundo particular. Eles também se tornam apicultores em sua região e não seguem as mesmas regras naturais que a sua, o equilíbrio do ecossistema das abelhas é ameaçado e Hatidze precisa se esforçar para persuadí-los a seguir os pilares elementares para a sobrevivência das mesmas. Mas o inepto Hussein, instigado por um comerciante, favorece o lucro sobre a sustentabilidade e retribui a bondade com destruição impensada. E é justamente por sentirmos tão facilmente a bondade e simplicidade da personagem que o constraste de Honeyland é tão duro. Apesar de se tratar de um documentário, os diretores delineiam o filme a ponto de fazer com que os fatos que rodeiam Hatidze transformem essa história em algo poético que muitas vezes nos esquecemos que se trata de um documentário. A presença dos diretores é discreta e não percebida. Com uma fotografia impressionante, Honeyland nada mais é que uma história sobre como o ser humano é capaz de viver de forma honesta e feliz com o que tem em mãos, enquanto também fala sobre como somos capazes de desmoronar nossos valores em prol do capitalismo. Este é um estudo sobre a ganância e uma reflexão sobre valores mas também uma poesia silenciosa sobre retribuição. Há vários momentos de sensibilidade ilustrando como a humanidade se perdeu na modernidade e a esperança de um mundo melhor surge ao conhecer Hatidze. Um registro inesquecível. "UMA METADE PARA MIM, OUTRA PARA VOCÊS".


O filme não tem previsão de estréia no Brasil!

Hype: EXCELENTE - Nota: 9,0

domingo, 2 de fevereiro de 2020

PERDI MEU CORPO (2019) - "J'ai perdu mon corps" de "Jérémy Clapin"



Animação francesa premiada no Festival de Cannes e indicada ao Oscar é uma produção independente com beleza, poesia e originalidade. 

O diretor Jérémy Clapin passou quase oito anos trabalhando no filme, sua estréia no cinema, em 2019 ao ser exibido no Festival de Cannes, foi aclamado e premiado, sendo a primeira vez que uma animação de longa metragem ganhou a prestigiada seleção paralela de Cannes, o Grande Prêmio da Semana da Crítica. Sua carreira de sucesso ainda ganhou destaque em outros diversos festivais chamando a atenção da Netflix, que comprou os direitos para sua distribuição mundial contribuindo para que mais pessoas tivessem o acesso a essa surpresa de 2019. Recentemente a produção foi lembrada pelo júri do Oscar 2020 com uma indicação na Categoria Melhor Animação, aumentando ainda mais seu prestígio. Na trama, uma mão decepada escapa de um laboratório e inicia uma jornada angustiante de volta ao seu corpo, pertencente ao jovem Naoufel. O menino que aspirava ser pianista e astronauta, perdeu os dois pais em um acidente de carro e foi forçado a viver com seu tio emocionalmente distante e seu primo bruto. Deprimido e sem esperança o garoto vive uma jornada de resiliência. É uma história forte e com uma incrível mensagem sobre mudar as coisas, fazer algo incomum e se afastar da linha reta quando tudo não está legal. Segundo Jérémy Clapin, seu objetivo é que os espectadores esqueçam que estão assistindo a um filme de animação, tornando o filme estruturado como um quebra-cabeça. A idéia não é contar a história de um homem que perde uma mão, mas de uma mão que perde um corpo. Dessa forma se segue um modelo de filme muito clássico - a história de dois personagens criados um para o outro, mas separados pelo destino. Eles começam juntos, se separam pelo destino e precisam se encontrar novamente. A jornada é emocionante principalmente pela boa sacada da mão expressar emoções sem o benefício de um rosto em suas aventuras extremas e perigosas. O recurso da animação e os traços não são fenomenais porém o conjunto da obra é algo agridoce, sentimental e aterrorizante. Embora Naoufel tenha as duas mãos quando o encontramos pela primeira vez, não é muito difícil adivinhar o rumo dos acontecimentos, já que a primeira imagem do filme é do seu rosto manchado de sangue. As histórias gêmeas não se entrelaçam, a jornada da mão é uma aventura a partir do seu início silencioso, quase de um filme de terror, em que a mão sai de uma geladeira cheia de pedaços de corpos humanos incluindo vários globos oculares. A história de Naoufel tem sua doçura, beleza e tristeza, porém sem frescor. Quando o filme é focado na mão, é incrível. Todas as mesmas coisas que fazem a animação humana parecer um pouco desanimadora são muito melhores para a mão, um "personagem" inerentemente grotesco, mesmo nos momentos em que não estão deliberadamente cortejando imagens de filmes de terror. Ainda que possam sugerir a personagem clássica de A Família Addams, mãozinha, são abordagens e caminhos bem diferentes. A "atuação" inteligente que a mão faz ao observar o mundo à sua volta traz uma abordagem visual que também significa que o filme pode apresentar alguns ângulos surpreendentes e astutos que fazem qualquer local parecer incrivelmente grande e detalhado, ou terrivelmente esmagador. É um ótimo uso da animação, dando-nos uma perspectiva arrojada que cobre praticamente todas as emoções disponíveis. Dessa forma ocorre o equilíbrio, na jornada da mão temos uma aventura empolgante e na jornada de Naoufel uma emoção a flor da pele. Talvez até mais do que qualquer aspecto de sua técnica visual, o filme se beneficia da trilha sonora do compositor Dan Levy focada em sintetizadores. Perdi Meu Corpo tem o ajuste perfeito de suas qualidades, criando um clima sonhador e com toques de horror em um belo espetáculo animado. FORA DA CAIXINHA!


O Longa Animado está disponível na Netflix!

Hype: ÓTIMO - Nota: 8,5

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

HISTÓRIA DE UM CASAMENTO (2019) - "Marriage Story" de "Noah Baumbach"


O talentoso e experiente diretor Noah Baumbach consegue reabrir o tema  relacionamentos com um certo frescor em um filme que atualiza a problemática do casamento, das vontades pessoais e das angústias contemporâneas de maneira eficaz e emocionante.

O cinema já trouxe diversos filmes que ficaram marcados pela abordagem forte de relacionamentos e separações, um exemplo bem próximo porém distante é o esquecido vencedor do Oscar de Melhor Filme em 1980, Kramer Vs. Kramer, mesmo em épocas bem distantes é interessante como a evolução do ser humano ainda obedece formalidades que mais atrapalham do que ajudam nesse processo. O filme trata de um divórcio entre um diretor de teatro e uma atriz que possuem um filho. Durante o processo de divórcio mostra-se o processo de brigas e mudanças de cidades de Nova York para Los Angeles. Mesmo com uma concepção sensata que a melhor maneira de terminar um casamento seria de maneira amigável, nem sempre isso é possível pelos obstáculos que podem surgir dessa decisão, incluindo questões judiciais. Isso inclusive rende a atriz Laura Dern mais uma atuação acima da média em sua filmografia, interpretando Nora Fanshaw, uma espécie de craque na advocacia, que utiliza todas as artimanhas para que a esposa ganhe o máximo na separação. Na verdade o trabalho dos três advogados que passam pelo filme é um suporte interessante na mensagem do filme, além de Nora tem Alan Alda interpretando Bert Spitz, advogado humanista e pouco interesseiro, que acredita nos clientes como humanos e Ray Liotta é o cínico e sujo Jay Marotta, único capaz de vencer a advogada de Nicole porque joga mais sujo que ela. Os embates angustiantes do casal interpretado por Adam Driver e Scarlett Johansson, que se gostam mas precisam se separar, é frigído como um relacionamento perto do fim, ficando a cargo dos advogados movimentar a trama. O filme ainda prepara cada cena para ser um ato triunfal, quase um ensaio teatral. A bipolaridade dos momentos é perturbador, se misturam sensações que vão da alegria a tristeza, da realidade compartilhada a solidão interna, do engraçado ao triste e da beleza dos sentimentos a frieza da razão, tudo muito alinhado na história. O cinema de Noah Baumbach é quase uma colagem de grandes mestres como Igmar Bergman, Robert Altman, Woody Allen e outros, mesmo que seu filme tenha uma identidade própria e saiba fugir dos clichês. O roteiro evita demonizações dos personagens e o toque de humanidade pode emocionar quem já viveu ou vive algo parecido, porém falta tempero, soa plástico e anti-natural, tudo organizado para ser um clássico contemporâneo como provavelmente foi Kramer vs. Kramer em sua época. Não que isso seja um problema, longe disso, quando um filme consegue ir além do seu papel de arte sendo intrínseco ao expectador é a prova que ele atingiu seu principal objetivo como drama. GENEROSO E DRAMÁTICO.


O filme está disponível no streaming da Netflix.

Hype: ÓTIMO - Nota: 8,5

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

DOIS PAPAS (2019) - "Two Popes" de "Fernando Meirelles"


Produção realiza interessante paradoxo sobre formalidades do principal líder de uma das principais religiões do mundo com humanidade, respeito e facetas boas e ruins de uma das posições mais relevantes do meio religioso.
O filme original Netflix com base na obra de McCarten, "O Papa" trata de um tema bastante delicado, observamos visões sobre o mundo pelo olhar da religião católica focado também na transição do papado. O diretor brasileiro Fernando Meirelles famoso por produções como Cidade de Deus (2002), O Jardineiro Fiel (2005) e Ensaio Sobre a Cegueira (2008) realiza uma obra interessante sobre os formalismos da igreja católica e como isso é tratado por quem lidera uma legião de pessoas que segue seus dogmas. Os personagens possuem um humor sútil e também bastante humanidade pela posição que ocupam frente a religião, Anthony Hopkins e Jonathan Pryce conseguem realizar um trabalho inspirado de atuação com carisma e complexidade. O roteiro transita com perspicácia por momentos sutis e também não sobrecarrega o drama. Não é um filme sobre religião e sim sobre duas pessoas. A produção também se destaca pela fotografia e a representação quase real do Vaticano. Na trama o cardeal argentino Jorge Bergoglio (Jonathan Pryce) está decidido a pedir sua aposentadoria, devido a divergências sobre a forma como o papa Bento XVI (Anthony Hopkins) tem conduzido a Igreja. Com a passagem já comprada para Roma, ele é surpreendido com um convite da própria autoridade suprema do catolicismo para visitá-lo. Ao chegar, iniciam uma longa conversa, na qual debatem não só os rumos da religião católica, mas também afeições e peculiaridades da personalidade de cada um. A história não chega a ser uma grande novidade porém sua construção e condução que se destaca. Realidade e ficção se misturam e o grande poder da trama é mostrar que todos estão sujeitos a erros e que a necessidade da mudança não é uma escolha e sim uma característica da sociedade. SENSATO.

O fillme teve exibição em circuito limitado nos cinemas e está disponível na Netflix.
Hype: ÓTIMO – Nota: 8,5

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

JUDY : MUITO ALÉM DO ARCO-ÍRIS (2019) de "Rupert Goold"


Com atuação acima da média de Renée Zellweger, filme revisita história familiar de Judy Garland em biografia sobre seus últimos momentos de vida em trajetória pouco confortadora.

A adaptação do musical "End of the Rainbow" do quase novato no cinema Rupert Goold (A História Verdadeira, 2015), acompanha Garland em sua fase trágica e bucólica no showbizz, enfrentando turbulências internas. A decisão de contar o drama pessoal da famosa estrela do clássico filme "O Mágico de Oz" intercalado com números musicais não apresenta primor gerando uma desconexão na totalidade da obra. O destaque e todo brilho fica por conta do requinte da produção e do trabalho de atuação de Renée Zellweger, de volta a um musical após anos do sucesso Chicago (2002) e ocupa o papel do ícone musical em uma saga de luta contra seu passado. O registro pode ser pontuado por uma memória pouco "saudável" mesmo que coerente com os fatos e com o lado humano atormentado de uma das maiores celebridades do cinema. A produção foca em suas inseguranças que ao longo da sua vida foram agravadas por executivos de cinema que atormentavam a estrela com comentários sobre sua aparência. Judy Garland suportou décadas de uma longa luta contra o vício em medicamentos usados  para controlar seu peso e aumentar a sua produtividade, falecendo de uma overdose acidental aos 47 anos, deixando duas filhas, Liza Minnelli, Lorna Luft e o filho Joey Luft. Mesmo problemático em alguns aspectos, a biografia apresenta passagens interessantes, como quando o magnata do estúdio Louis B. Mayer diz a Judy. "Eu faço filmes, mas é seu trabalho dar sonhos a essas pessoas", olhando-a enquanto andam pelo cenário do sucesso O Mágico de OZ. Durante o filme essas memórias fragmentadas aparecem com uma frequência nem sempre alinhadas com a trama, que em resumo é a atriz e cantora chegando em Londres para se apresentar na boate Talk of the Town em 1968. Lá, ela relembra velhas histórias com amigos e fãs e começa um romance com o músico Mickey Deans, seu futuro quinto marido. Sem muito foco na construção de um interesse do espectador por essa importante musa do cinema e da música, o filme acelera relações importantes e acrescenta sub-tramas que no geral fazem do seu conteúdo um relato intensamente triste, quando Garland sobe ao palco o filme ganha vida com raízes  teatrais que alimentam a energia de uma história que investe no tumulto psicológico indo ao encontro com o melodrama. O legado da artista dificilmente caberia em um filme de 2 horas mas sua arte precisa ser conhecida por essa geração mesmo que seja de uma forma tão melancólica e descompensada. DRAMA NO PILOTO AUTOMÁTICO.


O filme estreia nos cinemas nesta Quinta-feira (30/01) pela PARIS FILMES.

Hype: BOM - Nota: 7,5

sábado, 25 de janeiro de 2020

OS MISERÁVEIS (2019) - "Les Misérables" de Ladj Ly



Filme francês premiado em Cannes e indicado ao Oscar de filme internacional é um drama policial com intensa analogia ao conflito de Montfermeil em uma Paris atual que agoniza em uma guerra urbana. 

O cinema tem um grande papel de muitas vezes gritar ao mundo urgências, o primeiro longa-metragem narrativo de Ly é uma reflexão que o ser humano não evoluiu independente da tecnologia e da mudança de gerações, fato. O longa retrata as tensões entre a polícia anti-crime de Paris e a pobre população muçulmana que eles atormentam e reprimem, revisitando o subúrbio francês de Montfermeil nos dias atuais, mostrando que pouco mudou desde o conflito que gerou uma das obras mais aclamadas da França, Os Miseráveis. Por esse motivo o filme aproveita o título do romance clássico de Victor Hugo sobre as leis da natureza e da graça. O filme ganhou em decisão dividida com o brasileiro Bacurau o Prêmio do Júri do Festival de Cannes de 2019, duas produções que possuem uma relevância social interessante. O retrato das injustiças é um tema global muito necessário de ser discutido independente da produção não conseguir extrair grandes momentos e tem sua força principalmente na tensão dos atos e elenco, uma mistura de atores profissionais com moradores da região. O cinema francês nos últimos anos mostrou interesse em sair de sua bolha de glamour com temas que rompem a fronteira do país e chama a atenção do mundo pela realidade nua e crua, filmes como Entre os muros da Escola (2008) e Polissia (2012) são bons exemplos que seguem bastante essa linha de pensamento. Os Miseráveis encara seu tema de frente principalmente em expor a complexidade étnica do país: negros, mestiços, árabes e brancos se combinam num mesmo espaço de tela explodindo pontos de vista conflitantes. Ainda que seja uma tratativa ampla de situações delicadas, permanece longe da realidade de muitos países, como o próprio Brasil. O corroteirista e diretor Ladj Ly, parisiense de família imigrante do Mali, mora em Montfermeil até hoje e o elenco inclui seu filho, Al-Hassan Ly, que faz o garoto que controla o drone, ponto central da história. Ele transita em lugar seguro e muitas vezes condiciona os personagens a clichês de gênero e a superficialidades sem ir a fundo em suas camadas indivíduais. A produção entrega uma história nervosa com um clímax eletrizante que no geral, se conforma em impressionar o espectador com ações violentas sem ir a fundo em seu viés filosófico. REALIDADE MODERNA.


O filme ainda está em cartaz em alguns cinemas pela Diamond Filmes!

Hype: BOM - Nota: 7,5

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

UM LINDO DIA NA VIZINHANÇA (2019) - “A Beautiful Day in the Neighborhood” de "Marielle Heller”



“Carisma de Tom Hanks e história sobre a empatia de Fred Rogers são os pontos positivos de uma produção cansativa mas com certa beleza estética e boas intenções.”

Baseado em um artigo da revista Esquire de 1998 de Tom Junod, sobre uma famosa entrevista que se transformou em uma intervenção positivista. Junod, no filme Lloyd Vogel (interpretado por Matthew Rhys), durante a matéria mudou não só sua visão em relação ao seu entrevistado como também o que pensava sobre o mundo, iniciando uma inspiradora amizade com o famoso apresentador de programa infantil. Com a aproximação, os papéis se invertem. Fred faz com que o jornalista se revele e traga à tona traumas pessoais potencializados pelo retorno do pai, Jerry (Chris Cooper), que se ausentou em momento particularmente triste da sua jornada familiar. Há um interessante contraste entre a ambientação do programa  infantil de Fred (ingênuo, lúdico, com fantoches e cenário em miniatura) e o seu passado dramático. Essa interseção é de fácil assimilação dependendo do conhecimento do expectador sobre a figura de Rodgers. Famoso nos EUA e pouco conhecido no Brasil, Fred Rodgers era um pedagogo e artista norte-americano, ministro da Igreja Presbiteriana, que se notabilizou como apresentador televisivo, autor de letras para canções educativas e apresentador de programas de tv para crianças e jovens. Dessa forma, a incrível metáfora de Heller com roteiro simplista tem um certo brilho também graças a representação do experiente ator Tom Hanks, em um trabalho excepcional, com textura e nuances, saindo um pouco da linha de atuação dos seus últimos papéis de destaque em Sully - O Herói do Rio Hudson (2016) e Capitão Phillips (2013), o Rodgers de Hanks é construido como base de apoio na história, é nesse ponto onde ele vira coadjuvante e a produção perde um pouco de força. Hanks faz uma imitação física perfeita e mesmo com as distrações visuais interessantes proporcionadas pela diretora Marielle Heller (Poderia Me Perdoar, 2018), em sua totalidade não consegue que o filme seja pulsante. Os momentos de silêncio e vazio juntamente com a falta de uma agilidade na edição não fazem bem ao ritmo do filme, Fred Rogers tem um potencial enorme como figura ilustre e conseguiu ser referência em sua determinação positiva em busca da empatia. O filme mostra isso de maneira burguesa, se afastando de uma realidade global e em muitos momentos entregando algo plástico, fantasioso e bastante íntimo e pessoal do personagem. A vida é bem mais complexa do que apresentado no filme porém sua lição sobre respeito e empatia é primordial principalmente nos tempos atuais onde as pessoas buscam a guerra e o desconforto. Qualquer mensagem de paz é necessária. No geral, faltou um gás ou um senso de urgência para que ele engrenar por completo. AMERICAN WAY OF LIFE.



O filme está em cartaz nos cinemas pela Sony Pictures.

Hype: BOM - Nota: 7,0

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

1917 - (2019) de "Sam Mendes"


O diretor Sam Mendes transforma o terror da guerra em uma obra-prima construída de uma experiência cinematográfica imersiva realçada na qualidade de sua produção e da técnica inovadora que dá ao espectador a sensação de participar de uma guerra junto com os personagens.

Hollywood há muito tempo se destaca na representação da guerra de variadas formas e estilos. Algumas das imagens mais marcantes do cinema vêm de dramatizações de batalhas e na obsessão do cinema de representar tal acontecimento. Tudo praticamente começou com Asas (1927) primeiro ganhador do Oscar de Melhor Filme e o primeiro grande blockbuster de guerra americano. Com o passar dos anos surgiram filmes inesquecíveis, cada um com suas qualidades e também um grande poder em apresentar sua mensagem sobre um dos maiores equívocos do ser humano, a guerra. Alguns desses filmes são inesquecíveis e lindos, como a exuberância poética de Além da Linha Vermelha (1998) de Terrence Malick, outros são explosivos e épicos como Apocalypse Now (1979) de Francis Ford Coppola ou Platoon (1986) de Oliver Stone. E ainda tem Steven Spielberg, o maior mestre de Hollywood que fez filmes sobre as duas guerras mundiais (Cavalo de Guerra (2011) e O Resgate do Soldado Ryan (1998) apresentando sequências de batalhas emocionantes que não economizam na riqueza de detalhes e brutalidade. Algo em comum desses filmes é que são todos baseados em personagens centrais relevantes ou em temas. Nas últimas décadas se observa uma nova maneira de retratar a guerra no cinema com filmes cada vez mais intrínsecos e muitas vezes silenciosos em abordar o horror por si só de uma maneira imersiva, quase particular. Tudo ganhou forma com o premiado Guerra ao Terror (2008) de Kathryn Bigelow e outros longas interessantes que vieram a seguir como o chocante e premiado filme húngaro O Filho de Saul (2015), o interessante e tenso filme dinamarquês Terra de Minas (2015) e no visualmente deslumbrante Durkink (2017) de Chistopher Nolan. Sam Mendes espertamente cria dentro de todos esses parâmetros praticamente um clássico instântaneo com  muito desses elementos modernos vistos nesses filmes citados, em grande parte, a serviço de sua grande façanha de acompanhar o pesadelo fantasmagórico da primeira guerra mundial em uma narrativa ambiciosa porém simples, filmada em primeira pessoa onde se acompanha o horrível combate de trincheiras da Primeira Guerra Mundial, uma das realidades mais cruéis da humanidade. O filme de Sam Mendes tem uma proeza técnica que transforma essa missão sombria em um thriller de ação polido e projetado para parecer que foi todo filmado em uma cena individual de duas horas onde aproveita todas as inovações da tecnologia cinematográfica para criar essa incrível sensação. A câmera segue os cabos William Schofield (George MacKay) e Tom Blake (Dean-Charles Chapman) enquanto atravessam um campo de guerra para alertar as tropas sobre uma armadilha inimiga. A idéia de centrar o filme na experiência do espectador em ser um soldado de guerra não é perfeita, tem seus pesares, acaba por tirar a profundidade dos personagens. Atores mais conhecidos, como Colin Firth, Andrew Scott, Mark Strong e Benedict Cumberbatch fazem breves aparições, mas como a missão exige que os heróis continuem sua jornada essas estrelas partem com a mesma rapidez que aparecem em cena, incapazes de acompanhar a câmera, é uma escolha até cruel com os personagens mais necessária para a história tendo em vista a fluidez da missão.  O roteiro de Mendes e Krysty Wilson-Cairns sugere a futilidade do final da Primeira Guerra Mundial, durante a qual milhões de homens se levantaram das trincheiras em direção à morte certa. Filmado em uma tomada extraordinária do diretor de fotografia Roger Deakins, apenas com edições digitais ocultas em momentos que perdemos os soldados de vista ou em momentos de escuridão e explosão, tudo que é apresentado realça a qualidade da produção e a técnica inovadora que dá ao espectador a sensação de participar de uma experiência cinematográfica incrível. As tomadas ampliadas parecem existir para aumentar a tensão de sua missão, forçando a história a progredir em tempo real e transmitindo a sensação de uma bomba relógio prestes a explodir. A conquista visual de Mendes e sua equipe é inegável, o filme pulsa em tela com imagens incríveis e cenas de encher os olhos, várias delas podem ser citadas como as mais bonitas do cinema em 2019. OBRA PRIMA.


O filme estreia nos cinemas em 23/01 pela Universal Pictures.

Hype: EXCELENTE - Nota: 9,0