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quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

KASA BRANCA de Luciano Vidigal

Um olhar poético sobre a periferia e a quebra de estereótipos masculinos.


Inspirado em uma história real, KASA BRANCA acompanha Dé (Big Jaum), morador da periferia de Chatuba, que passa a viver com sua avó Dona Almerinda (Teca Pereira), diagnosticada com Alzheimer e com pouco tempo de vida. Dé, ao lado de seus dois amigos inseparáveis Adrianim (Diego Francisco) e Martins (Ramon Francisco), tentam aproveitar a convivência com a avó da melhor forma antes que ela perca totalmente sua consciência. Essa amizade entre eles transborda sensibilidade em diversas camadas, seja no drama pessoal de Dé ou na vivência de uma juventude que muitas vezes possuem uma realidade cheia de amarras devido às desigualdades sociais.

Com roteiro e direção de Luciano Vidigal, que já coleciona créditos como diretor de longas como “5x Favela: Agora por Nós Mesmos” e o documentário “Cidade de Deus: 10 Anos Depois”, todos em parceria com outros cineastas. Kasa Branca é sua estreia na direção solo, o filme se constrói com um roteiro que não se apega ao melodrama, a jornada dos rapazes é sensível e honesta, quase uma poesia sobre o sentimento de empatia com a jornada de cada um. Isso ofusca um pouco os coadjuvantes, alguns bem interessantes que poderiam ter mais espaço, mas nada que tire o brilho desses personagens.

O filme acerta ao mostrar que é normal e saudável para os homens expressarem suas emoções. Em um país como o Brasil onde ligamos o noticiário e presenciamos cada vez mais feminicídios, os padrões de masculinidade impedem os homens de expressarem seus sentimentos sem culpa e isso pode representar um gatilho para o retrocesso da aceitação da diversidade e da liberdade de expressão nas suas variadas formas. Kasa Branca causa um impacto emocional agradável e expõe com positividade a busca da construção de uma sociedade mais igualitária e compreensiva. O filme mostra que ser vulnerável não é uma fraqueza, mas sim uma força. Um bom lançamento nacional!


🎞 O filme chega aos cinemas 29/01 em algumas cidades e fará parte do projeto Vitrine Petrobrás.

quarta-feira, 3 de abril de 2024

UMA FAMÍLIA FELIZ (2023) de José Eduardo Belmonte

 


         👨‍👩‍👧‍👦 Os dramas da maternidade e das pressões sociais ‍👩‍👧‍👦

   Uma família feliz é um thriller psicológico ou um suspense dramático com doses homeopáticas de tensão, o filme do experiente diretor José Eduardo Belmonte foi gravado em Curitiba e tem como protagonistas duas estrelas do audiovisual brasileiro, Grazi Massafera e Reynaldo Gianecchini. Eles desbravam as tensões das relações familiares e do mundo de aparências de um condomínio perfeito, em uma trama sobre infância e maternidade.

   Eva (Grazi) acabou de dar à luz o seu terceiro filho e se depara com a angústia de uma depressão pós-parto em meio a uma vida burguesa supostamente perfeita. O ar tranquilo de sua família feliz é invadido por acontecimentos estranhos quando suas filhas gêmeas aparecem machucadas. Eva é acusada e retaliada pela comunidade. Isolada e questionada por seu próprio marido, ela precisa superar sua fragilidade para provar sua inocência e reestruturar sua família.

   A história original e o roteiro do longa são do escritor Raphael Montes (“Bom Dia, Verônica”), que também estreia como diretor-assistente. O argumento também deu origem ao livro homônimo, já disponível nas livrarias. O filme é 15º longa-metragem dirigido por José Eduardo Belmonte, diretor que tem uma história construída em Brasília no início dos anos 2000, inclusive, era comum seus filmes serem exibidos no Festival de Brasília, sempre com produções muito ousadas, como “A Concepção” (2005) que continua como um dos mais interessantes de sua filmografia.

   O que tinha de diferencial no diretor em suas produções se tornou seu principal pecado ao lidar com o comum, a limpeza da sociedade era questionada e destruída por uma cena underground vibrante e corajosa, Uma família feliz é o oposto disso, muito polido e sem qualquer frescor social, os temas são tratados de forma superficial e se salva pelo suspense bem construído e uma Grazi Massafera em boa atuação, mas é pouco brilho e muito potencial. 

   O filme é uma boa produção que se perde durante sua condução que transita no lugar comum e não se sustenta de forma efetiva no seu mistério, perde potencial em se concentrar nos clichês do drama de sua protagonista, entregando algo próximo de um folhetim da TV e se afastando do cinema.


⭐️⭐️ REGULAR

👀 O filme estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 4 de abril.


terça-feira, 23 de janeiro de 2024

BIZARROS PEIXES DAS FOSSAS ABISSAIS (2024)

 


🐠 Uma jornada em busca de superação aos vazios. 🐠 A animação brasileira anárquica tem uma história perfeitamente comum, extraordinária em vários aspectos e emocionante, que perpassa todos os traços e movimentos caóticos . 


    🐠 Uma mulher com exóticos superpoderes, uma tartaruga com transtorno obsessivo-compulsivo e uma nuvem com incontinência pluviométrica em uma insólita jornada até as profundezas do oceano, isso é o suficiente de informações para embarcar nessa excêntrica viagem. O premiado diretor de curtas de animação Marcelo Marão, mais conhecido como Marão, estreia na direção de um longa após catorze curtas em quase trinta anos trabalhando com animação, seu primeiro longa é também seu primeiro filme com uma protagonista feminina, dublada pela atriz Natália Lage. O elenco de vozes conta ainda com Rodrigo Santoro e Guilherme Briggs. 

     🐠 Essa jornada funciona apenas para possibilitar bizarras situações de humor nonsense durante todo o filme, o trio de personagens centrais tem uma química muito envolvente e cativante, a comédia flui de forma bem leve. A animação em 2D tradicional é utilizada seguindo a técnica chamada de full animation, na qual todo o personagem se move e não apenas partes dele: se ele corre, todo o personagem é redesenhado para movimentar os braços e pernas e também os cabelos e roupas, criando um movimento mais fluido essencial para as - muitas - cenas de ação e de luta deste que é um longa animado de uma super heroína. 

       🐠 Marão tem uma técnica bastante autoral, com um visual interessante, traços bonitos transitando no preto e branco e no colorido. O enredo maluco convence com algumas restrições, nem sempre tudo está alinhado gerando um pequeno ruído mas nada que prejudique o resultado final bastante satisfatório. 


🖤🖤🖤 BOM 🙃 🐠🐠



quinta-feira, 13 de outubro de 2022

FÉ E FÚRIA (2019) de "Marcos Pimentel"

 

            Infelizmente a intolerância sobre a religião de matriz africana ainda é absurdamente grande, muito pela falta de conhecimento e ainda maior pela aversão a outro tipo de fé. Isso muito se deve por não ter um livro histórico dividido em vários capítulos que conte como ela surgiu e se desenvolveu com o passar do tempo além de não haver o hábito de reproduzir os costumes e sua história de geração para geração rompendo barreiras mais tradicionais. Quando o assunto é Candomblé ou Umbanda a falta de informação geralmente causa espanto e situações preconceituosas, outras religiões que pregam o cristianismo tratam seus adeptos como satanistas sem ao menos saberem como são as práticas e suas vivências, a dura realidade é que não existe respeito e empatia, apenas perseguição.
 
  Conhecido por seus documentários contemplativos e marcados pelo silêncio, em FÉ E FÚRIA, o mineiro Marcos Pimentel faz um longa pautado pela urgência do tema em favelas e subúrbios do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte. Ciente de que não poderia aplicar uma linguagem que não cabia aos seus entrevistados e entrevistas – pessoas que sofrem com a intolerância –, Pimentel procurou aquilo a que chama de a linguagem mais sincera para que seus personagens se abrissem diante de sua câmera. Houve uma pesquisa com as vítimas desse tipo de intolerância divulgados pela mídia, casos que se tornaram notícia como o a da menina Kayllane, que levou uma pedrada no meio da rua por estar vestida com trajes de candomblé, tem evidência no documentário.
 
     No geral, os vários depoimentos se desencontram e nenhum leva a um senso comum. Os "cristãos" com a velha mania de satanizar a fé alheia, já os de matriz africana acusam os cristãos por limitarem seus cultos (com razão). Mas não há um denominador comum no assunto religiosidade. É revoltante, é uma guerra santa, sempre com perseguições, militarismo, é uma questão longe de haver uma paz. O filme/documentário é fraco para quem faz parte desse meio, o início já traz revolta quando começa com uma passagem bíblica e isso já faz todo o restante não valer a pena. O filme mostra que os cristãos de hoje são os inquisidores do passado e não busca aprofundar isso. Para quem não faz parte desse universo serve como laboratório para o entendimento e empatia dessa vivência e ainda assim será uma experiência um tanto confusa por buscar sempre a "razão" de um dos lados. 

( Texto com colaboração de Silas Hohenstauffen  )






 

quinta-feira, 14 de abril de 2022

MEDIDA PROVISÓRIA (2022) de "LAZÁRO RAMOS"

 


ORDEM EXECUTIVA, FUTURO SOMBRIO - Às vezes, nuances e subtextos são os métodos mais fortes para atingir um público, permitindo que eles descubram organicamente o significado por trás de temas e atributos específicos de um filme. Outras vezes, usar uma marreta proverbial para golpear o espectador sobre a cúpula é a melhor maneira de passar sua mensagem, e é exatamente isso que Lázaro Ramos faz em seu primeiro filme solo como diretor. Medida Provisória é situado em um futuro não muito distante, o filme centra-se em uma série de eventos antes e depois que o governo brasileiro passa por uma série de mudanças radicais nas quais o governo reverte seus padrões de igualdade mais progressistas e tenta empurrar cidadãos “melanizados” para a África, numa espécie de "limpeza". Esse “incentivo” obviamente incomoda os brasileiros de cor e, embora alguns sigam o plano, a maioria protesta contra esse programa opressivo e abertamente racista. Muito rapidamente, no entanto, depois que apenas um pequeno número de pessoas concorda em sair voluntariamente, o governo, sem surpresa, promulga uma lei que força qualquer indivíduo de pele mais escura a deixar o país. Isso transforma o Brasil em uma zona de guerra distópica da noite para o dia, explodindo as cidades e favelas em turbulência e violência. O filme que contém algumas boas ideias, performances sólidas e alguns bons momentos, esbarra na natureza desarticulada do roteiro e faz com que a experiência no geral não seja tão provocadora como deveria, ainda que seja um bom filme. Alfred Enoch, Taís Araújo e Seu Jorge são algumas peças importantes do elenco. A maior parte do tempo de execução é gasto com Antônio e André presos em seu apartamento e Capitu tentando manter a si mesma e as pessoas que ela está escondendo com calma e sensatez. Isso faz com que o ritmo perca uma quantidade significativa de intensidade, levando muito mais a algumas revelações de enredo do que à narrativa no geral. O elenco complementar ainda conta com Emicida, Adriana Esteves, Renata Sorrah, Mariana Xavier e Rincon Sapiência em participações especiais. No geral, os temas abertos do racismo sistêmico, produz um nível superficial fascinante, ainda que um pouco demais para parecer que está realmente tentando dizer algo profundo. Uma sátira sombria de um evento ficcional devastador que deixa claro os caminhos perigosos do Brasil e do mundo em não refletir a história de opressão do seu povo, o coletivo e a diversidade. LUTA ETERNA POR IGUALDADE!


Em cartaz nos Cinemas!

Hype: BOM

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

EDUARDO E MÔNICA (2022) de "Renê Sampaio"


QUEM UM DIA IRÁ DIZER 🎵  A "canção-história" Eduardo e Mônica de Renato Russo do álbum "Dois" da banda Legião Urbana ganha um belo filme sobre a vida, sobre encontros, desencontros, sobre o amor e sobre Brasília. O diretor Renê Sampaio que também realizou a adaptação de Faroeste Caboclo (2013), mostra toda a força da composição atemporal de Renato Russo e transforma o filme em um romântico e dramático conto urbano. O adolescente Eduardo (Gabriel Leone) e a descolada adulta Mônica (Alice Braga) se encontram por acaso, apaixonam-se loucamente e vivem os altos e baixos de uma relacionamento na década de 80. O diferencial do filme é não se apegar a canção adaptada deixando a memória afetiva do espectador transitar enquanto rola a história. Obviamente cada trecho da música tem sua abordagem, a história se desenvolve no passo a passo como qualquer comédia romântica, as diferenças de personalidades começam  a gerar atritos que qualquer relacionamento pode ter ("A barra mais pesada que tiveram" da letra da música). Essa barra mais pesada ganha uma profundidade interessante imposta no filme, Mônica é estudante de medicina mas também é artista performática, filha de um artista plástico exilado pela ditadura militar. Eduardo não apenas "jogava futebol de botão com seu avô", mas foi criado por ele, militar da ditadura reformado (papel de Otávio Augusto). Esse conflito de ideais político soa como uma clara provocação a polaridade que vivemos atualmente. O drama sincero é de fácil apego e esconde algumas problemáticas que são detalhes que passam despercebidos, seja em incoerências no roteiro ou no excesso de didatismo. Com uma excelente reconstrução de época, Brasília está linda, vanguardista e provinciana como deve ser, a trilha de rock oitentista é deliciosa assim como as diferenças tecnológicas da época, além da ótima química dos protagonistas. Uma carinhosa e reconfortante forma de voltar no tempo e lembrar da poesia musical de Renato Russo. 

👀 CINEMA (Streaming: Telecine) - 👌 Hype: ÓTIMO 



quarta-feira, 31 de março de 2021

VALENTINA (2020) - "Cássio Pereira dos Santos"


 "Valentina é feito com bastante simplicidade, talento e tema importante que atinge o espectador graças a uma construção de personagem excepcional realizada por Thiessa Woinbackk"

         O filme vem chamando bastante atenção por onde passa, no momento já foi exibido em festivais on-line no Brasil e no mundo e busca recursos para uma possível exibição nos cinemas assim que possível. Protagonizado pela influenciadora digital e ativista trans Thiessa Woinbackk no papel-título, o longa também é a estreia do roteirista e diretor mineiro Cássio Pereira dos Santos e surpreende positivamente, é um filme diferenciado pela potência narrativa sobre a transformação humana e social. A personagem Valentina é acompanhada e apoiada apenas pela mãe (Guta Strasser, outro destaque), a garota busca em uma pequena cidade do interior de Minas Gerais recomeçar, quase atropelando as primeiras dificuldades que deveriam ter ficado na cidade anterior. Esta dupla de mulheres fortes vão lutar bastante para sobreviver com dignidade em meio a uma sociedade que não respeita a liberdade do outro. O mais interessante da história é como seu diretor e roteirista consegue fugir muito bem dos clichês e construir uma maturidade narrativa, a emoção e comoção vem ao natural e espontânea conforme se desenha sua problemática.


       Tudo começa com a adolescente Valentina (Thiessa Woinback) em sua despedida da cidade onde mora sendo incapaz de entrar em uma boate com suas amigas porque sua carteira de identificação oficial ainda a lista com seu nome de nascimento masculino. Ela mora com sua mãe solteira (Guta Stresser) e estão prestes a fazerem as malas e se mudarem para outra cidade. Ela e sua mãe são particularmente próximas e ela apoiou Valentina em todas as etapas da sua transição sendo sua defensora e protetora. Quando Valentina tenta se matricular no ensino médio da única escola da cidade, a diretora concorda que ela pode fazer a matricula com seu nome social de menina se também conseguir que seu pai afastado assine o formulário. Ele as abandonou porque Valentina é trans. Enquanto isso, Valentina toma uma decisão consciente de não contar a ninguém que é trans por causa de toda a hostilidade e ameaças de violência que sofreu no passado, ela acredita que cabe a ela decidir quando ela quer revelar seu gênero. As coisas pioram quando seu segredo é descoberto por alguém que começa a incitar a comunidade local contra ela.


         O filme acrescenta muito ao diálogo contínuo sobre a comunidade transgênero e toda sua angústia. A jovem Woinbackk oferece um desempenho cativante conseguindo engrandecer sua personagem, seja na emoção ou determinação. 
Ainda que seu final seja positivo e poderoso, o filme não deixa de frisar no final dos créditos a dura realidade da vida para as pessoas trans. (Estima-se que, no Brasil, cerca de 82% dos meninos e meninas trans abandonam a escola. A expectativa de vida dessa população é de 35 anos). A questão levantada no clímax do filme resume toda a obra, o incômodo nas outras pessoas em não respeitar a liberdade individual de cada um, o problema ainda é maior para uma pessoa trans, esse é o motim necessário e urgente desse filme que precisa ganhar uma trajetória ainda mais relevante e ser disponibilizado para um número ainda maior de pessoas. SEJA O QUE VOCÊ QUISER SER!



O Meu Hype conferiu o filme na 11° Mostra Audiovisual de Petrópolis realizado on-line.

O filme não foi lançado comercialmente devido a pandemia do Covid-19. Exibido em diversos festivais do Brasil e do Mundo on-line. Para lançar o longa nos cinemas brasileiros, a equipe do filme organiza uma campanha de financiamento coletivo na internet. 

Hype: ÓTIMO - (Nota: 9,0) 

segunda-feira, 29 de março de 2021

PARA ONDE VOAM AS FEITICEIRAS (2020) - "Eliane Caffé", "Carla Café" e "Beto Amaral"


 "Um grupo de artistas que explodem em diversidade e performance em uma metrópole que é um campo de guerra de uma sociedade perigosamente intolerante e reflexo de todo um país"

     O documentário apresenta um grupo de ativistas LGBTQIA+ que fazem intervenções artísticas e ações com foco no importante debate sobre desigualdades sociais, preconceitos e vidas marginalizadas, isso em pleno caldeirão do centro da maior metrópole do Brasil, São Paulo. O discurso sobre o coletivo, sobre o respeito a liberdade do outro, aprofunda-se na complexidade do ativismo e suas causas tão fundamentais a sociedade quanto conflitantes com valores retrógrados. O movimento composto por esses artistas crescem e com o passar da metragem do filme, eles mostram uma riqueza de personalidades, buscam em si a confirmação de convicções com a riqueza de seus manifestos, isso fica mais intenso quando eles compartilham traumas pessoais exemplificando o maior motivo de estarem ali, em uma vivência única, na clara concepção que não existe ativismo sem uma causa e sem pessoas que se identificam. A grande variedade de assuntos e recursos mostram uma produção com forte contribuição às lutas sociais além de um ótimo trabalho de produção da direção composta por Eliane Caffé, Carla Caffé e Beto Amaral. 


     O elenco apresenta 
Ave Terrena Alves, Fernanda Ferreira Ailish, Gabriel Lodi, Mariano Mattos Martins, Preta Ferreira, Thata Lopes e Wan Gomez. Eles ocupam um quadrilátero do centro de São Paulo e transformam o espaço público em um território de humor e tragédia naquilo que testemunham do preconceito em várias nuances. A produção é um retrato que explode em performance, cor e discurso em um revigorante vislumbre da comunidade LGBTQIA+ brasileira em meio ao momento mais delicado por se tratar de um dos grupos mais perseguidos pela onda conservadora do atual governo e de seus militantes. O pano de fundo para a maior parte do filme é uma rua movimentada no centro de São Paulo, onde somos apresentados ao grupo que montam ali esse parlatório. O filme começa seguindo os artistas conforme eles pedem aos vendedores permissão para filmar em seu trecho da rua, colocando os espectadores simultaneamente nos bastidores e na plateia. Os microfones e a equipe de produção entram e saem do quadro como parte do filme fluindo naturalmente entre a rua, um estúdio monocromático estilizado onde ocorrem os monólogos, clipes da atualidade e a interação com as pessoas que passam pela rua. O grupo canta, discursa para as câmeras e fala sobre temas como transfobia, anti-negritude, colonização e povos indígenas do Brasil, em uma conversa pública aberta, ainda que sejam encarados por alguns com um afronte subliminar de não aceitação. 


     O que mais se destaca nessa exposição é a confiança e a tranquilidade que os artistas demonstram quando são confrontados por uma opinião divergente, esse assédio é tão forte que necessita de um embate lúcido sobre as partes, esse tom mesmo elevado em alguns instantes possuem um poder enorme sobre como isso tratado pelas ameaças e por quais motivos elas acontecem. 
Em sua totalidade o filme propõe essa  série de intervenções equilibrando momentos sérios com um ar lúdico. A câmera procura o olhar espontâneo do campo de guerra e capta as imagens da performance e consequentemente da reação dos envolvidos. No geral, é uma obra abrangente e impactante, seja pela espontaneidade de algumas respostas, pelo duro enfrentamento do discurso de ódio e preconceito ou simplesmente pela potência das suas manifestações. Esse vislumbre "educacional" sobre movimentos e discussões importantes que acontecem no Brasil oferecem um exemplo de um ativismo corajoso que lida diretamente com os opressores. Para onde voam as feiticeiras tem em seus protagonistas uma enorme demonstração de coragem em um documentário necessário, atual e evolvente. IMPERDÍVEL.

O Meu Hype conferiu o filme na 11° Mostra Audiovisual de Petrópolis realizado on-line

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

VENTO SECO (2020) de "Daniel Nolasco"


 "Daniel Nolasco surpreende em filme corajoso sobre sentimentos homoafetivos, sexualidade e desejos no interior de Goiás" 

    O cineasta goiano Daniel Nolasco, diretor de diversos curtas e também dos documentários Paulistas (2018) e Mr. Leather (2019), apresenta um filme Queer sem medo de sua representação sexual explícita, onde realismo e artificialismo se misturam em uma das produções mais quentes do cinema gay nacional, tanto que o filme segue carreira nos principais festivais gays do mundo além de sua incrível estréia no Festival de Berlim deste ano. O protagonista Sandro (Leandro Faria Lelo) consegue expressar nuances interessantes de seu desejo sexual e também de seus sentimentos, em vários momentos eles precisam ser sucumbidos diante a situações comuns do desejo sexual masculino, muitas vezes escondido ou proibido, mas sempre muito acessível. É um filme bastante liberal e despreendido de qualquer censura, a câmera nervosa do diretor não deixa de mostrar virilhas em close-up, corpos nús e sexo explícito, tudo dentro do contexto da obra e para importante percepção do personagem e também do universo gay masculino. O desejo sexual parece onipresente com ele e isso representa o foco principal de sua jornada, sem tempo para questionamentos e bastante sentimental, é um filme sobre emoções. 


    Na trama, Sandro trabalha em uma fábrica agrícola e seus desejos estão cada vez mais intensos por um colega de trabalho e por suas aventuras sexuais. Ele é constantemente atraído por corpos masculinos e se perde em fantasias fetichistas em meio a solidão de uma vida no interior de Goiás. A previsão do tempo é constantemente mostrada no filme, em que a probabilidade de chuva é sempre 0%. O clima quente do cerrado brasileiro está sempre fervendo e o desejo físico nunca é completamente descarregado. Não importa se o personagem está tomando banho em um clube, trabalhando ou apenas passando na rua, os homens sempre vão exalar o calor da sexualidade aflorada e da energia sexual, sempre deixando algo no ar. Essa sensação é expressa de maneira descomplicada, além de seus sonhos eróticos e seus feitiches. Embora Sandro tenha um caso apaixonado com o colega de trabalho Ricardo (Allan Jacinto Santana), sua fantasia obsessiva e não realizada com Maicon (Rafael Theophilo) talvez seja a sua confusão sentimental e o principal conflito da trama.


    A explosão de erotismo de Vento Seco é ilustrada em cores saturadas e luzes neon, em certos momentos sua intensidade se choca com a pornografia, nada que a ternura de Sandro não consiga reverter tal aspecto para o lado vívido do personagem. As cenas de sexo são também um afronte a todo conservadorismo e tabu sobre o corpo masculino, a nudez feminina sempre se fez presente no cinema controlada por diretores héteros e suas musas, a nudez masculina é quase sempre estigmatizada e esse rompimento de padrões estéticos é bastante válido como forma de arte. Nolasco é bem-sucedido na direção escolhida, a ponte entre sexualidade e identidade funciona de forma grata e bonita no filme. Alguns personagens ainda poderiam render muito mais na trama, como a trans Paula (Renata Carvalho) em sua afetuosa amizade com Sandro, em um filme que surpreende pela naturalidade de seus argumentos de vínculos. Os fetiches do universo gay são transportados para o ambiente rural em um choque de realidade com uma incrível sintonia de uma ótima produção artística. O cinema LGBTQ+ brasileiro segue um caminho cada vez mais intenso e interessante com mais uma produção de destaque. O GAY LONGE DAS METRÓPOLES.


Não lançado no Brasil até o momento e exibido em Festivais Internacionais. Produzido pela Panaceia Filmes e distribuição da Olhar Distribuidora.

Hype: ÓTIMO (Nota: 8,0)

quarta-feira, 8 de julho de 2020

INDIANARA (2019) de "Aude Chevalier-Beaumel" e "Marcelo Barbosa"


O poderoso documentário observacional INDIANARA, lançado oficialmente no Festival de Cannes em 2019, finalmente chega no Brasil em momento delicado para as minorias.

    A natureza das comunidades LGBT+ atuais é a essência deste documentário filmado no estilo de guerrilha no período que antecede a eleição do atual presidente Jair Bolsonaro, Indianara levanta questões urgentes sobre o futuro iminente dos que vivem nas margens e além disso, expõe a humanidade e a necessidade dessas pessoas na luta pela igualdade social no Brasil. Após a decisão do Senado de remover a primeira mulher presidente do Brasil, Dilma Rousseff em 2016, a substituição pelo vice-presidente Michel Telmer se tornou uma época cheia de protestos caóticos. Durante esse período nebuloso surgiram diversos cineastas que por meio de histórias como essa se tornaram uma onda criativa e necessária de relatos desse Brasil, de processos políticos confusos, violência contra as minorias e retrocesso cultural. O gênero documental se consolida no Brasil com diversas produções de destaque mundial e Indianara é mais um relato poderoso da linha de frente da luta contra os conservadores. 



   A produção chega ao país pela plataforma de curadoria e streaming de filmes MUBI, em parceria com a distribuidora brasileira O2 Play e integra uma das estratégias da MUBI para dar mais visibilidade a filmes nacionais e internacionais, assim como foi feito recentemente com o Museu da Imagem do Som – MIS-SP e o Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba. O filme narra a trajetória da ativista transexual Indianara Siqueira, uma das idealizadoras da "Casa Nem", abrigo para pessoas LGBTQIA+ no Rio de Janeiro e retrata os atos de resistência da militante contra as ameaças aos transexuais no Brasil. Com 84 minutos de duração, Indianara faz um interessante retrato da ativista considerada um ícone da causa transexual. Após a perda da companheira de luta Marielle Franco, ela busca forças para continuar na resistência. O filme começa justamente na cansativa rotina da ativista em um cortejo seguido por meia dúzia de pessoas onde uma travesti morta num ato de transfobia se torna parte das chocantes estatísticas de crimes de ódio contra a comunidade no Brasil. 



    O Documentário é a oportunidade de uma visibilidade rica para um tema de questões sociais e políticas rodeado de preconceitos e entraves. Dirigido pela francesa Aude Chevalier-Beaumel (Rio Ano Zero, 2013) e (Sexo, Pregações e Política, 2016) e pelo brasileiro Marcelo Barbosa, em seu primeiro longa metragem, a atração desta história é a sua atitude em explorar as atividades políticas e a vida pessoal dos personagens, o ambiente reflete a personagem bem como seus hábitos. É uma parte importante para ajudar a preencher a imagem da humanidade e tocar em assuntos delicados de pessoas que não possuem opções, pois seus corpos já são uma manifestação política constante da qual não podem e nem querem fugir. Mesmo com o título do projeto, não há realmente uma preocupação em transformá-lo numa biografia, em vez disso, o foco da obra é no cotidiano atual de Indianara, em sua luta e nos riscos que enfrenta, ela é o reflexo de milhares de pessoas da linha de frente, do enfrentamento e da resistência de um país cada vez mais perigoso para um LGBT. UMA ATIVISTA REVOLUCIONÁRIA.


O filme está disponível aos assinantes da MUBI, no Brasil e em mais 194 países.

Hype: ÓTIMO - Nota: 8,0

sexta-feira, 26 de junho de 2020

PACARRETE (2019) de "Allan Deberton"


Marcélia Cartaxo brilha com a especial personagem Pacarrete, um misto de loucura e sonho em um drama sobre a velhice e a valorização da arte.

    O filme foi uma das produções mais premiadas de 2019 no Brasil com bem sucedida carreira nos principais festivais nacionais além de importantes passagens por festivais internacionais. A produção cearense foi uma das afetadas pelo fechamento das salas de cinema devido a pandemia do Covid-19, sua estreia em circuito nacional seria dia 30 de abril e foi adiada sem previsão de lançamento. O filme entrou no festival digital de pré-estréias realizado pelo Itaú Cinemas (Espaço Itaú Play) e transmitido pelo Looke. A trama é inspirada numa história real e teve sua estreia no Festival de Cinema de Gramado, onde saiu premiado com Melhor Filme, Melhor Filme Júri Popular, Melhor Direção, Melhor Atriz, Melhor Roteiro, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Desenho Sonoro e desde então já coleciona mais vinte e seis prêmios em festivais. A estréia promissora de Deberton na direção é inspirada em uma história real de uma conterrânea do diretor e demorou 10 anos para ser realizado. Foi filmado em sua cidade-natal, Russas - CE, tentando colocar na tela todas as suas lembranças do lugar.


    Na trama, nascida e criada em Russas, Pacarrete alimentou desde criança o sonho de ser artista e viver a vida na ponta da sapatilha, mesmo sendo de uma cidade conservadora, onde mulher nasceu para casar e ter filhos. Mas é em Fortaleza que ela conseguiu estar nos centros dos palcos como bailarina clássica e se tornar professora de ballet. Com a aposentadoria, ela retorna para sua cidade natal onde pretende continuar seu trabalho artístico, mas só encontra desrespeito à sua arte: em vez de plateias de admiradores e aplausos, ela se defronta com o despeito daqueles que cruzam seu caminho - e a bailarina e professora de outrora se transforma na “louca da cidade”. A história aborda questões como a loucura, a permanência do sonho e o drama da velhice de uma bailarina clássica, que gosta de ser chamada de Pacarrete – “margarida” em francês, interpretada pela premiada atriz paraibana Marcélia Cartaxo, vencedora do Urso de Prata do Festival de Berlim em 1985, por A Hora da Estrela, dirigido por Suzana Amaral que infelizmente faleceu essa semana e lançou a atriz para o mundo. O elenco principal ainda conta com as atrizes paraibanas Zezita Matos (das novelas Velho Chico e Amor de Mãe), Soia Lira (Central do Brasil, Abril Despedaçado) e o ator baiano João Miguel (O Céu de Suely, Estômago).


    Pacarrete é um filme que tem conquistado público e crítica nos festivais com mérito próprio, ainda que o filme possua uma finesse em todo seu conjunto, o seu charme principal é o popular, com elementos cômicos muito comum da comédia nordestina que se misturam com a seriedade e o drama do tema, em como as artes são ignoradas, muitas vezes por pura falta de oportunidade e de governantes que não promovem sua valorização. Nas cidades do interior essa dificuldade é ainda maior. É muito fácil se conectar com a a personagem e seus dilemas, que muito se enquadram no reflexo do povo brasileiro, essa bailarina que queria, em vida, ser reconhecida é de uma sensibilidade grandiosa, o dominio da atuação de Marcélia Cartaxo só prova seu grande talento. O drama de Pacarrete é real, vivemos em um país que não valoriza seus talentos, não cuida e não exalta grandes conquistas que surgem no suor de muito trabalho. A resistência de persistir com cinema em um país de retrocessos e ignorância vale a pena justamente para exaltar trabalhos como esse, sobre ir atrás dos sonhos, persistir, encarar o mundo e enfrentá-lo. É um filme sobre amor à arte e amor ao próximo. LOCOMOTIVA DE SENSASÕES.


O filme está sendo exibido no festival digital de pré-estréias realizado pelo Itaú Cinemas (Espaço Itaú Play) e transmitido pelo Looke ao preço popular de 10 reais o aluguel. Somente hoje 26/06 e sábado 27/06. Distribuído Vitrine Filmes.


Hype: EXCELENTE - Nota: 10

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Hype TBT - O BEIJO DA MULHER ARANHA (1985).


    Nosso TBT de hoje aproveita o mês do orgulho LGBT+ para enaltecer um clássico bastante importante para o cinema brasileiro e que ainda precisa ser descoberto por essa nova geração de cinéfilos. O  Beijo da Mulher Aranha (Kiss of the Spider Woman) é dirigido por Hector Babenco e adaptado por Leonard Schrader através de um romance homônimo escrito por Manuel Puig. A história apresenta um "filme dentro de um filme", com o personagem Luis Molina  que episodicamente contando  o enredo de um fictício filme de ficção chamado "Her Real Glory" ("A Verdadeira Glória Dela" em português), onde brilha a estrela de Sônia Braga. A produção de 1985 tem mensagens importantes e uma trama envolvente.


     A trama conta a história do prisioneiro político de esquerda Valentín Arregui (Raul Julia) e Luís Molina (Willian Hurt), um gay afeminado condenado por "corrupção de menor". Os dois dividem uma cela numa prisão brasileira durante a ditadura militar. Molina relembra, na prisão, um de seus filmes favoritos, um suspense romântico de guerra que também é uma propaganda nazista. Ele tece os personagens do filme numa narrativa que traz conforto a Arregui para distraí-lo da dura realidade da prisão e da separação de sua namorada Marta, a quem ele ainda ama. Arregui permite que Molina penetre sua autodefensiva intimidade e se abre para ele. Apesar de suas discussões sobre a política por trás do filme assistido por Molina, uma improvável amizade se desenvolve entre os dois prisioneiros.


     O filme foi um desafio para ser adaptado, além do tema homossexual ter sido encarado como um obstáculo para atrair um público amplo, havia também o medo da censura devido ao contexto político da ditadura presente no longa. Babenco, uma vez radicado no Brasil, temia uma reação xenofóbica contra a produção em virtude dos atores norte-americanos nos papéis principais e ser originalmente falado em inglês.  Foi um dos primeiros filmes brasileiros a tentar um formato  internacional para atrair visibilidade. Obstáculos adicionais à produção incluíram o antagonismo de Manuel Puig em relação a Babenco; o escritor não gostava de seu filme Pixote e suspeitava que o diretor fosse um "oportunista". Contrariando todos os pesares a produção foi um sucesso. O filme estreou no Festival de Cannes de 1985, onde Willian Hurt ganhou o prêmio de Melhor interpretação masculina, ganhando também o Oscar e o BAFTA de Melhor Ator. Babenco foi indicado para a Palma de Ouro pela direção. O filme concorreu ao Oscar de Melhor Filme, perdendo para  Entre dois Amores em uma clara demonstração de homofobia por parte dos jurados da Academia, até hoje esse Oscar gera controvérsias no real mérito do vencedor. 


    A produção foi reconhecida pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) como um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, ocupando a posição de número 61 da lista. Sem dúvidas, uma obra prima de Hector Babenco e reconhecida em todo mundo.  Luís Molina permanece como um dos personagens gays mais memoráveis do cinema brasileiro e mundial, Sônia Braga ganhou relevância com beleza de diva do cinema em suas cenas, grande parte de sua popularidade nos EUA se deve ao filme que segue sendo relevante e poderoso até hoje. 


Recomendamos que seja vista a versão restaurada do filme pelo Canal Brasil, disponível para alugar em plataformas digitais como Now, Vivo Play e outras.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

ENCANTADO, O BRASIL EM DESENCANTO (2019) de "Felipe Galvon"


O vencedor do 7° Brasília International Film Festival - BIFF na categoria Júri Popular é um documentário que reflete um ponto de vista sobre o atual Brasil.

Encantado, o Brasil em Desencanto foi produzido na França, co-produzido pelo canal francês Public Sénat e por LaClairière Ouest, ele segue uma onda de diversos documentários que são recortes dos acontecimentos políticos recentes do Brasil, são produções aclamadas, como o O Processo (2018) e Democracia em Vertigem (2019) ou produções mais independentes como Excelentíssimos (2018) e O Mês que não Terminou (2019). O expectador acompanha o ponto de vista do diretor do filme, Felipe Galvon, que explora uma camada mais específica, o da primeira geração popular a estudar no exterior, fato proporcionado pelas políticas públicas do Brasil em ascensão da década passada. O cineasta faz questão de sinalizar que o filme é fruto do olhar particular de quem observa o Brasil a distância e se assusta com o cenário atual. Ele utiliza como referencial, o bairro onde morou no país, Encantado, que foi transfigurado para as Olimpíadas de 2016 e em seguida marcado pelo abandono, remontando a história recente do Brasil. O filme reconta o início dos anos 2000, quando os governos de Lula e Dilma Rousseff permitiram significativos progressos sociais e econômicos no país, passando em seguida ao progressivo declínio destes avanços, marcados pelo surgimento dos protestos de Junho de 2013 e pelo Impeachment de Dilma Rousseff em 2016. Em paralelo à narração de Felipe, o filme é entrecortado por entrevistas dos habitantes do bairro Encantado, que apresentam seu desencanto com a democracia e com a política, além dos testemunhos das jovens gerações formadas nas últimas décadas que observam os novos rumos tomados por seu país. O Encantado, situado na zona norte do Rio de Janeiro, surge como uma maneira poética e pessoal pelo diretor de direcionar seu ponto de vista sobre tudo que aconteceu e acontece no Brasil. A produção consegue mostrar a desorientação daqueles que cresceram na euforia massiva com a eleição presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva e depois viram a derrocada do político e do partido dele até a atualidade polarizada, onde a direita encontrou um caminho para chegar ao poder. Há no filme também depoimentos de políticos como Ciro Gomes, Jandira Feghali e Guilherme Boulos, além de filósofos, professores e analistas sociais de várias frentes. Eles contribuem para o diagnóstico do diretor sobre o desencantamento com o Brasil de hoje, suas convicções e seu posicionamento ideológico. É um campo aberto para que cada expectador tire suas conclusões amparado na melancolia de nossa realidade mesmo que muita coisa seja deixada de lado. É mais uma importante reflexão para a construção de um futuro melhor ciente dos erros cometidos, enxergar o que mudou para pior e mensurar que essa guerra política prejudica nosso futuro. A ANGÚSTIA DA POLÍTICA DO PRESENTE.


Filme exibido na Mostra Competitiva do  7° Festival Internacional de Cinema de Brasília - BIFF. Sem previsão de estréia no Brasil.

Hype: BOM - Nota: 7,5


sexta-feira, 24 de abril de 2020

FENDAS (2019) de "Carlos Segundo"



Filme potiguar imersivo revela poesia cinematográfica sobre o isolamento de si mesmo em um prol maior.

A produção exibida no BIFF vem trilhando uma interessante carreira em festivais, tendo estreado mundialmente no Festival FID Marseille (França) em 2019, sendo exibido também na República Tcheca e Estados Unidos. Participou também de vários festivais nacionais como Mostra Internacional de São Paulo (SP), Panorama Internacional Coisa de Cinema (BA) e Mostra de Cinema de Gostoso (RN) onde levou Menção Honrosa. O filme acompanha um recorte da vida de Catarina, uma pesquisadora do campo da física quântica que trabalha com espaços sonoros na imagem. O mergulho em sua pesquisa é, ao mesmo tempo, um mergulho em sua vida. Por imersão nas imagens que ela distorce, Catarina descobre um novo espectro de som, que aparentemente abre acesso para outra linha temporal. O tom instrospectivo das dúvidas de seu trabalho, do sentido de sua pesquisa e a até de sua vida pessoal, ressalta também a questão social, ela efetua uma pesquisa pouco acessível e sem qualquer forma de supervisão ou cobrança. Fendas é um filme que orbita no território científico e humano e surge em um momento singular em que a cultura e a educação sofrem ataques declarados por parte do poder público e do governo brasileiro. O filme não deixa de ser também uma resposta a esse movimento crescente mostrando a solidão de quem estuda e pesquisa em prol de um bem maior a toda sociedade. A história não apresenta conflitos explícitos e muito menos define seu caminho, são cenas onde Catarina vive sua rotina e na maior parte do tempo observa imagens sonoras, mergulhando em um vazio e faz dele um laboratório para sua pesquisa. A obra conta a história de Catarina (Roberta Rangel), uma pesquisadora do campo da física quântica que mora em Natal e estuda os espaços sonoros na imagem. Sua vida e pequisa se misturam e convergem seu passado, presente e futuro. O filme percorre diversos cenários reais da capital do RN, como ruas da cidade, as dunas, o Forte dos Reis Magos, o Parque da Cidade, todos ambientes sob o olhar poético de seu diretor Carlos Segundo em um desvaneio bonito e sereno. Fendas é uma produção entre Brasil e França que estimula o expectador a imaginar o exterior por dentro de si mesmo, muitas vezes focado em uma monotonia controlada e uma reflexão dos fenômenos físicos. Não deixa de ser um filme diferente ao mostrar seu potencial na falta de uma estrutura padrão. SOBRE PROFUNDIDADES. 


Filme exibido na Mostra Competitiva do  7° Festival Internacional de Cinema de Brasília - BIFF. Sem previsão de estréia no Brasil. Distribuição Elite Filmes.

Hype: BOM - Nota: 7,0






quinta-feira, 23 de abril de 2020

CANO SERRADO (2018) de "Erik de Castro"


Filme se espelha em um viés conservador e reacionário em Western contemporâneo.

A produção ainda inédita nos cinemas brasileiros foi exibida na Mostra de SP e Festival do Rio em 2018 e depois esquecida. O filme ganhou exibição no BIFF na Mostra Spotlight Brasilia. Esse é o segundo trabalho na direção de Erik de Castro que já havia se aventurado no gênero de ação em Federal (2010) com relativo sucesso. Cano Serrado tem uma proposta até interessante, com boa produção e efeitos especiais mas se perde sem um roteiro consistente e na mão pesada do diretor. O bom elenco é esvaziado em atuações bizarras e personagens repletos de clichês e esteriótipos. Combinaria se fosse na década de 90, hoje em dia não cola mais. O roteiro constrói um faroeste contemporâneo, com diferentes tipos masculinos medindo forças até o esperado duelo final em que os grupos opostos se encontram no acerto de contas. A representação exagerada do típico filme de ação "brutamontes" beira o caricato, seja pelas soluções fáceis ou reviravoltas sem muito preparo. O "Plot Twist" do filme, que seria a virada da história para o seu clímax, é a única boa cartada do filme. São temas controversos, como a violação de direitos humanos e a justiça com as próprias mãos abordados de forma rasa com uma estética que busca o entretenimento de maneira visceral e banal. Sem charme algum, Cano Serrado expõe um tipo de história onde não existe diversidade e a masculinidade tóxica se reflete nas piadas machistas, mulheres como coadjuvantes e péssimos argumentos para justificar tortura, violência e sadismo por armas. O thriller policial é o puro reflexo de uma fórmula datada no cinema de ação e também perigosa dando vazão a um discurso violento sem o aprofundamento necessário. A narrativa acompanha a vingança do Sargento Sebastião (Rubens Caribé) aos homens que assassinaram seu irmão, um homem baleado no início do filme. Em seguida conhecemos Luca (Jonathan Haagensen) e Manuel (Paulo Miklos), dois policiais da cidade grande que partem para o interior rumo a um fim de semana de retiro junto ao pessoal de uma igreja. No caminho, são atacados em uma emboscada. Com o desaparecimento dos dois, seus colegas da capital partem atrás do paradeiro deles. É quando o delegado Marcos (Fernando Eiras) e seus auxiliares, como a perita Sílvia (Sílvia Lourenço) e o agente Rico (Milhem Cortaz), entram em cena para tentar solucionar o ocorrido. Surge o embate da polícia do interior com a polícia da capital. Acompanhamos um roteiro sofrível sobre vingança, onde as polícias se confrontam em meio a uma trama simplória com violência desmedida, corrupção e elementos facistas. Com ecos de filme de ação dos anos 1980, o diretor usa de várias referências se concentrando em anti-hérois em uma alegoria a hierarquias da lei e os bastidores do universo policial. Deve agradar quem gosta de ação e violência, nesse quesito ele decola. THRILLER POLICIAL DO CERRADO.


Filme exibido na Mostra Spotlight Brasilia do  7° Festival Internacional de Cinema de Brasília - BIFF. Sem previsão de estréia no Brasil. Distribuição pela H2OFilms e Globo Filmes.

Hype: REGULAR - Nota: 5,0