Mostrando postagens com marcador Cinema Europeu. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cinema Europeu. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

FLOW 🐱 de "Gints Zilbalodis"

                                       


Muito mais que uma história sobre um gato solitário, uma mensagem sobre união e esperança em meio as adversidades. 

Chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (20) a animação Flow, que, ao lado de Ainda Estou Aqui, concorre ao Oscar de Melhor Filme Internacional. Além disso, ele também é um forte concorrente à estatueta na categoria Melhor Animação. 

Muito além de uma animação fofa sobre um gato solitário, Flow mostra que pequenos estúdios também podem fazer grandes histórias, mesmo com softwares gratuitos e baixo orçamento. "Flow" virou um fenômeno, é o primeiro longa da Letônia a ser indicado ao Oscar. O filme venceu o Globo de Ouro e o troféu virou patrimônio nacional, sendo exposto no Museu Nacional de Arte da Letônia, o governo local ergueu uma estátua do gatinho em Riga, a capital do país. Além disso, artistas passaram a espalhar a arte pelas ruas com desenhos do personagem. 

Não há voz humana no longa apenas sons de animais proporcionando uma imersão ainda maior a história, sobre um gato que ao ter seu lar é devastado por uma grande inundação encontra refúgio em um barco povoado por várias espécies, e tem que se unir a elas apesar de suas diferenças. Um dos grandes acertos do filme está na escolha de não humanizar os animais protagonistas. Além disso, a animação se esforça para ser fiel ao comportamento real dos animais, como o gato que derruba objetos de propósito quando está irritado. Esses detalhes tornam a experiência mais autêntica e envolvente. 

Flow representa plenamente o fluir, no começo, quando o gato tem muito medo dos outros animais, a água parece muito assustadora e agressiva. Mais tarde, quando o gato e os outros animais aprendem a trabalhar juntos, a água se torna mais tranquila e pacífica, uma simples e bela metáfora sobre a vida e sobre escolher a empatia na luta pela sobrevivência. ÓTIMO ⭐️⭐️⭐️⭐️


                                                   

quarta-feira, 31 de maio de 2023

O ÚLTIMO ÔNIBUS (2021) - "The Last Bus" de "Gillies MacKinnon"


     Uma jornada de gentileza e ternura, é como podemos simplificar o "road movie" inglês que mostra o diário de viagem de Tom Haper (Timothy Spall) que passou 90 anos num círculo de 1400km de distância e decide mesmo com uma saúde delicada percorrer o trajeto feito por ele e seu amor Mary (Phyllis Logan), de forma inversa para concluir sua história de vida. Ainda que não seja algo extraordinário por olhares mais modernos, a delicadeza de como esse choque cultural é exposto ao personagem encontrar uma sociedade corrompida e tóxica de todas as formas possíveis, faz Tom Haper mesmo dentro de sua bolha conectar-se com um mundo moderno que ele nunca experimentou e ainda dar uma lição de humanidade que só pessoas com bagagem podem proporcionar.


  O personagem carrega sua vida em uma pequena maleta e sem ajuda das tecnologias disponíveis, utilizando lembranças e um mapa. O diretor Gillies MacKinnon realiza uma obra simples que entende as limitações de não enxergar a gentileza ou a melhor idade com uma profundidade de valor, de história e de aprendizado. Afinal, cada qual vive uma batalha sua e particular que pode ou não ser expansiva e nem por isso deve ser desvalorizada. O filme nos mostra a vida que passa num piscar de olhos, no respeito mútuo, nas perdas e nas vitórias também. Em como as vezes um simples ato de pegar um ônibus coletivo e fazer diferença na vida de outra pessoa também é importante, seja na proteção de valores, seja em um conselho sobre guerra ou mesmo num simples conforto de um abraço em um momento de choro.

     Para cumprir com uma promessa feita à sua mulher, antes de ela morrer, Tom deixa sua casa de 50 anos em um vilarejo no norte da Escócia e atravessa o país rumo ao sul, ao lugar onde nasceu, próximo à fronteira com a Inglaterra. As paisagens são belas e junto as camadas emocionais dessa jornada deixa tudo bem confortável ao expectador. O longa foi filmado em Glasgow e os seus arredores e boa parte da trama se passa no Glasgow Vintage Vehicle Trust, um museu dedicado a meios de transportes escoceses. O exterior foi usado para a construção de diversos pontos de ônibus, enquanto o interior serviu de estúdio para a arquitetura de cenários. Spall, de 66 anos, que interpreta Tom, de 90, com uma maquiagem que o envelhece, consegue um tom equilibrado e minimalista no drama do personagem. Um filme triste, mas determinante para quem ama de verdade alguém até o limite e nao há obstáculos pra isso. Imperdível.


O drama com toques agridoces estreia nesta quinta-feira, 1º de junho, nos cinemas do Brasil. Consulte a programação. A distribuição é da Pandora Filmes.








sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

TITANE (2021) de "Julia Ducournau"

 


VISCERAL OU DOENTIO? 🚘 Em Titane, a cineasta Julia Ducournau (Raw) apresenta a glória visceral, evitando a representação de poucas funções corporais, enquanto explora a identidade de gênero e a necessidade esmagadora de afeto em um mundo onde fazer a escolha errada sobre qualquer um deles pode ser fatal. Gratuito e com imagens perturbadoras, mas também projetado para distorcer as normas tradicionais, de tal forma que o filme se torne uma experiência para o público, somos desafiados a desviar o olhar e buscar o entendimento da interessante narrativa. Nossa heroína é Alexia (Agathe Roussel), quando criança ela incitou seu pai em um acidente automobilístico que a deixou com uma placa de titânio em sua cabeça. Já adulta ela mostra a cicatriz, enrolada como o lobo pré-frontal de seu cérebro sem por menores, ela se tornou uma serial killer. Enquanto sua família é confortavelmente de classe média alta, ela se rebela realizando danças exóticas com carros clássicos americanos na frente de uma multidão adoradora que não consegue entender as profundezas de sua psique danificada. Em meio a tudo isso, Alexia demonstra um tédio francês adequado, ficando irritada em vez de ansiosa quando seu último assassinato se torna complicado. Sua afeição se limita aos carros, desde o veículo em que foi ferida, até um Cadillac que a seduz depois de um assassinato. Isso muda quando seus crimes ameaçam alcançá-la, e ela foge, apenas para se ver adotada por Vincent (Vincent Lindon), um chefe dos bombeiros envelhecido que está convencido de que ela é o filho sequestrado dele 10 anos antes. Para um filme que arma a nudez impunemente, esta é uma obra distintamente não erótica. O corpo de Alexia, tão potente em conquistar os outros no início, rapidamente se transforma em seu inimigo. Ducournau não nos poupa de nada, Titane apresenta o carnal como um exercício intelectual, vicioso e incessante em externalizar a violência cultural sobre as normas de gênero em uma sátira estilizada que o deixará devidamente desconcertado e surpreendido. 
 
🏆 Vencedor da Palma de Ouro no último Festival de Cannes 👏
 
👀 Disponível no Mubi  - 🏅 Hype: ÓTIMO



terça-feira, 25 de janeiro de 2022

SPENCER (2021) de "Pablo Larraín"

 


O TERROR DA REALEZA - Quem espera uma biografia tradicional sobre a Princesa Diana em Spencer se depara com uma fábula que é quase um filme de terror, sobre uma princesa que vive uma tragédia pessoal e intima longe do rótulo Princesa do Povo (como o ex-primeiro-ministro Tony Blair a batizou). Sua dor é ouvida de perto com a respiração pesada, olhar vazio e a solidão da redoma dos muros do palácio real, que na verdade encurralam o seu verdadeiro eu: Spencer. O diretor, Pablo Larraín recria o seguinte cenário: ano de 1991 durante as festividades natalinas. A família real reúne-se na propriedade de Sandringam, em Norfolk. E passam-se aqueles que seriam os últimos dias do casamento de Diana e Charles. Esta é a hipotética história de uma mulher acorrentada por convenções e formalismos, adormecida em nostalgia e apressada numa busca incessante pelo autoconhecimento. Na abertura do filme, uma perdiz fica ingenuamente no meio da estrada antes de ser prontamente esmagada por um caminhão. Pronto, tal metáfora já implica em afastar Spencer de uma biografia tola. A atriz Kristen Stewart (Maravilhosa no papel!) vive uma princesa em crise; sofrendo de um distúrbio alimentar, perseguida pela mídia e com assustadoras alucinações. Embora o filme mostre a família real ela aparece como uma presença incidental. Diana está muitas vezes sozinha. Seu marido, Charles, Príncipe de Gales (Jack Farthing), oferece fiapos periódicos de atenção e desânimo com ela. Seus filhos não entendem suas angústias. Sua única confidente é Maggie (Sally Hawkins) que pouco sustenta sua inquietude. O simbolismo bombástico do filme dispensa o decoro, as intenções problemáticas de Larraín vêm à tona, dispensando de representar respeitosamente a realeza. As ocasionais explosões de exuberância e transgressões tolas do filme estão de acordo com a desobediência de Diana. Um presente de Natal comprado em um posto de gasolina ou um passeio solitário à meia-noite são subversivos suficientes para quebrar qualquer glamour de uma vida de princesa e mostrar que a arte pode ser encontrada sob qualquer lente ou olhar. Uma OBRA PRIMA! 👏👏
 
👀 CINEMA - 🏅 Hype: ÓTIMO 👌



 


quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

BENEDETTA (2021) de "Paul Verhoeven"

 


PROFANO E AUTOCONFLITANTE! 🙏 O drama/suspense erótico de Paul Verhoeven sobre o relacionamento entre duas freiras lésbicas em um convento italiano do século XVII ( Esse caso se tornou um dos primeiros casos documentados de lesbianismo da civilização ocidental moderna depois que um escrivão da paróquia escreveu sobre isso em seu diário) troca o típico romance contido em filmes de época que tratam o amor entre duas mulheres por um enumerado de cenas provocadoras e até certo ponto com interessante reflexão e fetiche de uma sociedade fascista pela dor e pelo fanatismo. Encarnada por Virginie Effira, Benedetta é uma crente devota no amor de Jesus que nem sempre tem certeza da melhor forma de retribuí-lo. Uma certa grandiosidade acompanhou sua fé desde que ela foi aceita no convento. A única guerra que Benedetta tem que travar é aquela contra a integridade de suas próprias crenças, mesmo que esse conflito interno se transforme em uma luta pelo poder com a "chefe" do convento, a freira L"abbesse (Charlotte Rampling, em atuação apagada). Em meio a sua estranha conexão com a religião, se envolve com a inocente e traumatizada, Bartolomea (Daphne Patakia). Há um choque instantâneo de intimidade entre essas duas belas mulheres, embora nunca se transforme em algo sentimental. Como Benedetta lida com seu sofrimento pessoal é o caminho para conhecer o seu Cristo particular, inclusive o diretor Paul Verhoeven apresenta uma das cenas mais interessantes do filme, a aparição de um Jesus "diferente" (sem mais detalhes para não estragar a experiência de quem não viu o filme ainda). O que Benedetta deve fazer com seu prazer? Verhoeven obviamente rejeita a ideia de que nossos corpos não devem ser desfrutados isso rende momentos intensos de erotismo e nudez. Com todos esses elementos e a experiência de Verhoeven em ficção científica intensificam o hype de Benedetta, porém seu argumento reforçado por um terceiro ato exagerado conflita muito com toda a estrutura apresentada. Se a história se aproxima dos relatos verídicos, é decepcionante acompanhar o excesso de culpa que carrega o seu desfecho, quase jogando tudo a perder. 

👀 CINEMA (Streaming: Telecine) - 👌 Hype: BOM




quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

SOBRE A ETERNIDADE (2019) ou "Da Eternidade" ou "Om det oändliga" de "Roy Andersson"

 


SOBRE O INFINITO ⏳ O cineasta Roy Andersson entrega reflexões humanas do que somos e fazemos para continuar aqui em uma sátira que reflete um pedaço de cada um de nós, por inteiro. O filme tem sempre metade da tela nublada e cores opacas, sem definição dos cenários pra parecer mais importante o que acontece dentro de cada situação. A psicologia analítica de Carl Jung,  preenche algo que sempre fez parte dos questionamentos humanos sobre o inconsciente coletivo, presente nessa obra. Agradecer pela vida, lutar pra continuar aqui e não ir além do que a fantasia nos permite pra nos confortar de que não teremos mais esses sentimentos e sensações que nos proporcionam a sentir algo. O religioso e seu questionamento por perder a fé, o jovem que encontra o amor pela primeira vez, um rapaz tocando instrumento no metrô pra não lembrar da dor de saber que uma mina arrancou suas pernas, a sensação reconfortante de escutar música, jovens dançando, o início da vida com a celebração de ser criança, termodinâmica, o casal apaixonado sobrevoando a cidade em ruínas, a queda de um ditador, a indecisão e a incompreensão numa briga em local público, a chuva forte e o sacrifício do pai ajudando sua filha, feminicidio e a honra da família questionada pelo arrependimento. Esses esboços permitem ao espectador ir além do proposto pra continuar o desenvolvimento de cada história. Todas as sensações que nos mantém vivos, seja pelo amor, solidão ou crueldade, são de alguma forma elevadas ao máximo pelo diretor. O filme tem quase um desenvolvimento hermenêutico para interpretá-lo, passeando pela filosofia de Martin Heidegger, onde discursa sobre nosso existencialismo. É forte e enumerado para esboçar como vivemos cada um à sua maneira. Uma obra prima que deve ser conhecida por quem realmente ama cinema e uma das maiores injustiças do mercado de exibidores do Brasil, não  lançando o filme para o público em geral mesmo após 2 anos do lançamento na Europa! 
 
👀 Não lançado no Brasil até o momento! Exibido em festivais! 
(Lançado no país de origem em 2019) 
 
🏅 BEST OF 2021 (Menção Honrosa)




terça-feira, 2 de março de 2021

É APENAS O FIM DO MUNDO (2016) - "Juste la fin du monde" de "Xavier Dolan"

 


O filme é uma indicação do CLUBE HYPE.

É Apenas o Fim do Mundo é um filme que passou meio batido no Brasil na época de lançamento mesmo se destacando em diversos festivais e está disponível no streaming do Telecine. O filme do jovem diretor e ator Xavier Dolan ressalta seu domínio em trabalhar elenco, contando nesse longa com nomes de peso como  Gaspard Ulliel, Marion Cotillard, Léa Seydoux e Vincent Cassel. Com uma filmografia de obras peculiares,  Xavier Dolan foi revelado ao mundo com o desconcertante “Eu Matei a Minha Mãe” (2009) e desde então, transformou-se em um queridinho entre os novos realizadores. Leia as impressões do nosso clube sobre seu sexto longa-metragem.

     Grande parte das reações sobre "É apenas o fim do mundo" é a clara assimilação de quão complexo e confuso podem ser as relações familiares. O filme tem talentos no elenco e apresenta uma história repleta de conflitos com um resultado final que pode parecer um pouco aquém do hype envolto ao diretor que simplifica respostas que muitas vezes não estão disponíveis ao espectador e devem muito a sensibilidade de cada um, desta forma o filme foi bastante massacrado pela crítica mesmo sendo uma obra bem aberta a outras interpretações. O canadense é um bom diretor de elenco, algo que ele assegura por também desempenhar o ofício da interpretação, ele também compreende as possibilidades de artimanhas da linguagem mas se perde em alguns momentos, a sua visão para dramas adultos ainda parece confuso e por vezes valorizando banalidades e visualizando tudo como o fim do mundo, ainda que a história de Louis tenha esse aspecto. 


     Na trama, um escritor oculta o fato de estar com uma doença terminal, Louis-Jean Knipper (Gaspard Ulliel), ele volta para a casa de sua família com a intenção de revelar a sua condição. Não há um segundo que ele não ensaie o modo como trará a informação à tona, mas sempre se acovarda quando se julga preparado ou outro problema familiar surge no caminho. Há quatro membros que o aguardam: a sua mãe (Nathalie Baye), a sua irmã caçula Suzanne (Léa Seydoux), o seu irmão mais velho Antoine (Vincent Cassel) e a sua cunhada Catherine (Marion Cotillard). Raramente se viu um núcleo familiar que usasse tanto as trivialidades como justificativa para discutir aos berros sem chegar a lugar nenhum. Ainda que alguma escolha no passado de Louis-Jean tenha deixado um mal estar na atmosfera da residência, briga-se por várias outras coisas, como a preparação do jantar, a ausência de contato, a passividade de Catherine, a notificação de partida do anfitrião e por aí vai. Nada se resolve, tudo é motivo para uma grande DR. 


     Dolan faz quase um teatro filmado. O que poderia ser um trunfo na história se transforma em algo bastante sufocante, quase sem pausas para respiros, a sua câmera fica grudada no rosto do elenco durante 90 minutos, como se pretendesse representar a tensão de seu protagonista, captando olhares e expressões, mas jogando fora a potencialidade dos intérpretes de ir além da captação de um drama visual, é como se eles estivessem enjaulados dentro da tela. Sem muita inovação e carregando  o peso da situação em "banho-maria" ainda sim é um filme que vale a pena por colocar a "instituição" família como confusa e muitas vezes pouco acolhedora. (Meu Hype)

      Existe uma busca de Louis (Gaspard Ulliel) que talvez sua família não tenha entendido, mesmo que com a distância e o seu retorno depois de 12 anos. A paz que permeia seus pensamentos pode ter sido sua maior companheira durante os anos em que ele evitou desconforto familiar e as memórias da casa onde cresceu.  Confrontar-se com questões mal resolvidas dentro da própria família pode ser o maior de seus pesadelos, mas também algo inevitável. O silêncio constante da personagem que pouco diz sobre si e mais ouve os integrantes de sua família, é de um incômodo expressivo. São tantas cobranças pelo seu desaparecimento que  em meio a dramas alheios, viajar em um universo paralelo, com uma trilha sonora lenta e imagens da decoração de sua casa,  se torna rotineiro na trama. É como se a consciência do caos não fosse mais tão importante quanto em outro momento e a nostalgia de acontecimentos menos depressivos fossem uma melancólica válvula de escape em meio a responsabilidade com os  ritos de sua árvore genealógica. Figuras arquetípicas se entrelaçam em diálogos e nós dramáticos tão amarrados que se observam parecer insolucionáveis. O personagem central, Louis, já não parece mais se surpreender, a não ser quando sabe da morte de sua paixão da adolescência, talvez a parte mais doce para se lembrar. Informação que não deixa dúvida sobre o seu destino inexorável e bem resolvido já no início da história. (Andy Souza)
 
       Filme com elenco forte e ótimas atuações onde o diretor  e roteirista canadense - Xavier Dolan - parece se preocupar mais com a distorção presente no afeto familiar, do que com a morte que pode abraçar o personagem principal - Louis - o escritor que volta à casa da família após 12 anos de ausência, pra falar sobre seu tempo de vida e fica perdido. Há uma certa dificuldade no filme de se mostrar mais eficaz nas decisões e diálogos problemáticos de uma família que grita anormalidades, porém tá mais pra uma família normal com endereço diferente de qualquer outra. Louis está com medo de todos, e todos estão com medo de Louis que foi ausente por tanto tempo para eles. Sobre o jovem diretor dar credibilidade aos dramas de quem tá vivo, é isso mesmo... pra morte o importante é a vida e pra quem tá vivo uma ausência também é uma preparação pra algo morto, ou seja, continue presente. Sendo assim Dolan vai no ponto certo, mesmo pincelando demais algo que poderia ser mais claro para o público. (Paulo Lana) 

     Louis, um escritor bem-sucedido decide voltar para casa da família depois de 12 anos longe se comunicando apenas por cartões postais, para contar que estava morrendo. Ao chegar na casa sua família estava a espera e ansioso, é muito bem recebido por sua mãe e sua cunhada, sua irmã mal o conhecia mas estava empolgada, seu irmão estava feliz mas receoso, no decorrer do filme fica evidente vários problemas de família, onde ninguém consegue se entender e pior se ouvir, vence quem falar mais alto, Luois nessa situação não tem espaço ou abertura para falar para a família o motivo da sua viagem, muito introspectivo quando vinha a coragem alguém falava mais alto, no fim de alguma forma dentro do caos ele aceita que não era necessário falar. A meu ver faltou um pouco de empatia de ambas as partes Louis por se afastar por tanto tempo da família e da família ao recebe-lo de volta em casa se lhe dar voz. (Dionatan Medeiros)


O filme está disponível no streaming do Telecine! Com esse link você tem 30 dias grátis, vem: http://teleci.ne/MeuHype

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

BEGINNING (2020) - "Dea Kulumbegashvili"

 


A estreia surpreendente da escritora russa Dea Kulumbegashvili na direção é um soco no estômago de uma sociedade cada dia menos empática

       A Geórgia não é um país que costuma apresentar obras cinematográficas que se expandem ao mundo com forte entusiasmo, Beginning surge para quebrar esse paradigma e também mostrar um pouco do país que faz uma interseção da Europa com a Ásia, é uma antiga república soviética com aldeias na cordilheira do Cáucaso e praias no Mar Negro. A nação é famosa por Vardzia, um grande mosteiro em cavernas do século XII, e pela antiga região produtora de vinho de Cachétia. A capital, Tbilisi, é conhecida pela arquitetura diversificada e pelas ruas labirínticas de paralelepípedos de sua cidade antiga. Esses elementos do país já fazem a obra interessante por si só, somados por um visual arrebatador, uma intensa história sobre abusos e intolerância em uma estreia estonteante de uma empolgante nova voz do cinema europeu.


      Contado com um diálogo esparso e um sentido contemplador, Beginning tem trabalho de câmera extremamente lento e observador, desvenda a vida interior de uma mulher que enfrenta um casamento provincial e uma encruzilhada existencial que passa por obrigações familiares, o temor da religião e as consequências de fortes abusos. Ambientado em uma cidade provinciana no sopé das montanhas do Cáucaso, o filme conta a história de Yana (IIa Sukhitashvili), esposa de um líder de Testemunha de Jeová cuja comunidade está sob ataque de um grupo extremista. Em meio a esse conflito e com seu marido longe, Yana vive um crescente descontentamento interno, enquanto luta para dar sentido ao mundo ao seu redor. Em resumo, retrata a resiliência de uma mulher perante a hostilidade e a violência com consequências dramáticas e devastadoras. A necessidade de entender o mundo de uma personagem que sofre violência psicológica o tempo inteiro é um exercício complexo que choca também com as questões do Isolamento Social que vivemos atualmente


      A obra foi filmada com bastante sensibilidade, principalmente nas cenas de meditação e silêncio, quase mostrando o quanto nossa mente pode ser tornar um retrato do forte "barulho" ou interferência que recebemos e que podem nos comprometer internamente, assombrando nossos pensamentos e nos torturando a cada momento. Há cenas que podem durar até 7 minutos sem realmente acontecer nada e retrata o poder do cinema de reflexão, suas consequências são discretamente ditas por metáforas até o terço final avassalador. A personagem Yana não explica seus motivos, não justifica suas ações, como se suas atitudes estivesse destinadas a acontecer. Esse chocante fluxo de acontecimentos exterioriza o retrato de uma mulher em crise como o centro de um filme de arte com o poder de suas imagens hipnóticas. Beginning é uma experiência transformadora que celebra o cinema sensorial bem realizado e ainda com certo frescor intelectual, não chega a ser complexo mas muito marcante com seu forte poder de deslumbramento. OBRA PRIMA.


Escolhido da Geórgia para integrar a curadoria de Filme Internacional no Oscar 2021, exibido em diversos festivais como Cannes, Toronto, Rotterdam e San Sebastián, onde recebeu quatro premiações, entre elas, as de melhor filme e melhor direção.

O filme está disponível no Brasil com exclusividade pelo Streaming MUBI.

Hype: ÓTIMO - (Nota: 9,0)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

CONQUISTAR, AMAR E VIVER INTENSAMENTE (2018) - "Plaire, aimer et courir vite" de "Christophe Honoré"

 


O filme é mais uma indicação do CLUBE DO HYPE. Vem ler nossas impressões.

          Os filmes que abordam gays sempre foram um gênero a parte que em geral abordam o mesmo tema de maneiras diferentes, histórias sobre se assumir gay, histórias sobre amor não correspondido e histórias sobre o impacto da AIDS. Assuntos que permeiam a comunidade.  Conquistar, Amar e Viver Intensamente  consegue passar por esses temas com uma intensa maturidade sem precisar ser um filme de nicho ou de festival. Grande parte do potencial da história é no talentoso diretor Christophe Honoré que possui obras peculiares no currículo, dentre eles Em Paris (2006), Canções de Amor (2007) e Bem Amadas (2011). Sem apelar a uma construção fácil da história e lindamente encenado, a produção contém momentos de uma inteligência profunda com assuntos que podem representar não só o gay mas o ser humano, sua beleza comovente compõe um olhar épico convertendo laços que começam e terminam como o ciclo da vida. 


        O longa nos leva de volta ao ano de 1993, onde o choque e o estigma inicial da AIDS já estava sendo deixado de lado mas o diagnóstico ainda era considerado terminal e todas as feridas desse peso ainda faziam parte de cotidiano gay. Assim acompanhamos a história de Arthur (Vincent Lacoste), um estudante de 20 anos que vive em Rennes. Sua vida muda no dia em que ele conhece Jacques (Pierre Deladonchamps), um escritor que mora em Paris com seu filho. Durante o verão, Arthur e Jacques se divertem e se amam. Mas esse amor, Jacques sabe que deve ser vivido rapidamente devido a obstáculos que a vida lhe impõe. A história não é uma visão calorosa e nostálgica da vida nos anos 90 e sim como a condição vital em sentir emoções passa tanto pelas alegrias quanto ao sofrimento. Os dois protagonistas oferecem performances luminosas, é admirável vê-los flertar e descobrir o caminho para algo mais significativo a cada momento juntos. 


     O filme é, afinal, sobre um importante momento de virada na história da comunidade gay, capturando um momento que existiu de muita dor e que pode representar um prazer sem remorso mas que necessita de diálogo e de discussões mais apuradas de uma nova geração que não se espelha em seu passado histórico para construir um futuro mais leve. O roteiro intelectualmente amplo de Honoré é uma afirmação carinhosa e detalhada da identidade masculina gay, embora seja capaz de retratar o gay como uma propriedade humana em si, sem estereótipos. Honoré transforma as circunstâncias sórdidas em uma declaração coletiva sobre um ciclo que com o passar do tempo se torna bem claro na comunidade gay, além de ser um lindo tributo as artes e a vida em si. (MEU HYPE)

       O filme aborda vários temas ao longo do filme como aventuras, o HIV, mas a trama fica responsável por uma história de amor entre escritor e um jovem estudante. A história se passa nos anos 80, desde o início é evidente a luta do Jacques não apenas pelo seu diagnóstico mais pela perda de pessoas em sua volta pelo vírus do HIV além de sua relação familiar. Ao encontrar por acaso em um cinema o jovem Arthur, eles acabam se envolvendo, mas cada um vivendo sua vida, nesse meio tempo acontecem varias cenas que contam mais da vida dos dois personagens principais e as várias aventuras jovem se assumindo e como escritor. No fim, com a saúde mais frágil o Jacques já não tem intensão em um relacionamento duradouro pela sua saúde, no fim ficam juntos até quando podem, Arthur com muita vontade de viver intensamente essa historia resolve  mudar-se para Paris para morar  com Jacques,  no final não deu tempo, pelo pouco tempo que ficaram juntos foi algo intenso que marcou tanto o início da vida do jovem como o fim da vida do escritor. (DIONATAN MEDEIROS)

        A vida é refletida em "Conquistar, Amar e Viver Intensamente"- como um romance truncado, que mostra a crueldade refletida num "homem inacabado e, deixa claro como assim é a definição da crueldade - o homem inacabado! A vida vai acontecer e sempre teremos essa sensação de que deixamos de fazer algo; Vamos nos matando, nos culpando e  enchendo o mundo de julgamentos. O Homem como um ser inquieto e inacabado das questões filosóficas de humanização nessa obra, entra em constante evolução e vagueia por indagações de Paulo Freire, Kant, Rimbaud  e Walt Whitman. O filme traz  a consideração do que somos, num mundo único, onde cada um tem suas visões e experiências que acabam, inacabadas. (PAULO LANA) 

       Começaria com um: -Poxa, que filme difícil, difícil até de gostar. São relações bem conturbadas, fala muito da solidão que é algo que todos fogem e, ao mesmo tempo, não abrem mão. O filme aborda o amor, a amizade, as formas mais variadas de se satisfazer e acaba mostrando o "mundo gay" de uma forma bem real, onde todos fazem ou se realizam na famosa pegação, mas poucos admitem. O filme é bem interessante, porém o desfecho me decepcionou bastante. (SILAS HOHENSTAUFFEN).


O filme está disponível no streaming Telecine.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

WIM WENDERS - DESPERADO (2020) - "Eric Fiedler, Andreas Frege"

 "Documentário possibilita ao espectador uma visão única da vida e do trabalho de um artista excepcional."

     Documentário sobre o diretor Wim Wenders fecha a 25ª Edição do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários em sua primeira exibição no Brasil. O lendário diretor é um dos pioneiros do Novo Cinema Alemão e uma das figuras mais importantes do cinema contemporâneo. Desperado possibilita ao espectador uma visão única da vida e do trabalho de um artista excepcional e bastante admirado. Dirigido pelo australiano Eric Fiedler (It Must Schwing: The Blue Note Story) e por Andreas Frege, mais conhecido como Campino, vocalista da banda punk alemã Die Toten Hosen, o documentário é uma meditação intimista sobre o trabalho de um visionário que soube refletir o espírito de sua geração. O documentário oferece um olhar muito próximo por dentro do processo artístico e das realizações de um cineasta incomparável – um improvisador, cujas cenas são sempre uma viagem ao desconhecido. O filme apresenta materiais inéditos e encontros exclusivos com Wenders com participações especiais de Francis Ford Coppola, Willem Dafoe, Patti Smith, Andie MacDowell, Ry Cooder, Rainer Werner Fassbinder e Werner  Herzog, entre outros. 


     "Desperado" é uma  palavra em espanhol que significa “desesperado”, “sem esperança”, mas também “ousado”, “temerário” e “impaciente”, e no sentido mais restrito denota o membro de um grupo fora de quaisquer leis, que via de regra tem intenções políticas e subversivas extremas. Um extremista anarquista ou anarquista, uma pessoa que não tem mais nada a perder e, portanto, é imprudente. Analisando a carreira de Wim Wenders é facil encontrar triunfos que o fizeram o cineasta ser marcante e atemporal, como nos clássicos Alice nas Cidades (1974), Paris, Texas (1984) vencedor do Festival de Cannes, Asas do Desejo (1987) e outros mais recentes como Buena Vista Social Club (1999) e Pina (2011). Desperado não tenta ser um retrato imparcial, equilibrado ou analítico do cineasta, pelo contrário, se assemelha a um trabalho acrítico de um fã, reforçada pelo fato de que o próprio Wenders, está presente em incontáveis ​​auto-comentários, ele está nos sets de filmagens e em contato com seus personagens sendo o ponto central. É um filme que torna o trabalho de Wenders significativo e importante, o que o faz parecer um retrato e espelho de uma geração muito específica, que ao mesmo tempo vai além do Novo Filme Alemão e suas problemáticas constelações cinematográficas, tudo isso se desenvolve em Wenders mas ao mesmo tempo limita o conhecimento dos fracassos posteriores. 


    A obra mostra locais de filmagens e os momentos-chave da obra de Wim Wenders,
Friedler e Frege também traçam uma jornada que mesmo aqueles que não são especialistas em cinema de arte vão se indentificar com a obra do diretor e sua personalidade. Destaque também para a trilha-sonora que minimiza o possível cansaço de acompanhar as 2 horas de documentário. Entre os depoimentos, Willem Dafoe resume algo importante sobre o realizador: "No Wim vejo não só o diretor, mas também o aventureiro brincalhão. A criança que pula alegremente em uma poça ao som da música. Seus filmes têm tanto poder, não há nada igual". São vários depoimentos interessantes, inclusive alguns com um certo "puxão de orelha" pelo seu jeito peculiar e único de Wenders em construir seus filmes. "Wim Wenders, Desperado” não é apenas sobre o amor ao cinema, mas também sobre um artista que corre o risco de fracassar a cada novo filme: artisticamente, pessoalmente e muitas vezes financeiramente, um retrato atmosférico, cinematográfico e único que oferece uma visão da obra de um fascinante e imprevisível realizador da sétima arte. IMPERDÍVEL.


A premiere no continente americano de Wim Wenders, Desperado
 encerra a 25ª edição do festival É TUDO VERDADE no Domingo dia 04 de outubro, às 20h, logo após a Cerimônia de Premiação no site oficial do Festival: www.etudoverdade.com.br

OBS: Exibição única, sem previsão de estréia no Brasil! Filme visto na Cabine de Impresa On line!

Hype: ÓTIMO - Nota: 8,0

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Hype TBT - A GAROTA DA FÁBRICA DE CAIXAS DE FÓSFOROS (1990) - "The Match Factory Girl" de "Aki Kaurismack"


     Nosso TBT de hoje relembra um clássico brilhante e erudito do cineasta finlandês Aki Kaurismäki, a parte final de sua trilogia do proletariado, que completa 30 anos em 2020 e permanece bem lembrada entre os cinéfilos mais refinados. Depois de Sombras no Paraíso (1986) e Ariel (1988), Kaurismäki não poupa esforços em criar uma obra atemporal que sofre influências de diretores como Jean-Pierre Melville e com leve semelhança a obras de Fassbinder, contando com atuações moderadas e uma história cinematográfica porém simples e atraente, transmitindo uma mensagem brutal sobre o capitalismo, sem deixar de lado o peso sentimental.

      O retrato da vida dessas pessoas tem uma pitada banal e peculiar de humor, que conversa um pouco com o cinema realizado atualmente pelo diretor Jim Jarmusch, que já declarou admirar o diretor. A produção também conhecida internacionalmente como "The Match Factory Girl", se encaixa de forma bastante consistente naquele tema de mulheres culturalmente reprimidas enfrentando tempos difíceis, buscando algum tipo de alívio na indiferença casual  e crueldade de homens insensíveis e sem consideração. A mensagem "não-verbal" expressa por esses personagens em longos períodos de silêncio nos levam a um ambiente quase particular do reticente diretor Kaurismäki, com conclusões dolorosas e até meio embaraçosas. A cena inicial de uma família carrancuda assistindo ao noticiário em um silêncio implacável e indiferente enquanto a tv mostra a cobertura de um massacre e a explosão de um gasoduto que mata centenas de pessoas dá o tom melancólico das relações familiares modernas, muito presente na nossa sociedade atual e encarada como "normalidade", ele faz questão de ressaltar elegantemente, "a vida é uma merda, aguente essa tristeza", uma das várias mensagens silensiosas que nunca realmente deixam de transitar em sua obra.


     Este é um filme fundamentalmente frio e que fecha a saga do diretor em compartilhar um tema comum de luta financeira, com protagonistas da classe trabalhadora que se veem levados a medidas desesperadas após serem encurralados por circunstâncias adversas. Mantendo sua duração abreviada, a história do filme captura um trecho breve, mas crucial da vida de Iris (Kati Outinen), uma jovem condenada ao trabalho enfadonho em uma fábrica de fósforos, onde ela labuta horas a fio em uma variedade de tarefas servis, principalmente monitorando pequenos pacotes de fósforos enquanto passam por várias estações na linha de produção. A maior parte de seu tempo é passada em um isolamento silencioso, grande parte do filme é estritamente visual, com um mínimo de diálogo. (A cena inicial do processo de produção do fósforo tem uma incrível beleza). Alguns desses memoráveis momentos são dedicados a personagens olhando um para o outro, silenciosamente, sem engajamento verbal. Alguns dos sentimentos mais desamparados do filme nem são falados mas acompanhados pelas poucas expressões da situação enfrentada, não apenas por Iris, mas também pela multidão anônima da rotina industrial. Quando as falas são transmitidas, elas são curtas e devastadoramente contundentes. 

     O mundo de Iris, com sua família, seus colegas de trabalho ou com um grupo de estranhos em um bar, é um lugar frio, solitário e alienado. O diretor joga isso como uma provocação a essa vida urbana muitas vezes sem qualquer sentido ou propósito, a sensação é como se todos tivessem mais ou menos esgotados e a maioria das conversas são apenas um meio de reforçar as limitações sociais observadas principalmente por meio de um código rígido e implacável de silêncio inquestionável, mas que provoca angústia. São diversos os caminhos de reflexão nessa parábola da vida de Iris e do que pode acontecer quando alguém acorda de uma inércia produzida por uma sociedade cheia de manipulações vazias e cínicas sobre a felicidade. O reflexo brutal de nossa sociedade é apresentado em um filme amargo, frígido e irônico que precisa ser descoberto. OLHAR PRECIOSO.

O filme foi lançado no Brasil pela Lume Filmes.





segunda-feira, 10 de agosto de 2020

UMA MULHER ALTA (2019) "Beanpole" de "Kantermir Balagov"


"Imersão feminina no pós guerra da Rússia se revela uma obra prima forte de um cinema vívido e deslumbrante." 

   O segundo longa-metragem do promissor diretor russo de 28 anos, Kantemir Balágov, ex-aluno do diretor Aleksándr Sokúrov, é também o segundo a ser premiado na Mostra "Un Certain Regard" do Festival de Cannes e teve carreira extensa e de destaque em diversos festivais pelo mundo. Longe de obviedades, a história se torna um drama brutal e silencioso, onde o jovem realizador decidiu tematizar a participação feminina na Segunda Guerra após ler “A Guerra Não tem Rosto de Mulher” (2013), de "Svetlana Aleksiévitch", obra literária que apresenta relatos íntimos de mulheres soviéticas que viveram o conflito. O filme se passa nos meses seguintes a guerra e seu retrato é sobre traumas e sequelas gerados e que permanecem ao longo de difíceis períodos de transição. O filme é principalmente sobre a complexidade de relações que oscilam entre amizade, amor e abusos. Uma Mulher Alta consegue subverter a velha convenção do cinema de guerra com personagens femininas protagonizando e movendo a história, cabe aos homens papeis secundários e fragilizados em uma produção caprichada e bastante elegante.


   Na trama, acompanhamos o trabalho de Íya (Viktória Mirochnitchênko) como enfermeira em um hospital de Leningrado pós segunda guerra, que sofre com os mortos e moribundos, ela está sujeita a ataques repentinos de uma paralisia. Ela cuida ainda do filho de Masha (Vassilíssa Perelyguina), sua companheira de front. Uma crise da doença de Íya, porém, terá consequências trágicas que desencadeiam mudanças na sua relação com sua amiga. Mesmo com o fim da guerra, nem todas as sequelas se apagaram. O gemido sufocado da jovem Íya, que periodicamente entra em um estado parasilisante, são os efeitos colaterais da dor constante da batalha e do vazio por dentro da protagonista, chamada de “varapau" e que no Brasil ganhou uma descrição elegante do apelido, "Uma Mulher Alta". Mesmo que não evolua drasticamente em seus argumentos, não se engane com o aspecto calculista da obra e como suas personagens chegam em nuances que fogem do senso comum da guerra ou mesmo, deixam claro que o foco são suas visões femininas, ainda que não tragam o conforto que esperamos.


    Mesmo em uma época que está sujeita a novas regras de contabilidade moral e os bondes atropelam suicidas como buracos, é difícil não encarar, por exemplo, uma fala sobre constituir uma “família normal" como uma ironia dirigida ao mundo de hoje e a certas padronizações disfuncionais que vão sendo estabelecidas. O argumento da história é tão forte que talvez não comova quem ainda se perde na guerra como confronto e batalha deixando de lado as consequências. A produção destaca também sua fotografia marcante em tons de verde assinada por "Ksênia Seredá", de 24 anos, além da trilha musical discreta que  ganha importância dramática, os ruídos e sons do ambiente ajudam a compor a sólida composição da melancolia retratada. A fachada de filme lento se desmorona na tensão de um mundo quebrado, mas que continua girando em uma inércia purgatorial. Uma Mulher Alta demora para descongelar de seu impacto emocional, atrasa o poder da história até seus momentos finais onde uma cena dolorosa após a outra demonstra o controle que essas mulheres possuem sobre si e assumem todas as maneiras pelas quais o amor pode ser mais frio do que a morte. OBRA PRIMA.



Hype: ÓTIMO (Nota: 9)

Onde ver: Streaming MUBI 

sexta-feira, 1 de maio de 2020

CORPUS CHRISTI (2019) - "Boze Cialo" de "Jan Komasa"


Filme polonês é uma intensa surpresa seja pela atuação vibrante do ator Bartosz Bielenia ou pelo interessante relato de um jovem perdido em seus caminhos que busca conforto na religião em uma história que foge da linha reta.

O filme já havia chamado a atenção quando foi escalado para concorrer na Categoria Filme Internacional no Oscar 2020, tirando escolhas certeiras e favoritos a categoria, dirigido pelo quase desconhecido Jan Komasa, o filme foi um sucesso no país de origem e chamou bastante atenção no tradicional Festival de Veneza participando também de outros festivais como o TIFF em Toronto com forte comentário da crítica, principalmente por ser um filme agradável de assistir mesmo com um tema bastante forte. Inspirado em fatos reais, a trama segue Daniel (Bartosz Bielenia), um rapaz problemático de 20 anos que usa a religião como meio de sobrevivência enquanto cumpre pena em uma prisão para adultos e jovens delinquentes. Mesmo trancafiado por razões semelhantes que os demais presos, ele não é como a maioria deles, seu passatempo entre as atividades na prisão e ser hostilizado pelos colegas de confinamento é orar em seu quarto e cantar hinos religiosos enquanto ajuda o pregador da prisão durante seus sermões. Sem uma rigorosa disciplina de ser um “homem de Deus”, logo após sua libertação ele recebe um chamado para seguir sua vida no norte do país em uma cidade tranquila. Ele aposta na sorte e em vez de treinar para ser um humilde carpinteiro como Jesus, ele espalhará sua palavra como um apóstolo 2.0 se vestindo de padre e acidentalmente assumindo uma paróquia local. A chegada do jovem e carismático pregador é uma oportunidade para a comunidade local iniciar um processo de cura após uma tragédia que aconteceu na região. O que poderia ser um drama carregado ou preocupado em agradar aos conservadores, se torna surpreendente ao se desprender de fórmulas e desafiar lógicas, principalmente em confronto ao tradicional, chega a ser difícil de acreditar que Corpus Christi é baseado em histórias reais de pessoas que fingem ser clérigos, no entanto, ele não é um filme religioso mesmo tratando a religião. A compreensão da natureza humana muda conforme o tempo e exige o desprendimento de dogmas mesmo que sua essência ainda seja importante. O filme pode parecer perturbador, com cenas de grande intensidade, presentes na vida real mas ironicamente julgadas, mas seu mérito é conseguir ser cativante na construção de uma história simples e complexa em sua total reflexão de como usamos as ferramentas que possuímos para sermos melhores. No final, possivelmente sirva como um alerta que a pureza está no coração de cada um, longe da necessidade de uma graduação em um seminário ou aprofundamento na teologia, certas regras já se mostraram falhas dentro da igreja e precisam de mudança. A história alerta o quão é importante reavaliarem o significado de noções religiosas, como salvação, julgamento, culpa, reparações, tentações ou arrependimento pelos pecados, tudo apresentado no filme de sua maneira intensa e sem máscara. O filme explora temas universais, não apenas específicos para a Igreja Católica mas para quem acredita na humanidade e na capacidade das pessoas de fazer o bem.  Um filme imperdível. A FÉ NÃO TEM FÓRMULA.


Filme exibido na Mostra Competitiva do  7° Festival Internacional de Cinema de Brasília - BIFF. Vencedor como Melhor Filme pelo Júri oficial.

O filme não tem previsão de estréia no Brasil!

Hype: ÓTIMO - Nota: 8,5

quinta-feira, 30 de abril de 2020

THE FRENCH TEACHER - UM AMOR A TRÊS (2019) de "Stefania Vasconcellos"



O drama intergeracional exibido no BIFF é frio e orgânico sem comover.

O filme ainda não foi lançado comercialmente e apresenta uma trama no estilo "soft porn", onde mesmo com uma bonita fotografia esconde um roteiro sem muito desenvolvimento. Uma mulher mais velha, a professora de francês (Marie Laurin), se vê amargurada na vida e nos relacionamentos e acaba vivendo uma tórrida paixão por um de seus alunos (Sean Patrick McGowan), bem mais novo que ela. Só para constar, esse tipo de relacionamento já não é novidade em filmes, porém a trama acrescenta a filha da professora (Anna Maiche), que tem a mesma idade do aluno e também se interessa no rapaz. O grande problema da história é justamente sugerir esse triângulo amoroso, o título nacional já automaticamente faz isso, mas não é o foco principal do filme. Na verdade nada se mostra muito específico nessa relação, muito do que se deseja retratar torna-se subjetivo ao expectador, quase que já aderindo ao senso comum de julgamento. Quando se nega algo que já está claro fica uma sensação de culpa em abordar tal relação, algo percebido principalmente pelos diálogos ou situações que surgem em tela sem a menor preparação e as vezes soltas sem nenhuma cerimônia, tudo é realizado sem deixar claro as reais intenções. Os elementos de sustenção do filme se perde em personagens pouco carismáticos ou misteriosos ao ponto de não se expressarem. O drama não é substancial ficando grande parte do tempo sem qualquer embasamento sobre as problemáticas e termina esvaziado em um romance pouco sólido. Infelizmente a trama não evolui e não estimula o expectador, oferecendo uma história pouco cativante e bastante previsível. O presente colide com o passado e questões familiares são desenterradas, porém o propósito real dessa exposição não fica claro também. No fim das contas, um filme que falta pimenta em tudo, bastante morno e indicado para quem não quer se intensificar nos fatos abordados. SONOLENTO. 


Filme exibido na Mostra Competitiva do  7° Festival Internacional de Cinema de Brasília - BIFF. Sem previsão de estréia no Brasil. 

Hype: RUIM - Nota: 4,0

quarta-feira, 29 de abril de 2020

HÁLITO AZUL (2019) de "Rodrigo Areias"



Documentário busca ser uma poesia sobre a preciosidade da água e da vida de pescadores de uma área ameaçada em Portugal.

Exibida no BIFF, produção conta a história de uma região localizada na Ilha de São Miguel, em Portugal, a pequena vila Ribeira Quente, que se sustenta com a pesca. O lugar fica entre o oceano e a costa de um vulcão, onde a principal atividade de subsistência dos habitantes pode estar ameaçada com sua possível erupção. O filme busca apenas mostrar o amor da comunidade aos seus pescadores e também ao mar onde passam maior parte de suas vidas dedicadas a pesca. Rodrigo Areias se desvia da ameaça que a comunidade sofre para observar reuniões de pescadores que expõem problemas relacionados ao alto mar, assim como viagens de pesca que exploram as etapas desta profissão escolhida por eles. Esses relatos cobrem boa parte do filme que por um momento também insere trechos literários de "Os Pescadores", do escritor Raúl Brandão. Hálito Azul então é um documentário que também serve de poema com uma camada ficcional que une as duas vertentes. A idéia infelizmente não engrena e o tom reflexivo se torna massante em meio a história dos moradores de Ribeira Quente. O destaque são as cenas em que o espectador acompanha as belas e coloridas homenagens feitas aos pescadores de uma tradição que sobrevive através dos anos, com cenas teatrais e personagens reais da região inspirados nos contos de Brandão. Toda essa mistura narrativa, mesmo com sua beleza, faz a história se perder, sem levar a narrativa a nenhum lugar em potencial. Sua poesia visual é o grande atrativo com belas cenas no mar e no farol mesmo que falte ritmo e objetivos maiores em uma gama interessante de assuntos mal servidos ao expectador, sobra então a bela paisagem natural ameaçada por um vulcão, a vida dos pescadores ou mesmo uma homenagem a água por si só, termina sem encontrar seu verdadeiro caminho como documentário. CONTEMPLATIVO. 



Filme exibido na Mostra Competitiva do  7° Festival Internacional de Cinema de Brasília - BIFF. Sem previsão de estréia no Brasil.

Hype: REGULAR - Nota: 5,5