Meu Hype
Hype"s!
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
PÂNICO 7 (2026) "Scream 7" de "Kevin Williamson"
terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
A HISTÓRIA DO SOM (2025) - "The History of Sound" de "Oliver Hermanus"
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
THE MOMENT (2026) - "Aidan Zamiri"
Satirizando as armadilhas do estrelato pop, The Moment é um falso documentário sobre o auge da fase "BRAT" de Charli XCX, que utiliza a presença magnética da artista para dar coesão a uma narrativa por vezes desajeitada mas divertida. O que mais surpreende é como a obra justifica seu hype logo de cara: é brilhante, caótica e deliciosamente ridícula — como estar em uma festa onde o som está alto demais, mas você se recusa a ir embora. O universo visual é hiperestilizado, quase irreal, como se a cultura pop tivesse sido levada ao seu extremo mais barulhento e excêntrico. Há um tom satírico que provoca o riso, mas que também esconde algo desconfortável.
The Moment não é apenas uma celebração ou um registro de show disfarçado de profundidade. Parece, na verdade, uma despedida caótica e reluzente de toda uma era. Em vez de tentar recriar a magia ou prolongar o momento artificialmente, Charli abraça a bagunça e se despede da maneira mais estrondosa possível. A experiência é eletrizante, desvairada e autoconsciente, repleta de piscadelas irônicas para a indústria que a moldou. Se Brat foi um ápice cultural, este longa garante que o encerramento seja em grande estilo, evitando um desaparecimento silencioso.
O elenco de apoio compreende perfeitamente o tom da obra. Alexander Skarsgård, Hailey Benton Gates, Rachel Sennott e Kylie Jenner são participações importantes. No entanto, o núcleo gravitacional é Charli. Sua transição entre o humor, o distanciamento e a vulnerabilidade parece orgânica, uma extensão natural da persona que ela construiu meticulosamente ao longo dos anos.
The Moment entrega atitude e traduz visualmente a essência de suas músicas: uma mistura de glitter e desilusão amorosa. É um retrato de uma artista vivendo o auge no "aqui e agora" — ainda que, para quem não conhece o trabalho dela e o que foi o BRAT, a experiência possa ser drasticamente diferente.
⭐️⭐️⭐️ BOM
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
PARA SEMPRE MEDO (2025) "Keeper" de "Osgood Perkins"
Para Sempre Medo (Keeper) não é um filme inovador, nem tão impactante quanto parece. É uma obra sólida e bem executada, ainda que se perca nos detalhes e na própria trama. O diretor Osgood Perkins aposta, mais uma vez, na sugestão e em uma atmosfera que se desenrola aos trancos e barrancos — por vezes hipnótica, outras vezes com uma paciência que beira a frustração. O filme funciona, embora deixe a sensação de que poderia ter ido além. O hype se justifica mais pela coleção de momentos perturbadores do que por uma história coesa; o resultado soa inacabado e desperdiça a atuação dedicada de Tatiana Maslany.
Liz (Maslany) e Malcolm (Rossif Sutherland) estão juntos há cerca de um ano quando decidem passar um fim de semana na casa isolada da família dele. Como era de se esperar, eventos estranhos começam a acontecer e um mistério passa a rondar o local. O diretor, que se destacou nos últimos anos com Longlegs e O Macaco, apostou na fonte inesgotável do terror focado em relacionamentos românticos. Perkins transforma o romance em um terreno tão instável quanto a escassa tranquilidade encontrada no gênero, focando em uma história íntima e ambígua que usa o desconforto emocional como porta de entrada para o horror.
A atmosfera onde a personagem Liz, com um olhar de terror embriagado, vê-se presa em uma cabana luxuosa de design minimalista na floresta somado a uma série de eventos sinistros com aparições perturbadoras em meio a um ritual satânico horripilante possuem uma energia poderosa, pontuam uma obra dirigida com elegância mas perdida na profundidade.
Infelizmente, essa construção não se sustenta. A narrativa lacunar incomoda, e o uso de enquadramentos vazios e sombras gera uma constante sensação de desorientação, como se o filme nunca encontrasse seu rumo. Todo esse talento visual funcionaria melhor com um roteiro mais robusto e sem o esforço excessivo em ser "cult". Essa pretensão leva a narrativa para um reino onírico que nunca se define, fazendo o espectador perder o interesse por não conseguir decifrar o que, de fato, está acontecendo.
⭐️⭐️ REGULAR
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
O FRIO DA MORTE "2025" - "Dead of Winter" de "Brian Kirk"
Emma Thompson mergulha de cabeça no universo da ação com O Frio da Morte, um thriller gelado que, apesar da intensa carga dramática, cumpre seu papel como uma vitrine tensa para sua estrela. O hype do filme é Thompson, uma atriz com um histórico de atuações dramáticas se entregando em uma atuação estelar como uma heroína improvável em luto, o que acaba evidenciando, por contraste, a fragilidade de seus antagonistas ou seu talento pela ação.
Minnesota surge como uma paisagem implacavelmente sombria no inverno. Para Barb (Thompson), no entanto, o local é repleto de memórias preciosas: seus lagos congelados foram o cenário do primeiro encontro com o falecido marido, no início dos anos 80. Recém-viúva, Barb decide espalhar as cinzas do parceiro no Lago Hilda. Mas, com a piora das condições climáticas, ela busca abrigo em uma cabana local e percebe que algo está errado. A curiosidade a domina e logo ela se vê envolvida em uma trama de tráfico de órgãos digna de um filme dos irmãos Coen.
O Frio da Morte é, na verdade, a união de dois filmes distintos competindo entre si. A urgência da fuga se entrelaça à forma como Barb processa sua perda, resultando em algo profundamente comovente. Thompson eleva o material com uma atuação sincera e tocante. Com uma narrativa concisa, o longa é a escolha certeira para uma sessão de cinema em um dia chuvoso, sem margem para arrependimentos.
Emma Thompson tem esse "superpoder": ela consegue transformar uma premissa que poderia ser um suspense genérico de Supercine em algo com peso emocional real. Vale muito ver.
⭐️⭐️⭐️ BOM
#ofriodamorte #deadofwinter #emmathompson #thriller #cinema
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
ROB1N: INTELIGÊNCIA ASSASSINA (2025) de "Lawrence Fowler"
Rob1n é um filme de baixo orçamento que transita no estilo Trash — aquele "guilty pleasure" ideal para quem busca diversão descompromissada e efeitos propositalmente toscos. Trata-se de um terror pouco assustador e excessivamente "discreto", passando longe de clássicos desse subgênero como Mestre dos Brinquedos (Puppet Master). Com um elenco pouco inspirado, assistir ao filme é quase um exercício de esforço.
A história acompanha um especialista em robótica que canaliza a dor da perda do filho na construção de Robin, um boneco totalmente funcional. Logo, uma série de eventos horríveis deixa claro que a criatura fará o que for preciso para ter seu criador apenas para si. A ideia de uma inteligência artificial moldada pela carência emocional carrega um potencial simbólico interessante, especialmente em tempos de relações mediadas por máquinas. O filme sugere que o perigo real não reside no robô, mas no desejo humano de controle absoluto sobre o afeto. Essa camada teórica, embora pouco aprofundada, impede que a experiência seja totalmente descartável, ainda que seja insuficiente para salvar a obra.
Rob1n falha por não possuir precisão estética ou senso de ameaça. O protagonista mecânico carece de personalidade e sua presença em tela é quase um vulto. As referências são evidentes: há ecos de M3GAN, lembranças de Chucky e até um flerte distante com o imaginário de Five Nights at Freddy’s, mas sem a eficácia dos filmes citados.
Rob1n: Inteligência Assassina posiciona-se como um exercício de gênero que reconhece suas influências, mas raramente consegue dialogar com elas de igual para igual. É um filme sobre perda, posse e tecnologia que tropeça na sua forma, deixando a sensação de que poderia ter ido além se confiasse mais em sua premissa central do que em fórmulas desgastadas.
⭐️ RUIM
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
VOCÊ SÓ PRECISA MATAR (2025) "All You Need Is Kill" de "Ken"ichirô Akimoto" e "Yukinori Nakamura"
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
O MORRO DOS VENTOS UIVANTES (2026) "Wuthering Heights" de "Emerald Fennell"
sábado, 7 de fevereiro de 2026
SOCORRO! (2026) "Send Help" de Sam Raimi
Socorro! (2026) marca o retorno do celebrado diretor Sam Raimi ao gênero que o consagrou: o terror de franquias como Evil Dead ("A Morte do Demônio") e o visceral "Arraste-me para o Inferno". Raimi é especialista em instaurar o caos em poucos segundos. Particularmente, considero Doutor Estranho no Multiverso da Loucura um dos meus favoritos da Marvel justamente por sua assinatura, nesse novo filme ele está mais contido, restringindo o horror a cenas de pesadelo e lampejos de brutalidade. O sangue corre solto, mas o foco principal é a relação corporativa tóxica entre os protagonistas. Aproveitando a inclinação do diretor para o "caos diabólico", o longa gerou hype por equilibrar uma aventura fantástica com roteiro inteligente e atuações brilhantes de Rachel McAdams e Dylan O'Brien.
McAdams interpreta Linda Liddle, uma estrategista financeira brilhante, porém socialmente desajeitada, que aguarda a promoção prometida pelo antigo CEO da empresa. No entanto, quando o filho do executivo, Bradley (Dylan O'Brien), assume o comando, ele entrega o cargo a um de seus amigos de golfe. Ainda assim, Bradley precisa do intelecto dela para um grande negócio e a convoca para uma viagem de jato até Bangkok, o jato cai no Golfo da Tailândia. Linda desperta em uma ilha deserta e encontra Bradley ferido. Sem outros sobreviventes, os dois precisam superar as diferenças e sobreviver aos perigos reais do isolamento, como em um macabro jogo de sobrevivência.
Linda Liddle é uma personagem instantaneamente icônica — e o espectador logo aprende a não confundir sua bondade com fraqueza. Em uma noite de embriaguez ao redor da fogueira, segredos sombrios vêm à tona, revelando traumas que explicam a capacidade de ambos para a atrocidade. O filme expõe o que há de pior no ser humano quando a civilidade é removida. Raimi, que no passado transformou Ash (Bruce Campbell) em um símbolo do terror apocalíptico, encontra em Linda Liddle uma sucessora à altura.
Um thriller de sobrevivência insano, que equilibra perfeitamente o suspense e o humor ácido.
⭐️⭐️⭐⭐️ MUITO BOM
#socorro #sendhelp #samraimi #cinema #terror
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
O PRIMATA (2026) "Primate" de "Johannes Roberts"
Com uma profusão de violência gráfica, O Primata entrega um slasher emocionante e visceral. O terror animal — ou "creature feature" — é um subgênero que utiliza predadores reais, mutantes ou monstros pré-históricos para escancarar a fragilidade humana perante a força bruta da natureza. Enquanto clássicos como Tubarão, Pânico no Lago e Anaconda exploram o medo em habitat selvagem, O Primata eleva ao absurdo ao transformar a premissa de um chimpanzé raivoso dizimando um retiro familiar. O mero "prazer culposo" em ver esse massacre não é tarefa fácil, mas o diretor Johannes Roberts (Medo Profundo) o faz com engenhosidade surpreendente.
O filme abraça uma abordagem deliberadamente sangrenta e cheia de hype, combinando tensão sufocante, humor negro e um respeito evidente pelas convenções do gênero, lembra os filmes que passavam no clássico Cine Trash da Band na década de 90, até a trilha sonora ajuda nesse sentimento nostálgico.
Desde o início, Roberts nos lança de cabeça em um universo onde o chimpanzé Ben — interpretado com uma mistura magnética de carisma em ameaça por Miguel Torres Umba — torna-se a personificação animal do vilão clássico. A escolha fundamental por efeitos práticos em vez de CGI confere um toque nostálgico aos anos 80 e 90, garantindo à criatura uma presença física palpável que torna o perigo muito mais real do que qualquer artifício digital.
O Primata equilibra o grotesco e o aterrorizante com autoconsciência. Não há pretensão de profundidade filosófica; o objetivo é o entretenimento visceral que celebra o excesso. Cada morte engenhosamente concebida busca extrair não apenas o grito, mas a risada nervosa do espectador. Sem tentar reinventar a roda, o longa se desenrola em um ritmo alucinante — uma montanha-russa brutal, original e banhada em sangue.
⭐️⭐️⭐️ MUITO BOM
#oprimata #primate #monkey #terror #cinema
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
(DES)CONTROLE (2026) de "Rosana Svartman" e "Carol Minêm"
O longa, encabeçado por uma atuação visceral de Carolina Dieckmann, mergulha no delicado tema do alcoolismo e em suas nuances — das mais discretas às mais extremas. Se a sutileza marca o início da jornada, as diretoras Rosana Svartman (Pluft, o Fantasminha) e Carol Minêm enfrentam com maestria o desafio de equilibrar a comédia com um tema sério, prestando um serviço social relevante. O roteiro, assinado por Felipe Sholl (Minha Mãe é uma Peça) e Iafa Britz, entrega emoções fortes sem cair no melodrama barato, apoiado por um elenco que foge da caricatura. O filme se destaca como um exemplar de comédia brasileira carismática, profunda e, com certeza, "hype".
“(Des)controle” acompanha a história de Kátia Klein (Dieckmann), uma escritora bem-sucedida e mãe dedicada que vê seu mundo ruir diante de um bloqueio criativo e um casamento em crise. Enquanto tenta administrar as demandas dos dois filhos e dos pais, Kátia busca alívio no álcool. O que começa com uma simples taça de vinho evolui para o descontrole total, reativando sua dependência. O longa retrata com crueza o impacto da doença na dinâmica familiar e a importância vital de uma rede de apoio enquanto o indivíduo tenta, desesperadamente, preservar seus afetos e conquistas.
Além de Dieckmann, o elenco reúne nomes de peso: Irene Ravache e Daniel Filho interpretam os pais da protagonista; Caco Ciocler vive o ex-marido; e Júlia Rabello encarna a melhor amiga e agente. Stefano Agostini e Rafael Fuchs Müller completam o núcleo como os filhos de Kátia. Todos ganham espaço narrativo, reforçando o papel crucial de quem cerca o dependente.
Inspirado em histórias reais, o filme deixa um alerta claro: o alívio rápido e aparentemente inofensivo do álcool pode ser o início de uma queda livre. Mesmo após anos de sobriedade, uma única taça pode colocar tudo a perder. A humanidade da protagonista, revelada em camadas de profundidade e dramas interpessoais, é o ponto alto da obra — uma narrativa regada a pitadas de humor que discute o alcoolismo mostrando a vida exatamente como ela é.
⭐️⭐️⭐️ BOM
#descontrole #carolinadieckmann #rosanesvartman #cinemabrasileiro #cinema
O SOM DA MORTE (2026) "Whistle" de Corin Hardy
#osomdamorte #whistle
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
A NATUREZA DAS COISAS INVISÍVEIS (2025) de "Rafaela Camelo"
A Natureza das Coisas Invisíveis se apresenta como um conto sensível sobre a impermanência da vida e sua relação com a morte. Abordando temas como identidade de gênero, maternidade solo e espiritualidade de maneira original e particularmente bela, o filme conduz o espectador através de uma amizade de infância. A primeira parte da trama se desenrola dentro de um hospital — um espaço fechado e clínico — mas, quando a história se desloca para uma aldeia, a narrativa torna-se mais coletiva e espiritual. A obra explora o luto sob a perspectiva de duas meninas que se aproximam após um encontro casual. A delicadeza da história transborda na tela, fazendo com que a expectativa (hype) em torno do filme seja inteiramente condizente com a beleza da obra.
O filme explora constantemente a finitude. A narrativa aborda a morte como um passo anterior ao renascimento: a transformação daquilo que desaparece para continuar vivendo de uma forma distinta. Esse conceito reflete-se nas duas protagonistas. A diretora, Rafaela Camelo, introduz elementos de realismo mágico ligados à Glória, enquanto Sofia vive sua própria transformação através da identidade de gênero. Quando moradores da vila perguntam por Bento, filho de Simone, ela responde que ele "está morto" — uma metáfora para a transição da filha.
As crianças têm uma percepção apurada das nuances, daquelas "coisas invisíveis" que emergem entre palavras, gestos e olhares. O filme nos lembra que, por mais que tentemos blindar os pequenos dos temas difíceis, eles captam tudo, questionam e, com sorte, nos confrontam com perguntas específicas.
A Natureza das Coisas Invisíveis é uma obra profundamente feminina, onde os homens ocupam papéis secundários. Para Glória, Sofia, Antônia e Simone, o ciclo de morte e renascimento assume diferentes formas e realidades. É um retrato de notável sensibilidade e tom surpreendentemente lúdico. Uma linda história para se assistir.
⭐️⭐️⭐️⭐️ ÓTIMO
#anaturezadascoisasinvisíveis #netflix #thenatureofinvisiblethings #cinemabrasileiro #vitrinipetrobras
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
APOCALIPSE NOS TRÓPICOS (2025) de "Petra Costa"
Uma tese sobre a realidade política brasileira!
Quando termina uma democracia e começa uma teocracia? Tal questionamento é a base de "Apocalipse nos Trópicos", da documentarista Petra Costa, que investiga a crescente influência de líderes religiosos sobre a política brasileira. Costa obteve acesso privilegiado a figuras centrais do país, incluindo o presidente Lula e o ex-presidente Bolsonaro, bem como ao televangelista Silas Malafaia — um pastor carismático que parece manobrar as peças do tabuleiro a seu favor. O filme revela o papel fundamental do movimento evangélico na recente turbulência política nacional e expõe a teologia apocalíptica que impulsiona seus principais protagonistas.
Petra Costa é uma cineasta que sabe envolver seus personagens. Assim como em seu filme indicado ao Oscar, Democracia em Vertigem, ela documenta um período de profunda confusão e desespero com lucidez e olhar poético. Ao entrelaçar passado e presente, a diretora nos imerge nas realidades contraditórias de uma jovem democracia que se mantém por um fio, apresentando um espelho para o resto do mundo.
O documentário analisa a expansão evangélica na população brasileira e seus efeitos na política. A obra pode ser sintetizada em dois depoimentos: o de Silas Malafaia, que define a democracia como o "governo da maioria" (sugerindo que ignorará as minorias nesse sistema), e o de Lula, que reconhece que a esquerda e a Igreja Católica falharam onde os evangélicos acertaram.
A qualidade técnica e a edição são inegáveis, servindo de suporte para que a diretora apresente sua tese gradualmente. É um excelente trabalho, embora, naturalmente, muitos detalhes tenham ficado de fora; a edição foca em "resumir" o complexo cenário brasileiro para o mercado internacional.
Apocalipse nos Trópicos é uma obra-prima que mescla antropologia, filosofia, política e economia. Um filme que questiona como, mesmo sendo resiliente, uma democracia pode ser desafiada pela manipulação narrativa massiva e pelo poder financeiro, tanto no mundo físico quanto no digital.
🌟🌟🌟🌟 ÓTIMO
#petracosta #brasil #política #documentary #documentario #bafta #doc #politic
terça-feira, 27 de janeiro de 2026
A VOZ DE HIND RAJAB (2025) de "Kaother Bem Hania"
É difícil lançar um olhar crítico sobre algo tão devastador e inegavelmente real como A Voz de Hind Rajab. Trata-se de um docudrama único e oportuno que mescla gravações de áudio reais com a dramatização de eventos verídicos. Ao incorporar elementos tão difíceis de presenciar quanto impossíveis de esquecer, o filme possui um impacto poderoso pela história, comovendo e fazendo um apelo à humanidade, embora possa soar um pouco massante em seu formato narrativo.
Em janeiro de 2024, voluntários do Crescente Vermelho receberam um telefonema de emergência de uma jovem palestina em Gaza. Presa em seu carro, sob o som de tiros, ela implorava por socorro. Não é spoiler — visto que uma legenda no início do filme apresenta os fatos — dizer que os esforços foram, em última análise, em vão. O filme consiste nisso: ouvir, em detalhes, os últimos momentos desesperados de uma menina de cinco anos.
Trechos da voz pequena e aterrorizada de Rajab viralizaram logo após sua morte, tornando-se uma história entre inúmeras outras no contexto do conflito em Gaza. A cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania (indicada ao Oscar por O Homem Que Vendeu a Sua Pele) teve a sensatez de não dramatizar a própria Rajab, adotando uma abordagem minimalista. O filme se passa inteiramente nos escritórios do Crescente Vermelho na Cisjordânia, focando nos operadores que consolam a menina enquanto lutam contra a burocracia e o tempo.
Em termos de tom, os cineastas consideram — com razão — que a sutileza não é um recurso necessário para esta narrativa. Não é uma obra tranquila ou delicada; é angustiante. O esforço emocional exigido do espectador é imenso e nem todos terão estômago para suportá-lo, pois a dor é intensa mesmo através de uma linha telefônica.
🌟🌟🌟 BOM
SIRAT (2025) de "Oliver Laxe"
Sirat é um "road drama" de música eletrônica com uma estética desértica que se alinha ao discurso de nômades errantes cercados por um mundo exterior de eterno colapso. O contraste entre o escapismo da rave e a brutalidade do contexto geopolítico, torna-se um lembrete brutal de que a jornada pode ser mais importante que o destino. O filme merece o hype por ser um exercício de tensão que atinge o público como uma explosão ensurdecedora. O som é um personagem importante da história.
Um pai (Sergi López) e seu filho chegam a uma rave nas montanhas marroquinas. Eles procuram por Mar, filha e irmã, que desapareceu meses atrás em uma dessas festas intermináveis. Cercados por batidas eletrônicas e uma sensação crua de liberdade, eles distribuem a foto dela repetidamente. A esperança começa a esvair-se, mas ambos perseveram e seguem um grupo de ravers rumo a uma última festa no deserto. À medida que se aventuram na região selvagem e escaldante, a jornada os força a confrontar seus próprios limites.
A cultura da música eletrônica traz a este filme um paradoxo interessante: um grupo focado em dança, união e escapismo — com seus figurinos elaborados e a ética do "paz, amor, união e respeito" — contrasta com a solidão de quem busca refúgio em um mundo materialista e regido por guerras. A poética do deserto abre um espaço simbólico que questiona a memória e a condição humana sob a perspectiva subtextual da imigração.
Em Sirat (nome que remete à metáfora da jornada circular na imigração islâmica), tudo o que você imagina que vai acontecer, definitivamente não acontece. Esse é o ponto central e, talvez, o maior embate com o público. É uma experiência perturbadora que oscila entre a libertação e o luto, o céu e o inferno. Não traz respostas, mas propõe reflexões profundas. É o cinema visceral que se recusa a caminhar pelo óbvio.
🌟🌟🌟🌟 MUITO BOM
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
SONG SUNG BLUE - UM SONHO A DOIS (2025) de "Craig Brewer"
O filme musical de sempre!
Sabe aquele filme biográfico musical que parece ser lançado todo ano, mudando apenas os protagonistas e o homenageado? Essa é basicamente a fórmula de Song Sung Blue. Envolto em clichês que geralmente garantem o público pelo apelo musical e atuações impecáveis, o longa toca todas as emoções, oferecendo uma experiência digna de "Sessão da Tarde". Além disso, é uma homenagem apropriada a Neil Diamond, um dos compositores mais amados da música moderna. Tem seu charme e encanta, mas acrescenta pouco ao gênero — o que torna coerente a recepção morna nos cinemas americanos.
O filme narra a vida de Mike Sardina (Hugh Jackman), um veterano do Vietnã e alcoólatra em recuperação que fazia tributos a Neil Diamond. Ao lado de sua esposa Claire (Kate Hudson), ele formou a dupla "Thunder & Lightning" entre os anos 1990 e 2000. Naturais de Wisconsin — embora o filme tenha sido rodado em Nova Jersey —, ambos traziam filhas de casamentos anteriores. A dupla da vida real, tema de um documentário homônimo de 2008, teve um sucesso incomum para bandas cover, chegando a abrir shows para o Pearl Jam. Porém, o casal enfrentou sérias adversidades com a saúde de Mike. Além disso, o aspecto financeiro era uma luta constante. O filme apesar de simpático e bem produzido passa longe de ser o próximo "Nasce uma Estrela", ainda que Kate Hudson tenha um brilho interessante de se acompanhar.
O primeiro e o terceiro atos seguem uma linha inspiradora sobre "azarões" talentosos, com Jackman entregando performances vocais emocionantes. Já o segundo ato é um desfile sombrio de sofrimentos. Embora haja o que gostar, o filme falha em equilibrar tons tão divergentes. Um exemplo é a estranha subtrama da gravidez na adolescência da filha de Mike (Ella Anderson), resolvida de forma cômica e simplista demais.
Graças às atuações comoventes de Jackman e Hudson, além do apoio carismático de Jim Belushi, Song Sung Blue traz dignidade à arte da imitação e se consolida como uma história divertida sobre superação com aquela sensação que você já assistiu esse filme antes.
🌟🌟🌟 BOM
#songsungblue #hughjackman #katehudson #musical #hollywood #oscar #cinema #filme #estreia
domingo, 25 de janeiro de 2026
JUNTOS (2025) "Together" de "Michael Shanks"
O body horror (horror corporal) sempre foi um subgênero peculiar, utilizado com maestria no passado por cineastas como David Cronenberg em "A Mosca" e "Videodrome" e também no clássico cult "A Sociedade dos Amigos do Diabo" (Society). Recentemente, produções como "A Substância" elevaram o nível de popularidade e a qualidade estética do gênero. Agora, o roteirista e diretor Michael Shanks estreia em longas-metragens com "Juntos", colocando um casal em crise em uma situação de pesadelo. A escolha metatextual de escalar Alison Brie e Dave Franco traz uma dose extra de autenticidade; em seus melhores momentos, o filme entrega um terror tão emocionalmente envolvente quanto memoravelmente grotesco, justificando o hype.
Após anos de relacionamento, Tim e Millie (Franco e Brie) encontram-se em uma encruzilhada ao mudarem para o campo, abandonando tudo o que lhes é familiar. Com a tensão à flor da pele, um encontro tenebroso com uma força sobrenatural ameaça corromper suas vidas, seu amor e sua própria carne. Repleto de química entre os protagonistas, "Juntos" funde o bizarro ao perturbador, criando uma alquimia que parece totalmente original. Os efeitos de maquiagem são impressionantes e entregam exatamente o que se espera de uma obra do tipo: são grotescos e viscerais.
Contudo, fica a sensação de que o choque é o objetivo principal, o que revela uma certa falta de substância na narrativa. O roteiro enfatiza a situação extrema dos personagens, mas falha em aprofundar o relacionamento a ponto de nos importarmos genuinamente com eles.
No geral, a ideia central é envolvente e atinge o efeito desejado pelo diretor. Shanks criou um cenário terrível, amparado por efeitos verossímeis e dois atores à altura do desafio. Embora o roteiro careça de profundidade, ele funciona dentro de sua proposta, sugerindo uma ideia com potencial ainda maior.
"Juntos" é horripilante e perturbador no melhor sentido do horror corporal, mas também se revela diabolicamente engraçado e perspicaz.
🌟🌟🌟 MUITO BOM
#together #juntos #alisonbrie #davefranco #terror #bodyhorror #2become1 #filme #cinema #hype #meuhype #dicasdefilme
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
MORRA, AMOR (2025) "Die My Love" de "Lynne Ramsay"
Uma representação frenética de uma experiência comum, mas frequentemente ignorada: o colapso mental como um evento sensorial. O calor emanando da grama, o latido incessante de um cachorro indesejado, os sons úmidos do sexo na floresta. Não há linguagem clínica aqui; embora "Morra, Amor" possa parecer rebuscado demais para gerar uma conexão imediata com todos, presenteia Jennifer Lawrence com um de seus papéis mais marcantes. O hype do filme se justifica por não camuflar a essência gráfica de quando o bem-estar parece uma fantasia e ninguém percebe que você está sangrando.
A diretora Lynne Ramsay não se preocupa com explicações. Ela se concentra em texturas, ritmos e na maneira como a luz incide sobre uma janela enquanto um casamento se desfaz. O filme aposta nessa abordagem estética, o que se torna tanto seu maior trunfo quanto seu eventual obstáculo: por vezes, a narrativa parece não alcançar a força de suas imagens elusivas e perturbadoras.
A trama acompanha Grace (Jennifer Lawrence) e Jackson (Robert Pattinson) em sua mudança de Nova York para uma casa em Montana, herdada do tio dele. Grace dá à luz. Jackson viaja a trabalho. O casamento desmorona. Mas descrever a obra dessa forma soa redutivo — seria como tentar explicar um ataque de pânico apenas listando seus sintomas.
O roteiro nunca nomeia o que acontece com Grace. Depressão pós-parto? Psicose? Transtorno depressivo sobreposto a um trauma de infância? Ramsay sugere todas as opções sem confirmar nenhuma. Essa recusa em diagnosticar parece deliberada, quase agressiva.
"Morra, Amor" é um filme difícil, às vezes frustrante e ocasionalmente exagerado. No entanto, é surpreendentemente honesto sobre como o isolamento, a negligência emocional e uma condição mental não diagnosticada podem culminar em algo catastrófico. Ramsay criou uma obra que submerge o público na mesma confusão que consome a protagonista. Nós a vemos desmoronar e, assim como aqueles que a cercam, somos impotentes para impedi-la.
🌟🌟🌟🌟 IMPACTANTE
quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
A ÚNICA SAÍDA (2025) de "Park Chan-Wook"
Quando um homem é abruptamente demitido da fábrica de papel onde trabalhou incansavelmente por anos, sua busca por emprego torna-se cada vez mais desesperada. O lendário cineasta coreano Park Chan-Wook — mestre em transitar com elegância entre o sombrio, o absurdo, o devastador e o pastelão — não decepciona em seu décimo longa-metragem. O aclamado e hypado A Única Saída é uma obra-prima satírica e hilária sobre o que significa tentar sobreviver ao atual pesadelo capitalista. Dirigido com precisão impecável, o filme é uma crítica sagaz à corrida corporativa desenfreada.
A obra encontra força na atuação habilmente desastrada de Lee Byung-hun, que interpreta Man-su. Relutante em aceitar um trabalho braçal, Man-su luta por uma vaga de prestígio, submetendo-se a humilhações diante de executivos do setor. Ao observar com inveja um influenciador do ramo nas redes sociais, ele tem uma ideia sinistra: por que não descobrir quem são seus concorrentes para as melhores vagas e eliminá-los? Ele publica um anúncio em uma revista especializada e aguarda as candidaturas.
Uma jornada que começa cômica e termina em puro horror à medida que ele se dedica à sua nova "vocação". Embora Man-su sorria quase o tempo todo, o semblante de Lee nunca alcança os olhos, que permanecem travados em uma expressão de agonia. O diretor não hesita em fazer de Mi-ri (esposa de Man-su) uma mulher forte e assertiva, com autonomia e desejos próprios; sua sensibilidade é o contraponto perfeito para a busca mortal do marido. Se ao menos ele a tivesse escutado.
Deliciosamente sombrio e com um humor afiado, este mistério de Park Chan-wook não deixa outra opção ao espectador a não ser adorá-lo.
🌟🌟🌟🌟 MUITO BOM



















