terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

VOCÊ SÓ PRECISA MATAR (2025) "All You Need Is Kill" de "Ken"ichirô Akimoto" e "Yukinori Nakamura"


 Um belo passatempo!


O anime "Você Só Precisa Matar" (All You Need Is Kill) apresenta uma história de loop temporal ricamente animada e emocionalmente impactante. Ainda que esse recurso seja um clichê amplamente utilizado, aqui ele se transforma em um implacável ciclo de morte e em uma jornada surpreendentemente esperançosa e comovente. O uso das cores é cativante, especialmente nos cenários e nos monstros alienígenas, apresentados de forma vibrante e chamativa, o que os torna esteticamente agradáveis. Além disso, nota-se uma singularidade no design de personagens: a estética humana difere drasticamente do padrão dos animes tradicionais. Isso ocorre porque o Studio 4°C, responsável pela obra, é conhecido por seu estilo visual peculiar, exemplificado em produções como Tekkonkinkreet e Mind Game (Jogo Mental). Só isso já vale o Hype.

​Se há algo a elogiar no Studio 4°C, é o fato de terem se mantido fiéis à sua abordagem artística em vez de optarem por algo mais "comercial", especialmente ao lidar com uma propriedade intelectual tão querida. Nesse sentido, o filme revela-se um passatempo gratificante, brilhando quando se transforma em uma explosão de cores e esplendor visual. O design e as cores ganham textura graças à decisão criativa de utilizar animação 3D na maior parte do tempo.

​O conceito de Rita (Ai Mikami) vivenciando um loop ao estilo "Feitiço do Tempo" possui um potencial narrativo vasto. O filme explora o impacto psicológico, existencial e angustiante desse fenômeno, ressaltando a solidão da protagonista que, além de Kenji (Natsuki Hanae), é a única a experienciar o ciclo. A trajetória de Rita é, em essência, uma jornada de amadurecimento, na qual ela utiliza o loop para se tornar mais forte e confiante.

Embora o roteiro brinque com essas ideias, a abordagem permanece um pouco superficial; a prioridade parece ser a criação de cenas de ação empolgantes. Essa escolha não é ruim por si só, ela só não se concretiza plenamente, pois Rita acaba sendo uma protagonista pouco desenvolvida e todo potencial da obra se esvazia muito rápido sem ter atingido seu máximo. Ainda assim é um bom passatempo.

⭐️⭐️⭐️ BOM



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O MORRO DOS VENTOS UIVANTES (2026) "Wuthering Heights" de "Emerald Fennell"

 

Uma reinvenção pop de uma história atemporal.


​  Desde que a diretora Emerald Fennell anunciou que, após os sucessos de Bela Vingança e Saltburn, faria sua própria versão de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, os comentaristas da internet não têm poupado críticas — em sua maioria, negativas. Tudo no longa foi alvo de notícias tendenciosas: do elenco majoritariamente branco aos figurinos, dos sotaques à pontuação no título. Em inglês, a obra se chama "Wuthering Heights", com aspas, para enfatizar que se trata da interpretação particular de Fennell, e não de uma transposição literal. O filme é o "bait" do momento; tornou-se hype odiá-lo antes mesmo da estreia.

  ​O fato é que a diretora atraiu muitos haters, mas fica a dúvida: por que Fennell não poderia apresentar sua própria visão extravagante e sensual do clássico? Essas implicâncias levantam questões relevantes ou apenas ignoram uma nova leitura para contemplação? Fennell produz uma obra que ousa mostrar que o estilo pode ser tão vital quanto a "qualidade" técnica tradicional. Com uma estética visual de encher os olhos, este O Morro dos Ventos Uivantes é um blockbuster americano comum. Nele, a paleta de cores vibrante é tão central quanto as reviravoltas da trama embaladas por uma trilha pop moderna assinada por Charli XCX. Nada chega a ser memorável, Margot Robbie e Jacob Elordi assumem os papéis dos icônicos protagonistas, Cathy e Heathcliff.

​  O cerne do romance narra a intensa e destrutiva paixão entre Heathcliff, um órfão adotado, e Catherine Earnshaw. Marcada por obsessão, preconceito de classe e vingança, a história acompanha como a separação dos dois leva a uma espiral de tragédias familiares. Talvez a principal razão para toda essa irritação antecipada com essa obra seja simples: quem ama o romance de Brontë, o ama com obsessão. Para muitos, o contato com a obra ocorre na adolescência, o que gera uma conexão emocional profunda. Considerando essa devoção, era inevitável que qualquer afastamento do texto original fosse interpretado como um ataque pessoal. Boa parte do enredo permanece lá, mas filtrada pela visão singular de Fennell, que prefere focar na toxicidade da relação entre o casal e em como ela corrói quem está ao redor.

​   Tudo em " O Morro dos Ventos Uivantes" é grandioso: a fotografia, o design de produção e as atuações constroem uma atmosfera densa. Cathy e Heathcliff orbitam entre o desejo e o desprezo, e a diretora compreende a dor desse relacionamento. O filme soa como um falso clássico instantâneo: dark, esteticamente impecável e profundamente divisivo. Ou você o ama porque é uma releitura descolada da obra literária, ou o odeia com todas as forças porque não é fiel aos padrões do livro— exatamente como o público já fazia antes mesmo da estreia. Meu conselho é relaxar e curtir a experiência  entregue no filme de forma independente da obra literária.

⭐️⭐️⭐️ BOM



sábado, 7 de fevereiro de 2026

SOCORRO! (2026) "Send Help" de Sam Raimi


 Um thriller de sobrevivência insano! 

​  Socorro! (2026) marca o retorno do celebrado diretor Sam Raimi ao gênero que o consagrou: o terror de franquias como Evil Dead ("A Morte do Demônio") e o visceral "Arraste-me para o Inferno". Raimi é especialista em instaurar o caos em poucos segundos. Particularmente, considero Doutor Estranho no Multiverso da Loucura um dos meus favoritos da Marvel justamente por sua assinatura, nesse novo filme ele está mais contido, restringindo o horror a cenas de pesadelo e lampejos de brutalidade. O sangue corre solto, mas o foco principal é a relação corporativa tóxica entre os protagonistas. Aproveitando a inclinação do diretor para o "caos diabólico", o longa gerou hype por equilibrar uma aventura fantástica com roteiro inteligente e atuações brilhantes de Rachel McAdams e Dylan O'Brien

​   McAdams interpreta Linda Liddle, uma estrategista financeira brilhante, porém socialmente desajeitada, que aguarda a promoção prometida pelo antigo CEO da empresa. No entanto, quando o filho do executivo, Bradley (Dylan O'Brien), assume o comando, ele entrega o cargo a um de seus amigos de golfe. Ainda assim, Bradley precisa do intelecto dela para um grande negócio e a convoca para uma viagem de jato até Bangkok, o jato cai no Golfo da Tailândia. Linda desperta em uma ilha deserta e encontra Bradley ferido. Sem outros sobreviventes, os dois precisam superar as diferenças e sobreviver aos perigos reais do isolamento, como em um macabro jogo de sobrevivência.

​  Linda Liddle é uma personagem instantaneamente icônica — e o espectador logo aprende a não confundir sua bondade com fraqueza. Em uma noite de embriaguez ao redor da fogueira, segredos sombrios vêm à tona, revelando traumas que explicam a capacidade de ambos para a atrocidade. O filme expõe o que há de pior no ser humano quando a civilidade é removida. Raimi, que no passado transformou Ash (Bruce Campbell) em um símbolo do terror apocalíptico, encontra em Linda Liddle uma sucessora à altura.

  Um thriller de sobrevivência insano, que equilibra perfeitamente o suspense e o humor ácido. 

​⭐️⭐️⭐⭐️ MUITO BOM


#socorro #sendhelp #samraimi #cinema #terror

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O PRIMATA (2026) "Primate" de "Johannes Roberts"


 Suspense tenso e violento. 🙉🙊🙈

​   Com uma profusão de violência gráfica, O Primata entrega um slasher emocionante e visceral. O terror animal — ou "creature feature" — é um subgênero que utiliza predadores reais, mutantes ou monstros pré-históricos para escancarar a fragilidade humana perante a força bruta da natureza. Enquanto clássicos como Tubarão, Pânico no Lago e Anaconda exploram o medo em habitat selvagem, O Primata eleva ao absurdo ao transformar a premissa de um chimpanzé raivoso dizimando um retiro familiar. O mero "prazer culposo" em ver esse massacre não é tarefa fácil, mas o diretor Johannes Roberts (Medo Profundo) o faz com engenhosidade surpreendente. 

  ​O filme abraça uma abordagem deliberadamente sangrenta e cheia de hype, combinando tensão sufocante, humor negro e um respeito evidente pelas convenções do gênero, lembra os filmes que passavam no clássico Cine Trash da Band na década de 90, até a trilha sonora ajuda nesse sentimento nostálgico. 

   Desde o início, Roberts nos lança de cabeça em um universo onde o chimpanzé Ben — interpretado com uma mistura magnética de carisma em ameaça por Miguel Torres Umba — torna-se a personificação animal do vilão clássico. A escolha fundamental por efeitos práticos em vez de CGI confere um toque nostálgico aos anos 80 e 90, garantindo à criatura uma presença física palpável que torna o perigo muito mais real do que qualquer artifício digital. 

​  O Primata equilibra o grotesco e o aterrorizante com autoconsciência. Não há pretensão de profundidade filosófica; o objetivo é o entretenimento visceral que celebra o excesso. Cada morte engenhosamente concebida busca extrair não apenas o grito, mas a risada nervosa do espectador. Sem tentar reinventar a roda, o longa se desenrola em um ritmo alucinante — uma montanha-russa brutal, original e banhada em sangue. 

​⭐️⭐️⭐️ MUITO BOM


#oprimata #primate #monkey #terror #cinema

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

(DES)CONTROLE (2026) de "Rosana Svartman" e "Carol Minêm"


 Entre o riso e o desespero!

  ​O longa, encabeçado por uma atuação visceral de Carolina Dieckmann, mergulha no delicado tema do alcoolismo e em suas nuances — das mais discretas às mais extremas. Se a sutileza marca o início da jornada, as diretoras Rosana Svartman (Pluft, o Fantasminha) e Carol Minêm enfrentam com maestria o desafio de equilibrar a comédia com um tema sério, prestando um serviço social relevante. O roteiro, assinado por Felipe Sholl (Minha Mãe é uma Peça) e Iafa Britz, entrega emoções fortes sem cair no melodrama barato, apoiado por um elenco que foge da caricatura. O filme se destaca como um exemplar de comédia brasileira carismática, profunda e, com certeza, "hype".

​  “(Des)controle” acompanha a história de Kátia Klein (Dieckmann), uma escritora bem-sucedida e mãe dedicada que vê seu mundo ruir diante de um bloqueio criativo e um casamento em crise. Enquanto tenta administrar as demandas dos dois filhos e dos pais, Kátia busca alívio no álcool. O que começa com uma simples taça de vinho evolui para o descontrole total, reativando sua dependência. O longa retrata com crueza o impacto da doença na dinâmica familiar e a importância vital de uma rede de apoio enquanto o indivíduo tenta, desesperadamente, preservar seus afetos e conquistas.

  ​Além de Dieckmann, o elenco reúne nomes de peso: Irene Ravache e Daniel Filho interpretam os pais da protagonista; Caco Ciocler vive o ex-marido; e Júlia Rabello encarna a melhor amiga e agente. Stefano Agostini e Rafael Fuchs Müller completam o núcleo como os filhos de Kátia. Todos ganham espaço narrativo, reforçando o papel crucial de quem cerca o dependente.

​  Inspirado em histórias reais, o filme deixa um alerta claro: o alívio rápido e aparentemente inofensivo do álcool pode ser o início de uma queda livre. Mesmo após anos de sobriedade, uma única taça pode colocar tudo a perder. A humanidade da protagonista, revelada em camadas de profundidade e dramas interpessoais, é o ponto alto da obra — uma narrativa regada a pitadas de humor que discute o alcoolismo mostrando a vida exatamente como ela é.  

⭐️⭐️⭐️ BOM


#descontrole #carolinadieckmann #rosanesvartman #cinemabrasileiro #cinema

O SOM DA MORTE (2026) "Whistle" de Corin Hardy


 Simples, eficaz, assustador e divertido. 

​  O Som da Morte é um ótimo exemplar de terror colegial que expande os limites do gênero sem perder sua essência. Há algo reconfortante nesse subgênero, tradicionalmente repleto de clichês que se prestam à autoparódia. O diretor inglês Corin Hardy (A Freira) consegue elevar o tema já batido com estilo próprio, tratando o material com seriedade e um toque único de direção. O cenário estudantil foi levemente atualizado para o público atual com uma excelente trilha sonora, mas ainda mantém um ar atemporal, remetendo a uma era anterior do terror. Talvez seja por isso que o filme seja hype, é quase uma viagem no tempo à "era de ouro" do terror teen, que nos deu franquias icônicas como Pânico. 
​  
  A história gira em torno de um grupo de estudantes desajustados que, sem saber do perigo, encontra um objeto amaldiçoado: um antigo apito da morte asteca. Eles descobrem que soprar o instrumento invoca o som aterrorizante de suas mortes futuras, que passam a persegui-los. Em qualquer terror colegial, é imprescindível que o elenco jovem seja cativante e convincente, especialmente quando seus dias se transformam em pesadelos. Felizmente, as atuações são um dos pontos fortes aqui. Dafne Keen (Logan) e Sophie Nélisse (Yellowjackets), ambas estrelas em ascensão, formam uma dupla adorável, lidando com naturalidade tanto com o romance queer em desenvolvimento quanto com a maldição implacável. 
 O grupo é lançado em sequências sangrentas, cada uma mais emocionante que a anterior, enquanto tenta quebrar o feitiço por todos os meios possíveis. As mortes únicas e grotescas são o destaque, com cada uma recebendo (merecidamente) sua própria homenagem nos créditos finais. Inclusive, a cena pós-créditos é importante — fiquem até o fim. 
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  O Som da Morte é bem filmado, bem editado e genuinamente assustador. Mas talvez o aspecto mais perturbador seja a lógica do roteiro: o apito não tem senso de justiça ou moralidade. Simplesmente, se você ouvir seu grito estridente, você morre. A construção da mitologia nunca se quebra, permitindo que a experiência seja envolvente e catártica. Nasce uma franquia? Tomara! 

⭐️⭐️⭐️ BOM


#osomdamorte #whistle

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

A NATUREZA DAS COISAS INVISÍVEIS (2025) de "Rafaela Camelo"


 Um olhar belo sobre as coisas invisíveis.

​  A Natureza das Coisas Invisíveis se apresenta como um conto sensível sobre a impermanência da vida e sua relação com a morte. Abordando temas como identidade de gênero, maternidade solo e espiritualidade de maneira original e particularmente bela, o filme conduz o espectador através de uma amizade de infância. A primeira parte da trama se desenrola dentro de um hospital — um espaço fechado e clínico — mas, quando a história se desloca para uma aldeia, a narrativa torna-se mais coletiva e espiritual. A obra explora o luto sob a perspectiva de duas meninas que se aproximam após um encontro casual. A delicadeza da história transborda na tela, fazendo com que a expectativa (hype) em torno do filme seja inteiramente condizente com a beleza da obra.

  ​​O filme explora constantemente a finitude. A narrativa aborda a morte como um passo anterior ao renascimento: a transformação daquilo que desaparece para continuar vivendo de uma forma distinta. Esse conceito reflete-se nas duas protagonistas. A diretora, Rafaela Camelo, introduz elementos de realismo mágico ligados à Glória, enquanto Sofia vive sua própria transformação através da identidade de gênero. Quando moradores da vila perguntam por Bento, filho de Simone, ela responde que ele "está morto" — uma metáfora para a transição da filha.

​  As crianças têm uma percepção apurada das nuances, daquelas "coisas invisíveis" que emergem entre palavras, gestos e olhares. O filme nos lembra que, por mais que tentemos blindar os pequenos dos temas difíceis, eles captam tudo, questionam e, com sorte, nos confrontam com perguntas específicas.

  A Natureza das Coisas Invisíveis é uma obra profundamente feminina, onde os homens ocupam papéis secundários. Para Glória, Sofia, Antônia e Simone, o ciclo de morte e renascimento assume diferentes formas e realidades. É um retrato de notável sensibilidade e tom surpreendentemente lúdico. Uma linda história para se assistir.

⭐️⭐️⭐️⭐️ ÓTIMO 


#anaturezadascoisasinvisíveis #netflix #thenatureofinvisiblethings #cinemabrasileiro #vitrinipetrobras

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

APOCALIPSE NOS TRÓPICOS (2025) de "Petra Costa"

 


Uma tese sobre a realidade política brasileira!

  Quando termina uma democracia e começa uma teocracia? Tal questionamento é a base de "Apocalipse nos Trópicos", da documentarista Petra Costa, que investiga a crescente influência de líderes religiosos sobre a política brasileira. Costa obteve acesso privilegiado a figuras centrais do país, incluindo o presidente Lula e o ex-presidente Bolsonaro, bem como ao televangelista Silas Malafaia — um pastor carismático que parece manobrar as peças do tabuleiro a seu favor. O filme revela o papel fundamental do movimento evangélico na recente turbulência política nacional e expõe a teologia apocalíptica que impulsiona seus principais protagonistas.

  ​Petra Costa é uma cineasta que sabe envolver seus personagens. Assim como em seu filme indicado ao Oscar, Democracia em Vertigem, ela documenta um período de profunda confusão e desespero com lucidez e olhar poético. Ao entrelaçar passado e presente, a diretora nos imerge nas realidades contraditórias de uma jovem democracia que se mantém por um fio, apresentando um espelho para o resto do mundo.

  O documentário analisa a expansão evangélica na população brasileira e seus efeitos na política. A obra pode ser sintetizada em dois depoimentos: o de Silas Malafaia, que define a democracia como o "governo da maioria" (sugerindo que ignorará as minorias nesse sistema), e o de Lula, que reconhece que a esquerda e a Igreja Católica falharam onde os evangélicos acertaram.

  A qualidade técnica e a edição são inegáveis, servindo de suporte para que a diretora apresente sua tese gradualmente. É um excelente trabalho, embora, naturalmente, muitos detalhes tenham ficado de fora; a edição foca em "resumir" o complexo cenário brasileiro para o mercado internacional.

  Apocalipse nos Trópicos é uma obra-prima que mescla antropologia, filosofia, política e economia. Um filme que questiona como, mesmo sendo resiliente, uma democracia pode ser desafiada pela manipulação narrativa massiva e pelo poder financeiro, tanto no mundo físico quanto no digital.

​🌟🌟🌟🌟 ÓTIMO 


#apocalipsenostrópicos #apocalypseinthetropics

#petracosta #brasil #política #documentary #documentario #bafta #doc #politic

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A VOZ DE HIND RAJAB (2025) de "Kaother Bem Hania"


 ​O cinema emocionalmente minimalista!

​  É difícil lançar um olhar crítico sobre algo tão devastador e inegavelmente real como A Voz de Hind Rajab. Trata-se de um docudrama único e oportuno que mescla gravações de áudio reais com a dramatização de eventos verídicos. Ao incorporar elementos tão difíceis de presenciar quanto impossíveis de esquecer, o filme possui um impacto poderoso pela história, comovendo e fazendo um apelo à humanidade, embora possa soar um pouco massante em seu formato narrativo.

​  Em janeiro de 2024, voluntários do Crescente Vermelho receberam um telefonema de emergência de uma jovem palestina em Gaza. Presa em seu carro, sob o som de tiros, ela implorava por socorro. Não é spoiler — visto que uma legenda no início do filme apresenta os fatos — dizer que os esforços foram, em última análise, em vão. O filme consiste nisso: ouvir, em detalhes, os últimos momentos desesperados de uma menina de cinco anos.

​  Trechos da voz pequena e aterrorizada de Rajab viralizaram logo após sua morte, tornando-se uma história entre inúmeras outras no contexto do conflito em Gaza. A cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania (indicada ao Oscar por O Homem Que Vendeu a Sua Pele) teve a sensatez de não dramatizar a própria Rajab, adotando uma abordagem minimalista. O filme se passa inteiramente nos escritórios do Crescente Vermelho na Cisjordânia, focando nos operadores que consolam a menina enquanto lutam contra a burocracia e o tempo.

  ​Em termos de tom, os cineastas consideram — com razão — que a sutileza não é um recurso necessário para esta narrativa. Não é uma obra tranquila ou delicada; é angustiante. O esforço emocional exigido do espectador é imenso e nem todos terão estômago para suportá-lo, pois a dor é intensa mesmo através de uma linha telefônica.

​🌟🌟🌟 BOM


#avozdehindrajab #thevoiceofhindrajab #hindrajab #filme #cinema #estreia #oscar #bafta

SIRAT (2025) de "Oliver Laxe"


 Um choque pulsante! 

​  Sirat é um "road drama" de música eletrônica com uma estética desértica que se alinha ao discurso de nômades errantes cercados por um mundo exterior de eterno colapso. O contraste entre o escapismo da rave e a brutalidade do contexto geopolítico, torna-se um lembrete brutal de que a jornada pode ser mais importante que o destino. O filme merece o hype por ser um exercício de tensão que atinge o público como uma explosão ensurdecedora. O som é um personagem importante da história. 

  Um pai (Sergi López) e seu filho chegam a uma rave nas montanhas marroquinas. Eles procuram por Mar, filha e irmã, que desapareceu meses atrás em uma dessas festas intermináveis. Cercados por batidas eletrônicas e uma sensação crua de liberdade, eles distribuem a foto dela repetidamente. A esperança começa a esvair-se, mas ambos perseveram e seguem um grupo de ravers rumo a uma última festa no deserto. À medida que se aventuram na região selvagem e escaldante, a jornada os força a confrontar seus próprios limites. 

  A cultura da música eletrônica traz a este filme um paradoxo interessante: um grupo focado em dança, união e escapismo — com seus figurinos elaborados e a ética do "paz, amor, união e respeito" — contrasta com a solidão de quem busca refúgio em um mundo materialista e regido por guerras. A poética do deserto abre um espaço simbólico que questiona a memória e a condição humana sob a perspectiva subtextual da imigração. 

  Em Sirat (nome que remete à metáfora da jornada circular na imigração islâmica), tudo o que você imagina que vai acontecer, definitivamente não acontece. Esse é o ponto central e, talvez, o maior embate com o público. É uma experiência perturbadora que oscila entre a libertação e o luto, o céu e o inferno. Não traz respostas, mas propõe reflexões profundas. É o cinema visceral que se recusa a caminhar pelo óbvio. 

🌟🌟🌟🌟 MUITO BOM


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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

SONG SUNG BLUE - UM SONHO A DOIS (2025) de "Craig Brewer"

 

O filme musical de sempre! 

​  Sabe aquele filme biográfico musical que parece ser lançado todo ano, mudando apenas os protagonistas e o homenageado? Essa é basicamente a fórmula de Song Sung Blue. Envolto em clichês que geralmente garantem o público pelo apelo musical e atuações impecáveis, o longa toca todas as emoções, oferecendo uma experiência digna de "Sessão da Tarde". Além disso, é uma homenagem apropriada a Neil Diamond, um dos compositores mais amados da música moderna. Tem seu charme e encanta, mas acrescenta pouco ao gênero — o que torna coerente a recepção morna nos cinemas americanos. 

​  O filme narra a vida de Mike Sardina (Hugh Jackman), um veterano do Vietnã e alcoólatra em recuperação que fazia tributos a Neil Diamond. Ao lado de sua esposa Claire (Kate Hudson), ele formou a dupla "Thunder & Lightning" entre os anos 1990 e 2000. Naturais de Wisconsin — embora o filme tenha sido rodado em Nova Jersey —, ambos traziam filhas de casamentos anteriores. A dupla da vida real, tema de um documentário homônimo de 2008, teve um sucesso incomum para bandas cover, chegando a abrir shows para o Pearl Jam. Porém, o casal enfrentou sérias adversidades com a saúde de Mike. Além disso, o aspecto financeiro era uma luta constante. O filme apesar de simpático e bem produzido passa longe de ser o próximo "Nasce uma Estrela", ainda que Kate Hudson tenha um brilho interessante de se acompanhar. 

​  O primeiro e o terceiro atos seguem uma linha inspiradora sobre "azarões" talentosos, com Jackman entregando performances vocais emocionantes. Já o segundo ato é um desfile sombrio de sofrimentos. Embora haja o que gostar, o filme falha em equilibrar tons tão divergentes. Um exemplo é a estranha subtrama da gravidez na adolescência da filha de Mike (Ella Anderson), resolvida de forma cômica e simplista demais. 

​  Graças às atuações comoventes de Jackman e Hudson, além do apoio carismático de Jim Belushi, Song Sung Blue traz dignidade à arte da imitação e se consolida como uma história divertida sobre superação com aquela sensação que você já assistiu esse filme antes. 

​🌟🌟🌟 BOM

#songsungblue #hughjackman #katehudson #musical #hollywood #oscar #cinema #filme #estreia

domingo, 25 de janeiro de 2026

JUNTOS (2025) "Together" de "Michael Shanks"


 Bizarro e intrigante! 

  O body horror (horror corporal) sempre foi um subgênero peculiar, utilizado com maestria no passado por cineastas como David Cronenberg em "A Mosca" e "Videodrome" e também no clássico cult "A Sociedade dos Amigos do Diabo" (Society). Recentemente, produções como "A Substância" elevaram o nível de popularidade e a qualidade estética do gênero. Agora, o roteirista e diretor Michael Shanks estreia em longas-metragens com "Juntos", colocando um casal em crise em uma situação de pesadelo. A escolha metatextual de escalar Alison Brie e Dave Franco traz uma dose extra de autenticidade; em seus melhores momentos, o filme entrega um terror tão emocionalmente envolvente quanto memoravelmente grotesco, justificando o hype. 

  Após anos de relacionamento, Tim e Millie (Franco e Brie) encontram-se em uma encruzilhada ao mudarem para o campo, abandonando tudo o que lhes é familiar. Com a tensão à flor da pele, um encontro tenebroso com uma força sobrenatural ameaça corromper suas vidas, seu amor e sua própria carne. Repleto de química entre os protagonistas, "Juntos" funde o bizarro ao perturbador, criando uma alquimia que parece totalmente original. Os efeitos de maquiagem são impressionantes e entregam exatamente o que se espera de uma obra do tipo: são grotescos e viscerais. 

  Contudo, fica a sensação de que o choque é o objetivo principal, o que revela uma certa falta de substância na narrativa. O roteiro enfatiza a situação extrema dos personagens, mas falha em aprofundar o relacionamento a ponto de nos importarmos genuinamente com eles.

  No geral, a ideia central é envolvente e atinge o efeito desejado pelo diretor. Shanks criou um cenário terrível, amparado por efeitos verossímeis e dois atores à altura do desafio. Embora o roteiro careça de profundidade, ele funciona dentro de sua proposta, sugerindo uma ideia com potencial ainda maior. 

  "Juntos" é horripilante e perturbador no melhor sentido do horror corporal, mas também se revela diabolicamente engraçado e perspicaz. 

🌟🌟🌟 MUITO BOM


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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

MORRA, AMOR (2025) "Die My Love" de "Lynne Ramsay"


 O Colapso como Sensação!

​ Uma representação frenética de uma experiência comum, mas frequentemente ignorada: o colapso mental como um evento sensorial. O calor emanando da grama, o latido incessante de um cachorro indesejado, os sons úmidos do sexo na floresta. Não há linguagem clínica aqui; embora "Morra, Amor" possa parecer rebuscado demais para gerar uma conexão imediata com todos, presenteia Jennifer Lawrence com um de seus papéis mais marcantes. O hype do filme se justifica por não camuflar a essência gráfica de quando o bem-estar parece uma fantasia e ninguém percebe que você está sangrando.

​  A diretora Lynne Ramsay não se preocupa com explicações. Ela se concentra em texturas, ritmos e na maneira como a luz incide sobre uma janela enquanto um casamento se desfaz. O filme aposta nessa abordagem estética, o que se torna tanto seu maior trunfo quanto seu eventual obstáculo: por vezes, a narrativa parece não alcançar a força de suas imagens elusivas e perturbadoras.

​  A trama acompanha Grace (Jennifer Lawrence) e Jackson (Robert Pattinson) em sua mudança de Nova York para uma casa em Montana, herdada do tio dele. Grace dá à luz. Jackson viaja a trabalho. O casamento desmorona. Mas descrever a obra dessa forma soa redutivo — seria como tentar explicar um ataque de pânico apenas listando seus sintomas.

  ​O roteiro nunca nomeia o que acontece com Grace. Depressão pós-parto? Psicose? Transtorno depressivo sobreposto a um trauma de infância? Ramsay sugere todas as opções sem confirmar nenhuma. Essa recusa em diagnosticar parece deliberada, quase agressiva.

  "Morra, Amor" é um filme difícil, às vezes frustrante e ocasionalmente exagerado. No entanto, é surpreendentemente honesto sobre como o isolamento, a negligência emocional e uma condição mental não diagnosticada podem culminar em algo catastrófico. Ramsay criou uma obra que submerge o público na mesma confusão que consome a protagonista. Nós a vemos desmoronar e, assim como aqueles que a cercam, somos impotentes para impedi-la.

🌟🌟🌟🌟 IMPACTANTE


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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

A ÚNICA SAÍDA (2025) de "Park Chan-Wook"


 Uma sátira mordaz e sombria do capitalismo 

​  Quando um homem é abruptamente demitido da fábrica de papel onde trabalhou incansavelmente por anos, sua busca por emprego torna-se cada vez mais desesperada. O lendário cineasta coreano Park Chan-Wook — mestre em transitar com elegância entre o sombrio, o absurdo, o devastador e o pastelão — não decepciona em seu décimo longa-metragem. O aclamado e hypado A Única Saída é uma obra-prima satírica e hilária sobre o que significa tentar sobreviver ao atual pesadelo capitalista. Dirigido com precisão impecável, o filme é uma crítica sagaz à corrida corporativa desenfreada. 

  A obra encontra força na atuação habilmente desastrada de Lee Byung-hun, que interpreta Man-su. Relutante em aceitar um trabalho braçal, Man-su luta por uma vaga de prestígio, submetendo-se a humilhações diante de executivos do setor. Ao observar com inveja um influenciador do ramo nas redes sociais, ele tem uma ideia sinistra: por que não descobrir quem são seus concorrentes para as melhores vagas e eliminá-los? ​Ele publica um anúncio em uma revista especializada e aguarda as candidaturas. 

  Uma jornada que começa cômica e termina em puro horror à medida que ele se dedica à sua nova "vocação". Embora Man-su sorria quase o tempo todo, o semblante de Lee nunca alcança os olhos, que permanecem travados em uma expressão de agonia. O diretor não hesita em fazer de Mi-ri (esposa de Man-su) uma mulher forte e assertiva, com autonomia e desejos próprios; sua sensibilidade é o contraponto perfeito para a busca mortal do marido. Se ao menos ele a tivesse escutado. 

  Deliciosamente sombrio e com um humor afiado, este mistério de Park Chan-wook não deixa outra opção ao espectador a não ser adorá-lo.

🌟🌟🌟🌟 MUITO BOM


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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O ÚLTIMO AZUL (2025) de "Gabriel Mascaro"


 A beleza e a tristeza de envelhecer!

​  O Último Azul é uma visão cinematográfica do Brasil do futuro, vividamente realizada pelo diretor Gabriel Mascaro, onde não há espaço para idosos na sociedade. Depois de encantar a crítica e vencer o Urso de Prata no Festival de Berlim em 2025, e de consolidar uma carreira vitoriosa nos cinemas, o filme chega à Netflix para conquistar um novo público. A narrativa inspiradora sobre uma mulher que se recusa a ver a idade como um teto serve como um alerta contundente sobre a marginalização da terceira idade. Denise Weinberg entrega uma atuação coesa e comovente como Teresa, justificando todo o hype em torno da obra.

​  No Brasil de Mascaro, o governo designa seus cidadãos idosos como “patrimônio vivo” e inicia protocolos legais para marginalizá-los. O paternalismo imposto sob o pretexto de proteção inclui aposentadoria forçada, transferência da guarda para parentes mais jovens e o eventual exílio em asilos. Essa premissa vai além de simplesmente catastrofizar o rumo do país; o filme diagnostica a doença, não apenas os sintomas, atacando um sistema de pensamento global. 

 O cenário representa um desfecho assustadoramente lógico da cultura da produtividade e da otimização, em que o Estado reduz cidadãos a meros agentes do mercado de trabalho. Nesse contexto, o cuidado com o idoso torna-se um fardo econômico que exige soluções baseadas na racionalidade técnica em detrimento da humanidade. ​É notável a quantidade de conteúdo que Mascaro condensa nos concisos 86 minutos de duração. Apesar da brevidade, a jornada errante de Tereza transmite profundidade e satisfação. 

  A história é um triunfo silencioso, reconhecendo que o melhor contrapeso à "mão invisível do mercado" é estender uma mão amiga aos sonhos daqueles que foram deixados para trás. Os prazeres e as possibilidades de O Último Azul parecem tão ilimitados quanto as esperanças de Tereza. Com compaixão, o diretor demonstra que um futuro que não acolhe o passado não é um futuro pelo qual valha a pena lutar. O reflexo ligeiramente distorcido do mundo real.

​🌟🌟🌟🌟 MUITO BOM


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domingo, 18 de janeiro de 2026

EXTERMÍNIO - O TEMPLO DOS OSSOS (2025) "28 Years Later - The Bone Temple" de "Nia DaCosta"


 Um filme de arte com zumbis!

  Extermínio: O Templo dos Ossos é o quarto longa da franquia e o segundo de uma nova trilogia nos cinemas. Este filme faz seu antecessor parecer um mero prólogo. Finalmente encontramos o "coração" que faltou na obra anterior, enquanto observamos humanos (e infectados) se massacrando para satisfazer suas necessidades mais básicas. É como se a aura punk e oitentista de Danny Boyle se transformasse, agora, em uma vertente intensa e agressiva de Metal. ​O hype é real? Sim. A talentosa diretora Nia DaCosta revive a série, elevando o nível de violência gráfica e aprofundando o terror com uma direção perturbadora, potencializada pelas performances inspiradas de Ralph Fiennes e Jack O'Connell.

  A trama começa quase imediatamente após o final do controverso filme anterior. Spike (Alfie Williams) é resgatado, apenas para se encontrar em uma situação ainda mais aterrorizante: a gangue que o salvou revela-se um grupo letal de crianças liderado por Jimmy Crystal (O’Connell). No mundo de O Templo dos Ossos, os infectados não são mais a única ameaça; a desumanidade dos sobreviventes consegue ser ainda mais estranha e apavorante.

  O grande destaque é Ralph Fiennes. O filme lhe dá a oportunidade não só de desenvolver seu personagem, mas de transcendê-lo. Seja em suas reflexões sombrias, em seus monólogos com um "amigo" zumbi ou duelando com Jimmy, finalmente vemos o valor desse papel. Fiennes protagoniza um momento tão grandioso e impactante que poderia facilmente distrair o público, mas ele se entrega de tal forma que o transforma em um momento épico de "astro do rock", lembrando-nos de que esta franquia pode ser visceral quando quer. A filmografia de Fiennes é repleta de marcos, e este certamente é mais um deles.

  Felizmente para os fãs de terror, O Templo dos Ossos é tão sólido que nos deixa ansiosos — e quase obrigados — a acompanhar o desfecho desta nova trilogia.

🌟🌟🌟🌟 MUITO BOM


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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

BUGONIA (2025) de "Yorgos Lanthimos"


 Insanidade Cinematográfica!

​  Se existe um diretor que, sem dúvidas, dispensa a terapia, este é Yorgos Lanthimos. Sua filmografia é tão peculiar e instigante que, mesmo quando a mensagem é direta, o resultado é um entretenimento alucinante, sagaz e audacioso. É o caso de Bugonia, sua mais nova investida. Nela, o realizador escala novamente dois artistas no auge de suas carreiras — Emma Stone e Jesse Plemons — para entregar uma obra repleta de elementos das aventuras modernas; uma verdadeira ode à loucura da sociedade contemporânea. Bugonia é hype? Com certeza.

​  Teddy (Jesse Plemons) é o retrato nervoso, superficialmente simpático e, por isso mesmo, cruel de um populista antiglobalista — carregando as conotações antissemitas inerentes ao tipo. Michelle (Emma Stone), por sua vez, personifica a elite corporativa egocêntrica e desdenhosa de forma tensa e igualmente implacável. Lanthimos coloca esses dois arquétipos frente a frente e, com um prazer quase sádico, os lança em uma competição para decidir quem é o mais detestável. Enquanto Teddy submete Michelle a terríveis sessões de eletrochoque divagando sobre invasões alienígenas, ela, ao assumir o controle, vomita um ódio neoliberal ácido, reafirmando que ele sempre será um "perdedor" e ela, a eterna "vencedora".

​  A única alternativa ao vazio ensurdecedor de Teddy ou ao abismo gélido de Michelle é Don (Aldan Deblis), primo de Teddy. Don, que parece estar dentro do espectro autista ou possuir alguma deficiência intelectual, é o único que demonstra preocupação real. Perturbado pela brutalidade do primo, ele tenta convencê-lo a parar ou, em um ato desesperado, tenta interromper a tortura arrancando os aparelhos. Infelizmente, as consequências são duras para todos — afinal, este é o universo de um gênio misantropo do cinema.

  Apesar de toda a ironia e do absurdo, a mensagem de Lanthimos incomoda não por ser insensível, mas por ser desconfortavelmente sincera. Ele nos lembra de que não existem alienígenas para nos destruir ou salvar. O destino das abelhas — e o da humanidade — está em nossas próprias mãos, seja para o bem ou, como o filme sugere, para o mal.

​🌟🌟🌟🌟 MUITO BOM


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ATO NOTURNO (2025) de "Marcio Reolon" e "Filipe Matzembacher"


 Sexy, elegante e fatal. 

  Ato Noturno, thriller erótico gay dirigido por Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, possui um ritmo crescente, melancólico e repleto de apreensão. O ótimo elenco é elevado por uma cinematografia sombria e uma trilha sonora marcante. O filme é visualmente deslumbrante com as incursões noturnas de Matias e Rafael. O filme é "hype"? Sim, pois entrelaça fetiche, influência e autoridade de maneira literal em um cinema de urgência. 

  Gabriel Faryas assume o papel de Matias, um jovem e ambicioso ator que exala confiança e anseia pelos holofotes. Em suas andanças, Matias conhece um homem discreto com quem compartilha uma noite intensa. Contudo, torna-se evidente que Rafael (Cirillo Luna) tem muito a perder: ele está prestes a se tornar uma figura política poderosa. Ambos descobrem um fetiche mútuo pela adrenalina de serem flagrados em locais públicos. À medida que suas carreiras decolam, esse jogo perverso torna-se cada vez mais perigoso. 

  A obra envolve a tela em uma paisagem noturna peculiar, que oferece libertação das restrições do dia. A temática do cruising — no Brasil carinhosamente apelidado de "pegação" — não é novidade no cinema, tendo rendido obras incríveis como o clássico Parceiros da Noite (anos 80), o emblemático português O Fantasma e o inesquecível francês Um Estranho no Lago. No cenário nacional, o tema já foi explorado pelo brasiliense Floresta dos Sussurros, de Thiago Cazado, e pelo goiano Vento Seco, de Daniel Nolasco.

  Embora o cruising ocorra comumente em contextos de anonimato em locais públicos (parques, banheiros, bares), no filme, cada novo encontro ameaça o status social dos personagens — e é exatamente esse risco que os mantém unidos. 

  Ato Noturno proporciona uma experiência sensorial específica sem cair na armadilha da sexualidade performática; há sutileza e um suspense devastador. O horror contido na obra não reside apenas em sua eficiência clínica como thriller, mas no lembrete brutal de que a tentativa de reconciliar o desejo com as normas vigentes pode gerar ressentimento, confusão e violência. 

🌟🌟🌟🌟 MUITO BOM


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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

MANAS (2025) de "Marianna Brennand"

 

Comovente e revoltante! 

​  O filme retrata uma comunidade amazônica de maneira realista e autêntica. Manas aborda temas densos vividos sob a perspectiva de uma criança. Embora a obra trate do abuso, este nunca é mostrado em tela e raramente é discutido de forma direta nos diálogos; no entanto, o tema pulsa de forma proeminente em toda a narrativa. É uma corrente subterrânea que começa como um desconforto sutil e se transforma em uma compreensão dolorosa. A dor é sentida pelo espectador, e a obra cresce à medida que ganhamos a certeza do que realmente está acontecendo. O Hype em torno do filme é legítimo e necessário. 

  Manas, de Marianna Brennand, é cru, intimista e destaca com sensibilidade a coragem de uma jovem presa em um ciclo de violência. A câmera, quase nervosa e de natureza claustrofóbica, confere ao filme intimidade e imediatismo. A urgência do assunto não intimida a realizadora a confrontar a engrenagem violenta que rege essa família e as mulheres da comunidade. O longa aborda a natureza do tabu diretamente, usando o olhar da protagonista para examinar uma estrutura rural assolada por ele. 

  Embora a garotinha não seja ingênua, sua aparente maturidade é atenuada pela dedicação de Brennand em garantir que o público nunca se esqueça de sua infância. Quando não está na escola ou ajudando a mãe, ela está brincando com a irmãzinha ou colorindo desenhos. À medida que sua empolgação em passar tempo com o pai diminui, sua vulnerabilidade permanece exposta. É uma representação dilacerante da perda da inocência, que encontra eco nas mulheres ao seu redor. 

  É um filme que não tem medo de ser ousado e chocante, comovente e revoltante na mesma medida. Manas enfatiza a importância de romper o silêncio e quebrar o ciclo, destacando a coragem necessária para fazê-lo através dos olhos de uma criança. 

🌟🌟🌟🌟 ÓTIMO


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SE EU TIVESSE PERNAS, EU TE CHUTARIA (2025) "If a Had Legs Id Kick You" de "Mary Bronstein"


 Rose Byrne em um caos explosivo!

  Imagine se o clássico Réquiem para um Sonho fosse focado na maternidade. É quase o que acontece em Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, um filme visceral que deixa o público em estado de choque ao promover uma imersão onírica no estresse parental e todo o seu impacto. Essa força estrondosa emana da atuação corajosa de Rose Byrne e da visão intransigente da diretora Mary Bronstein. O filme é hype? Com certeza.

  A trama mergulha na depressão pós-parto, acompanhando uma terapeuta que tenta conciliar a maternidade de uma filha com transtorno alimentar pediátrico (que depende de sonda) enquanto seu marido, capitão da Marinha, está ausente há meses. Tudo gira em torno do vazio. Bronstein demonstra um ótimo senso de humor e timing, comandando um elenco impecável — especialmente Byrne, que personifica a mulher exausta, cuja vida está em turbilhão, atormentada por dúvidas e culpa a cada segundo. Destaque também para os efeitos visuais e as sequências de alucinação, que elevam a experiência sensorial.

  A narrativa funciona praticamente como um monólogo de decisões desesperadas que apenas agravam o cenário. Frustrada, angustiada e indignada, a protagonista recorre à desonestidade, mas engana apenas a si mesma ao negar constantemente a gravidade de suas emoções e do contexto em que vive.

  Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é mais um exemplar potente do cinema dirigido por mulheres sobre mulheres à beira de um colapso. É engraçado, mas dói; é real e estressante na mesma medida.

🌟🌟🌟🌟 MUITO BOM


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