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quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

SOBRE A ETERNIDADE (2019) ou "Da Eternidade" ou "Om det oändliga" de "Roy Andersson"

 


SOBRE O INFINITO ⏳ O cineasta Roy Andersson entrega reflexões humanas do que somos e fazemos para continuar aqui em uma sátira que reflete um pedaço de cada um de nós, por inteiro. O filme tem sempre metade da tela nublada e cores opacas, sem definição dos cenários pra parecer mais importante o que acontece dentro de cada situação. A psicologia analítica de Carl Jung,  preenche algo que sempre fez parte dos questionamentos humanos sobre o inconsciente coletivo, presente nessa obra. Agradecer pela vida, lutar pra continuar aqui e não ir além do que a fantasia nos permite pra nos confortar de que não teremos mais esses sentimentos e sensações que nos proporcionam a sentir algo. O religioso e seu questionamento por perder a fé, o jovem que encontra o amor pela primeira vez, um rapaz tocando instrumento no metrô pra não lembrar da dor de saber que uma mina arrancou suas pernas, a sensação reconfortante de escutar música, jovens dançando, o início da vida com a celebração de ser criança, termodinâmica, o casal apaixonado sobrevoando a cidade em ruínas, a queda de um ditador, a indecisão e a incompreensão numa briga em local público, a chuva forte e o sacrifício do pai ajudando sua filha, feminicidio e a honra da família questionada pelo arrependimento. Esses esboços permitem ao espectador ir além do proposto pra continuar o desenvolvimento de cada história. Todas as sensações que nos mantém vivos, seja pelo amor, solidão ou crueldade, são de alguma forma elevadas ao máximo pelo diretor. O filme tem quase um desenvolvimento hermenêutico para interpretá-lo, passeando pela filosofia de Martin Heidegger, onde discursa sobre nosso existencialismo. É forte e enumerado para esboçar como vivemos cada um à sua maneira. Uma obra prima que deve ser conhecida por quem realmente ama cinema e uma das maiores injustiças do mercado de exibidores do Brasil, não  lançando o filme para o público em geral mesmo após 2 anos do lançamento na Europa! 
 
👀 Não lançado no Brasil até o momento! Exibido em festivais! 
(Lançado no país de origem em 2019) 
 
🏅 BEST OF 2021 (Menção Honrosa)




quinta-feira, 18 de março de 2021

TBT: GHOST WORLD (2001) de "Terry Zwigoff

       
       Nosso TBT de hoje aproveita os quase 20 anos para relembrar um filme indie atemporal sobre jovens perdidos em sua própria vida. Em uma era de overdose de comédias adolescentes como American Pie, Ghost World (no Brasil ganhou o subtítulo: Aprendendo a Viver e Mundo Cão) foi um alívio e um antídoto contra a mesmice desse tipo de produção. Baseado em uma história em quadrinhos, o filme colegial se tornou um clássico cult e tem um legado duradouro de influências de realizadores atuais. O filme envolvia uma obra muito conceitual do criador de quadrinhos Daniel Clowes que mirou no deserto cultural da América moderna. Ele criou um novo tipo de heroína: imparcial, autodestrutiva e comprometida com a linha cáustica, independentemente do custo. O criador nunca imaginou que o HQ pudesse ser transformado em um filme. Era um minúsculo mundo dos quadrinhos de pequena imprensa e não uma parte do mundo em que Hollywood conhecesse ou se interessava.


      O projeto aconteceu devido ao interesse de Terry Zwigoff, um documentarista que criou filmes bem recebidos sobre o músico de country-blues Louie Bluie e o cartunista Robert Crumb. Não poderia estar em melhores mãos ainda que era uma certa novidade esse tipo adaptação. Clowes e Zwigoff expandiram os instantâneos existenciais dos quadrinhos na história agridoce do afastamento de Enid (Thora Birch, recém-saída do sucesso Beleza Americana) de sua melhor amiga mais convencional, Rebecca (Scarlett Johansson, em início de carreira e que logo depois ganharia destaque em Encontros e Desencontros de Sofia Coppola), sua crescente preocupação era com um idiota misantrópico, de meia-idade e obcecado por blues chamado Seymour (Steve Buscemi). A visão de mundo de Enid é tipificada por momentos icônicos, já na cena inicial ela se balança zombeteiramente com uma dança hipnotizante. Seus únicos momentos de libertação vêm através da música: dançar ao som de Mohammed Rafi, tingir o cabelo ao som dos Buzzcocks e ouvir country blues de Skip James repetidamente. Mas tudo que não a impressiona, ela destrói com ironia e desprezo a um mundo que ela odeia, não faz parte e não sabe como lidar. 


     Muitas pessoas se viam em Enid. Sempre há pessoas que estão fora da sociedade com um ponto de frustração agudo, comum naquela época de poucas distrações. O ano de 2001 ainda era uma época sem tecnologia, internet ou movimentos jovens que poderiam aliviar a dor de quem não se enquadrava no senso comum. Até hoje pode se dizer que é assim. Por baixo da enxurrada de piadas mordazes do filme surgia uma ressaca melancólica de como se inspirar em um tom libertador. Todo o arco da história mostra como, de uma forma triste, Enid não consegue nem mesmo manter um melhor amigo. A influência do filme foi sísmica, estourou em diversos festivais, foi parar até no Oscar, concorrendo em Roteiro. Os críticos amaram mas a sua atmosfera sempre foi alternativo e fora dos padrões, não sendo até mesmo conhecido pelo grande público. Ghost World foi um dos dois roteiros que Diablo Cody comprou cópias antes de escrever outro sucesso da época, Juno, e seu DNA pode ser visto em vários produtos da cultura pop atual também, como em Euphoria da HBO, Sex Education da Netflix entre outros. Visto hoje, Ghost World permanece totalmente novo, fresco e imperdível. 

O filme pode ser visto no You Tube no link abaixo!







quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

TBT - ORLANDO - A MULHER IMORTAL (1992) de "Sally Potter"



    Em 1992 a jovem e ainda meio desconhecida Tilda Swinton estrelava um obscuro e atraente filme baseado em um livro de Vírginia Wolf que até hoje possui elementos admiráveis. Virginia Woolf trata em Orlando a sexualidade de uma forma única: Orlando é imortal, portanto atravessa tempos, espaços e contextos variados durante a sua existência. Além da questão física, as fronteiras transcendentais avançam também no quesito gênero - Orlando é homem, é mulher, por isso suas vivências e percepções mudam de acordo com a sua experiência com determinado gênero. A adaptação cinematográfica é praticamente uma poesia sobre essa obra de Wolf. 


    Sem dúvidas um dos destaques da produção além do figurino que foi exaltado e bastante premiado na época de lançamento, é a marcante atuação de Tilda Swinton, atriz conhecida atualmente por estrelar tanto blockbusters quanto cultuadas obras independentes.  De sua estreia cinematográfica em Caravaggio (1986), passando por obras que lhe renderam prêmios internacionais (como Conduta de Risco, de 2007, quando conquistou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante), a filmes como Precisamos Falar Sobre o Kevin (2011), Amantes Eternos (2013), Suspiria – A Dança do Medo (2018) e até personagens coadjuvantes em filmes populares como As Crônicas de Nárnia (2005) e  Doutor Estranho (2016) da Marvel Studios. Uma atriz completa e um dos destaques dessa geração atual. Em Orlando, Tilda Swinton entrega sua habitual competência em um filme que discute, no início da década de 90 questões de gênero, imortalidade e a própria condição humana. Diferentemente de outras produções de época é um filme curto (1h30) que não perde tempo e se entrega ao poder da história peculiar de Vírginia Wolf, com intenso poder visual e uma entrega sensível, corajosa e poética. 


    Orlando é um personagem complexo, tímido, reflexivo, romântico, rico, possuidor de uma beleza rara e de uma generosidade que beira a ingenuidade. Ele sonha em ser poeta e dedica boa parte de sua vida à construção de seu entendimento sobre seus sentimentos e vontades. É uma história simples, basicamente sobre um personagem em busca da felicidade, do amor e por fim da sua verdade. Essa jornada é acompanhada no filme para mostrar a verdadeira essência da história, que é o desenvolvimento do personagem e um convite a refletir sobre o que realmente difere um homem de uma mulher, se são as roupas, as restrições sociais, a orientação sexual, a capacidade intelectual, a mente ou o corpo. Um filme belo que precisa muito ser descoberto pelas reflexões que ele causa e a experiência cinematográfica de alto nível. IMPERDÍVEL.


O filme está disponível no streaming do TelecineCom esse link você tem 30 dias grátis, vem: http://teleci.ne/MeuHype


quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

TBT - FANNY AND ALEXANDER (1982) - "Fanny och Alexander" de "Ingmar Bergman"


     Nosso TBT de hoje aproveita a época de Natal para relembrar um clássico de um dos cineastas mais influentes de nosso tempo. A produção é também um filme bastante pessoal para o diretor e baseia-se muito na infância infeliz dele com sua irmã Margareta e os muitos atritos com o rígido pai, um pastor luterano. Existem duas versões de Fanny e Alexander: uma mais curta de cerca de três horas (188 minutos), e uma longa, de mais de cinco horas (312 minutos). A versão menor foi lançada primeiro. A mais longa foi exibida como minissérie para a televisão. O filme foi bastante premiado na época de lançamento, dentre os principais prêmios venceu o Oscar nas categorias de melhor filme estrangeiro, melhor fotografia, melhor figurino e melhor direção de arte. Também venceu como melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro, Cesár e Veneza


     A história se passa durante os anos de 1907–09 (com epílogo em 1910), na cidade sueca de Uppsala. Após um alegre Natal na família Ekdahl, Oscar, o pai do casal de crianças Alexander e Fanny, passa mal quando representava o fantasma da peça de Hamlet e falece. Alexander começa a ter visões do pai falecido e sua mãe, Emilie, se casa com o bispo Edvard Vergérus, um religioso extremamente rígido. As crianças são obrigadas a deixar a casa da avó paterna, onde foram muito felizes, e passam a viver com a família do padrasto: a mãe, irmã, a tia enferma e as criadas, numa casa afastada e ascética. São despojadas de qualquer bem, inclusive livros e brinquedos e passam a sofrer com hábitos severos, sendo tratadas como prisioneiras. Alexander é imaginativo e conta uma história sobre ter visto os fantasmas da ex-esposa do Bispo e suas filhas, todas falecidas. Ele é severamente punido pelo padrasto durante a ausência da mãe e passa a fantasiar sobre a morte dele. A mãe também toma consciência da real personalidade do marido e de quanto os seus filhos sofrem naquela casa, assim planeja uma maneira de tirá-los daquele lugar e levá-los de volta à casa da avó. 


     O filme é uma obra de arte épica, uma reflexão poderosa com mensagens envolventes, arco dramático bem construído e de uma certa forma também meio místico. O bispo Edvard Vergérus deve ser um dos maiores vilões do cinema. A história  passa uma semelhança com os contos de Charles Dickens e tem espirito natalino. A produção possui um elenco grande e qualificado em uma primorosa fotografia, sem dúvidas a obra máxima de Bergman. Fanny & Alexander é um excelente filme para qualquer cinéfilo ou fã de boas histórias.

Clube do Hype (Opiniões sobre a obra)

Ingmar Bergman transmite a abrangência da infância na formação das pessoas, explorando traumas  e com uma atenção meticulosa aos detalhes. Destaque para a visão suntuosa da fragilidade humana em meio a hipocrisia das relações familiares. Uma obra-prima que mostra muitas das preocupações do diretor em transmitir sensibilidade em um épico familiar praticamente perfeito. Resenha: Meu Hype

Acho que Fanny & Alexander mostra a fragilidade da família em declínio e suas celebrações falsas pra mostrar que tudo vai bem para os subalternos que também vivem o caos do preconceito, humilhação e abismo. É  pesado, tem suas liberdades sexuais que a Suécia adora mas tem também a prisão do ser-humano. Esses loops do cotidiano. Resenha: Paulo Lana

O filme é bem complexo, no início tedioso, mas quando acontece passa que nem se sente, aborda vários temas, família, amor, submissão, relações das mais diversas, é rico em detalhes e a fotografia é linda... A crítica à religião faz todo o filme valer a pena, a verdade nunca está apenas de um lado só. É opressor e, me fez ter, ainda mais raiva de igreja e seus líderes. Resenha: Silas Lana

O filme começa com uma grande festa de natal com toda a família (inicio bem entediante). A trama realmente começa com a morte do pai das crianças, a mãe abalada, fragilizada, acaba se envolvendo com a primeira pessoa que vê, acaba envolvida pelo charme do Bispo, sem saber que era apenas uma fachada, igual a maiorias das religiões, por fora uma coisa e admirável mas por dentro podre, desde o início já se via que a relação entre o enteado e o padrasto não seria boa quando ele repreende as histórias contadas na escola. O casamento aconteceu, chega o dia da mudança da família para a casa do bispo, onde deixam a casa da avó, onde é cheio de vida, cores, alegria e onde eram amados, para uma casa onde é cheia  de regras, preta e branca e  fria. A mãe até tenta se impor, mas já era tarde demais. Com o  passar dos dias a empregada da casa se fazendo de amiga, oferece biscoitos para comprar a confiança das crianças e Alexander acabou criando uma história da antiga esposa do bispo, ela na mesma hora ela foi fazer a fofoca e sem a mãe por perto acabou sendo interrogado, fez um juramente diante da bíblia negando com muita convicção que não falou nada, foi colocado algumas opções de punição e friamente ele escolhe  uma vara para apanhar até assumir o que falou, desta forma o bispo condena a criança ao inferno por mentir sob o juramento, a família revoltada cria um plano para resgatar as crianças, elas foram levadas para uma loja de bonecos onde existe uma pessoa trancada, aparentemente perigosa, nessa parte eu fico um pouco confuso se o que acontece é real ou a imaginação. Em determinado momento Alexander se perde, termina encontrando essa pessoa perigosa, acaba que ela é a própria consciência da criança onde ela induz a pensamentos de morte ao bispo e simultaneamente o que é pensado acontece de fato. Todos voltam para a antiga casa e mesmo assim o Alexander continua sendo atormentado pelo Bispo. Filme muito envolvente. Resenha: Dionatan Medeiros.

 


O filme pode ser visto no streaming do Telecine.

O filme foi lançado em Edição Definitiva em Blu-ray no Brasil pela Versátil, um item obrigatório na coleção de um cinéfilo. 


quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Hype TBT - A GAROTA DA FÁBRICA DE CAIXAS DE FÓSFOROS (1990) - "The Match Factory Girl" de "Aki Kaurismack"


     Nosso TBT de hoje relembra um clássico brilhante e erudito do cineasta finlandês Aki Kaurismäki, a parte final de sua trilogia do proletariado, que completa 30 anos em 2020 e permanece bem lembrada entre os cinéfilos mais refinados. Depois de Sombras no Paraíso (1986) e Ariel (1988), Kaurismäki não poupa esforços em criar uma obra atemporal que sofre influências de diretores como Jean-Pierre Melville e com leve semelhança a obras de Fassbinder, contando com atuações moderadas e uma história cinematográfica porém simples e atraente, transmitindo uma mensagem brutal sobre o capitalismo, sem deixar de lado o peso sentimental.

      O retrato da vida dessas pessoas tem uma pitada banal e peculiar de humor, que conversa um pouco com o cinema realizado atualmente pelo diretor Jim Jarmusch, que já declarou admirar o diretor. A produção também conhecida internacionalmente como "The Match Factory Girl", se encaixa de forma bastante consistente naquele tema de mulheres culturalmente reprimidas enfrentando tempos difíceis, buscando algum tipo de alívio na indiferença casual  e crueldade de homens insensíveis e sem consideração. A mensagem "não-verbal" expressa por esses personagens em longos períodos de silêncio nos levam a um ambiente quase particular do reticente diretor Kaurismäki, com conclusões dolorosas e até meio embaraçosas. A cena inicial de uma família carrancuda assistindo ao noticiário em um silêncio implacável e indiferente enquanto a tv mostra a cobertura de um massacre e a explosão de um gasoduto que mata centenas de pessoas dá o tom melancólico das relações familiares modernas, muito presente na nossa sociedade atual e encarada como "normalidade", ele faz questão de ressaltar elegantemente, "a vida é uma merda, aguente essa tristeza", uma das várias mensagens silensiosas que nunca realmente deixam de transitar em sua obra.


     Este é um filme fundamentalmente frio e que fecha a saga do diretor em compartilhar um tema comum de luta financeira, com protagonistas da classe trabalhadora que se veem levados a medidas desesperadas após serem encurralados por circunstâncias adversas. Mantendo sua duração abreviada, a história do filme captura um trecho breve, mas crucial da vida de Iris (Kati Outinen), uma jovem condenada ao trabalho enfadonho em uma fábrica de fósforos, onde ela labuta horas a fio em uma variedade de tarefas servis, principalmente monitorando pequenos pacotes de fósforos enquanto passam por várias estações na linha de produção. A maior parte de seu tempo é passada em um isolamento silencioso, grande parte do filme é estritamente visual, com um mínimo de diálogo. (A cena inicial do processo de produção do fósforo tem uma incrível beleza). Alguns desses memoráveis momentos são dedicados a personagens olhando um para o outro, silenciosamente, sem engajamento verbal. Alguns dos sentimentos mais desamparados do filme nem são falados mas acompanhados pelas poucas expressões da situação enfrentada, não apenas por Iris, mas também pela multidão anônima da rotina industrial. Quando as falas são transmitidas, elas são curtas e devastadoramente contundentes. 

     O mundo de Iris, com sua família, seus colegas de trabalho ou com um grupo de estranhos em um bar, é um lugar frio, solitário e alienado. O diretor joga isso como uma provocação a essa vida urbana muitas vezes sem qualquer sentido ou propósito, a sensação é como se todos tivessem mais ou menos esgotados e a maioria das conversas são apenas um meio de reforçar as limitações sociais observadas principalmente por meio de um código rígido e implacável de silêncio inquestionável, mas que provoca angústia. São diversos os caminhos de reflexão nessa parábola da vida de Iris e do que pode acontecer quando alguém acorda de uma inércia produzida por uma sociedade cheia de manipulações vazias e cínicas sobre a felicidade. O reflexo brutal de nossa sociedade é apresentado em um filme amargo, frígido e irônico que precisa ser descoberto. OLHAR PRECIOSO.

O filme foi lançado no Brasil pela Lume Filmes.





quinta-feira, 9 de julho de 2020

TBT - AURORA (1927) - "Sunrise" de "F. W. Murnau"


  Nosso TBT de hoje relembra um clássico marcante do cinema. O filme ganhou o Oscar de melhor produção cinematográfica única e artística, prêmio nunca mais concedido novamente, uma espécie de consolação pelo segundo lugar na disputa pelo Oscar de melhor filme laureado a Asas em 1929. Aurora é considerado um dos mais importantes filmes da cinematografia mundial. Sem dúvidas, uma obra máxima do genial cineasta alemão F. W. Murnau, diretor dos memoráveis Nosferatu, Fausto e Tartufo. Além de ter vencido 3 oscars em 1929, em 1967 a conceituada revista francesa Cahiers du Cinéma escolheu o filme com a maior obra prima da história do cinema, em 1989 recebeu a classificação de significância histórica estética e cultural pela biblioteca do congresso dos Estados Unidos e foi selecionado para preservação pelo British Film Institute, uma pesquisa feita entre os críticos para este mesmo instituto considerou Aurora o 7º maior filme da história do cinema. Dentre os cineastas que o têm como seu filme favorito, estão John Ford, que o considerou "o maior filme já produzido, o cineasta francês François Truffaut, que o elegeu o "filme mais belo do mundo" e Martin Scorsese que classifica Aurora não como um filme, e sim como um "poema visual".




   Na historia, seduzido por uma moça da cidade, um fazendeiro tenta afogar sua mulher, mas desiste no último momento. Esta foge para a cidade, mas ele a segue para provar o seu amor. Seu roteiro foi adaptado a partir do conto Viagem a Tilsit, do escritor alemão Herrman Suderman, embora nele possam ser encontrados vários elementos do romance Uma história americana, de Theodore Dreiser, lançado dois anos antes e um sucesso comercial literário daquela época nos Estados Unidos. Sua influência se estende por um sem-número de filmes. A cena do beijo do casal que interrompe o trânsito foi copiada à exaustão, com muitas variações. Outra passagem marcante é a que ocorre na igreja, quando o casal, ao presenciar uma cerimônia de casamento alheia, recupera sua identidade matrimonial. Esse mesmo trecho existe em Assim caminha a humanidade, filme americano de 1956, dirigido por George Stevens. Seus efeitos especiais eram inovadores para a época, com imagens soprepostas, e o efeito Schüfftan, que emprega espelhos para inserir a imagem de atores em cenários em miniatura, ambos também utilizados no ano anterior por Fritz Lang em sua obra-prima Metrópolis, as técnicas abriram muitas possibilidades para o cinema mundial, permitindo a exploração de temas antes inalcançáveis. 




    Uma grande herança artística do filme são seus avançados movimentos de câmera. A sofisticada fluidez da sucessão de imagens cria uma inusual sensação de vastidão e profundidade. Filmes notáveis sofreram forte influência dessa técnica cinematográfica primorosa, como O Delator, rodado em 1935 por John Ford, e Cidadão Kane, filmado em 1941 por Orson Welles. Aurora foi a primeira grande produção cinematográfica com som ambiente sincronizado. Também foi o primeiro a ter trilha musical incorporada, composta por Hugo Riesenfeld. A bela atuação de Janet Gaynor (Nasce uma Estrela) rendeu a ela o Oscar de melhor atriz, Aurora é uma obra poética de grande beleza plástica, repleta de cenas inesquecíveis e pureza que fazem dessa obra admirável. PRECIOSO.



A Versátil Home Video lançou a produção no Brasil em DVD em versão restaurada e esgotada. Haverá um relançamento da obra em mídia física pela distribuidora, um item essencial na coleção de um cinéfilo.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Hype TBT - Asas (1927) de "William A. Whellman"


    Nosso TBT de hoje revisita um filme clássico que sem dúvidas marcou a história do cinema. Asas (Wings), o primeiro filme a vencer o Oscar na categoria de Melhor Filme no ano de 1929 dividindo o prêmio com Aurora. O filme teve versão restaurada em alta definição e lançada em 2012 em mídia física DVDBlu-ray, com a trilha sonora baseada na música original totalmente regravada e orquestrada, essa edição nos leva de volta no tempo para imaginar como era a vida, os pensamentos e como a simplicidade de uma história pode ser tão pura e ao mesmo tempo ser uma forte influência que ultrapassa gerações, na forma de contar uma história e comover sua plateia. 


     O filme em preto em branco e mudo pode ser um desafio para quem não é um admirador do cinema e de sua capacidade de encantamento, a história tem 2 horas e 24 minutos e foi filmada com poucos recursos, composta de limitações técnicas e pouca tecnologia, ainda assim a criatividade impressiona com emoção e simplicidade, que cativa e engrandece essa arte tão magnífica que é o cinema. O filme é ambientado durante a primeira Guerra Mundial e acompanha o sacrifício de dois homens, Jack Powell (Charles “Buddy” Rogers) e David Armstrong (Richard Arlen), dois vizinhos apaixonados pela mesma mulher, Mary (Clara Bow). Jack e David deixam as diferenças de lado quando são convocados para servir na força aérea americana. Uma série de eventos coloca os dois protagonistas em uma delicada situação de confronto em meio a histórica Batalha de Saint-Mihiel. O enredo não tem nada muito diferente de qualquer drama ou romance de guerra feito hoje em dia com o diferencial do fator histórico como charme. 


    O modelo adotado pelo filme até hoje é considerado "americanizado" demais e pouco universal, um modelo de melodrama bastante utilizado pelos principais estúdios nos anos seguintes. O governo americano usou o filme como propaganda militar (os alemães eram os vilões cruéis e os americanos apenas entraram na guerra para trazer a paz de volta no mundo, assim era vendido o filme aos recrutas americanos). Diante do patrocínio do governo americano o filme ganhou ares de superprodução com milhares de figurantes e efeitos especiais surpreendentes para a época. O foco quase total é nas atuações, quase teatrais da época, a produção e uma das poucas chances de ver Clara Bow atuando. 


    Sem uma tecnologia disponível para algo mais elaborado, muitos trechos da história são apenas narrados. O filme foi pioneiro em mostrar pela primeira vez uma cena de nudez no cinema e um beijo entre dois homens, com poucas controvérsias pelos conservadores da época. São quase 100 anos dessa obra-prima que ressalta o início do espírito americano pelo "Blockbuster", onde se cria um espetáculo de efeitos especiais e romantismo. Uma pena a obra ser um reflexo da obsessão  dos americanos pela guerra. Sem dúvida nenhuma um registro memorável, indispensável a qualquer cinéfilo que se preze. CLÁSSICO!



Disponível em DVD e Blu-ray




quinta-feira, 25 de junho de 2020

Hype TBT - O BEIJO DA MULHER ARANHA (1985).


    Nosso TBT de hoje aproveita o mês do orgulho LGBT+ para enaltecer um clássico bastante importante para o cinema brasileiro e que ainda precisa ser descoberto por essa nova geração de cinéfilos. O  Beijo da Mulher Aranha (Kiss of the Spider Woman) é dirigido por Hector Babenco e adaptado por Leonard Schrader através de um romance homônimo escrito por Manuel Puig. A história apresenta um "filme dentro de um filme", com o personagem Luis Molina  que episodicamente contando  o enredo de um fictício filme de ficção chamado "Her Real Glory" ("A Verdadeira Glória Dela" em português), onde brilha a estrela de Sônia Braga. A produção de 1985 tem mensagens importantes e uma trama envolvente.


     A trama conta a história do prisioneiro político de esquerda Valentín Arregui (Raul Juliae Luís Molina (Willian Hurt), um gay afeminado condenado por "corrupção de menor". Os dois dividem uma cela numa prisão brasileira durante a ditadura militar. Molina relembra, na prisão, um de seus filmes favoritos, um suspense romântico de guerra que também é uma propaganda nazista. Ele tece os personagens do filme numa narrativa que traz conforto a Arregui para distraí-lo da dura realidade da prisão e da separação de sua namorada Marta, a quem ele ainda ama. Arregui permite que Molina penetre sua autodefensiva intimidade e se abre para ele. Apesar de suas discussões sobre a política por trás do filme assistido por Molina, uma improvável amizade se desenvolve entre os dois prisioneiros.


     O filme foi um desafio para ser adaptado, além do tema homossexual ter sido encarado como um obstáculo para atrair um público amplo, havia também o medo da censura devido ao contexto político da ditadura presente no longa. Babenco, uma vez radicado no Brasil, temia uma reação xenofóbica contra a produção em virtude dos atores norte-americanos nos papéis principais e ser originalmente falado em inglês.  Foi um dos primeiros filmes brasileiros a tentar um formato  internacional para atrair visibilidade. Obstáculos adicionais à produção incluíram o antagonismo de Manuel Puig em relação a Babenco; o escritor não gostava de seu filme Pixote e suspeitava que o diretor fosse um "oportunista". Contrariando todos os pesares a produção foi um sucesso. O filme estreou no Festival de Cannes de 1985, onde Willian Hurt ganhou o prêmio de Melhor interpretação masculina, ganhando também o Oscar e o BAFTA de Melhor Ator. Babenco foi indicado para a Palma de Ouro pela direção. O filme concorreu ao Oscar de Melhor Filme, perdendo para  Entre dois Amores em uma clara demonstração de homofobia por parte dos jurados da Academia, até hoje esse Oscar gera controvérsias no real mérito do vencedor. 


    A produção foi reconhecida pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) como um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, ocupando a posição de número 61 da lista. Sem dúvidas, uma obra prima de Hector Babenco e reconhecida em todo mundo.  Luís Molina permanece como um dos personagens gays mais memoráveis do cinema brasileiro e mundial, Sônia Braga ganhou relevância com beleza de diva do cinema em suas cenas, grande parte de sua popularidade nos EUA se deve ao filme que segue sendo relevante e poderoso até hoje. 


Recomendamos que seja vista a versão restaurada do filme pelo Canal Brasil, disponível para alugar em plataformas digitais como Now, Vivo Play e outras.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

HypeTBT - UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES (1981)

 

     O filme ficou bastante conhecido no país devido as constantes exibições nas sessões de filme do SBT, em uma época que a TV aberta ainda era um importante meio para se conhecer filmes. A produção é um marco na história dos filmes de lobisomens e gerou um grande impacto no mundo do cinema. Foi o primeiro filme a ganhar o Oscar de Melhor Maquiagem (categoria criada em 1981) e até hoje pode ser considerado o filme com a melhor cena de transformação do cinema. O trabalho da equipe de John Landis chamou a atenção e surpreendeu uma geração, logo depois Michael Jackson contratou a equipe para produzir e dirigir o clipe da canção Thriller, que se tornou um dos maiores videoclipes da história. Na trama, dois jovens turistas americanos, David Kessler (David Naughton) e Jack (Griffin Dune) estão em excursão pela Europa. Passando por uma região rural da Inglaterra os jovens embrenham-se na escuridão e não percebem que estão sendo seguidos por uma criatura terrível. Os desdobramentos da história são assustadores, seja pelo tom realista ou pela condução bastante precisa em cada ato do filme. O interessante em rever o filme em HD é o primor de sua produção que envelheceu muito bem e se tornou atemporal como outras obras primas do terror como O Exorcista, O Bebê de Rosemary e A Profecia. Outro destaque importante são as nuances dramáticas dos personagens, elas são bem executadas e funciona em contraponto com a situação sobrenatural vivida pelos personagens. NÃO DEIXE DE VER!  



Agora é a chance ideal para conferir a produção, pela primeira vez no Brasil o filme será comercializado em alta definição em BluRay e com quase 4 horas de extras. Para colecionadores como agente essa edição inédita ainda traz o capricho de uma luva especial, 3 cards, pôster e livreto de 28 páginas! Parabéns a Obras Primas do Cinema pela iniciativa!


quinta-feira, 7 de maio de 2020

TBT - OS OLHOS DA CIDADE SÃO MEUS (1987) - "Angustia" / "Anguish" de "Bigas Luna"


Nosso Hype TBT de hoje é de uma produção não muito lembrada mas bastante original e insana, como um bom filme de terror deve ser. Dirigido pelo espanhol Bigas Luna (1946 - 2013), muito respeitado no meio alternativo e pouco conhecido do circuito comercial, ele consegue com maestria construir um exercício psicológico autêntico, visualmente perturbador e chocante, até mesmo para os dias de hoje. O filme é sobre um optometrista (profissional responsável pela avaliação primária da saúde visual e ocular), interpretado pelo ator Michael Lerner, que se torna um assassino em série controlado por sua mãe, interpretada pela falecida atriz Zelda Rubinstein, conhecida por seu icônico papel em Poltergeist (1982), ela usa a hipnose para manipular as ações do filho. Ela se entrega ao máximo em sua interpretação fazendo dela um dos vilões de terror mais assustadores de todos os tempos. A história ainda reserva surpresas, durante os acontecimentos, percebemos que essa história se trata de um filme que está sendo exibido em um cinema onde um serial killer obcecado pelo filme The Mommy planeja realizar um atentado. Outras surpresas ainda surgem até seu final arrebatador. Por curiosidade, o título escolhido no Brasil foi "Os Olhos da Cidade São Meus", meio distante do original espanhol Angustia ou o americano "Anguish", ainda que representa bem o que a obra entrega. Essa mistura de Slasher com terror psicológico é bem agoniante, na época de seu lançamento em VHS tinha um alerta sobre as cenas que poderiam gerar desconforto em algumas pessoas mais sensíveis. A história tem elementos psicodélicos, com distrações de hipnose como espirais, olhos, zoom de câmera giratório e closes aleatórios. A produção tem a curta duração de 1h26 e pode ser considerado facilmente um dos filmes mais interessantes do gênero nos anos 80, se tornando um exercício que questiona o real desejo de uma pessoa em sentir medo e como esse incômodo pode ser ainda pior exposto a uma realidade alternativa. META-HORROR PÓS-MODERNO.


O filme pode ser encontrado na Internet.

terça-feira, 21 de abril de 2020

TBT Especial: A Concepção (2006) de "José Eduardo Belmonte"



Hoje antecipamos nosso TBT para homenagear a aniversariante do dia, Brasília, com um filme da cidade que adoramos. 

Lá em meados de 2006 um filme brasiliense chamou bastante atenção, não só pela carreira em festivais alternativos mas pela temática bastante forte em tempos de um liberalismo estranho. A Concepção foi um dos primeiros filmes do diretor José Eduardo Belmonte, formado em cinema na Universidade de Brasília (UnB) e que mais a frente estaria dirigindo superproduções do cinema nacional como Alemão (2014) e Carcereiros (2019). O elenco do filme, na época composto de artistas novatos e alternativos  seriam mais tarde estrelas nacionais, como: Juliano Cazarré, Milhem Cortaz, Matheus Nachtergale, Rosanne Mulholland e Murilo GrossiNa trama, Alex, Lino e Liz são filhos de diplomatas que vivem juntos em Brasília em um apartamento vazio e levam uma vida entediada e alheia ao mundo. Eles conhecem uma pessoa sem nome e sem passado, que se chama X e que propõe viver um dia sem qualquer impedimento. Ele propõe um movimento chamado Concepcionismo, que consiste na morte ao ego e em seguir o caminho do excesso, que é encampado pelo trio de amigos. O mais espantoso no filme é um desprendimento total de qualquer pudor em uma história anarquista, bem filmada, bastante sexy, libertário e ainda com uma trilha sonora espetacular realizada por Zé Pedro Gollo. A analogia de uma cidade que não possui identidade também é sobre padrões. Na época do filme era comum jovens alternativos da cidade se identificarem com as críticas sociais do modelo criado no filme, o Concepcionismo. O filme na época de lançamento não foi devidamente compreendido, muitas vezes encarado como uma produção feita para chocar por causa das cenas de nudez, sexo, drogas e desbunde desenfreado. Provavelmente foi criticado por pessoas que não embarcaram na viagem sensorial de Belmonte ou muito menos entende o modernismo das pessoas que vivem em Brasília, uma cidade política com uma mentalidade bastante vanguardista, no meio do cerrado brasileiro e longe das grandes metrópoles. A cidade é uma metrópole quase provinciana, planejada e diferenciada. Organizada e ao mesmo tempo sem qualquer logística de cidade. Isso precisa ser dito, a cidade é como um personagem do filme. Entre os destaques da produção ainda tem o ótimo trabalho técnico, principalmente para um filme de baixo orçamento e gravado na coragem dos seus idealizadores. A filosofia barata do filme é divertida e ressalta principalmente o desequilíbrio mental e social. O movimento anarquista criado no filme também deve ser encarado como um universo paralelo, não mostra objetivo ou sucesso em seus pífios ideais, apenas ressalta uma sociedade contemporânea que precisa de um direcionamento, perdida em brevidades e sem produzir nada. No geral, é uma produção atemporal e que ainda funciona nos tempos atuais. Uma boa dica para quem não gosta de padrões. SUBVERSIVO.


O filme foi lançado em DVD pela Califórnia Filmes.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Hype TBT - O OPOSTO DO SEXO (1997) - "The Opposite of Sex" de "Don Ross"



Nosso Hype TBT de hoje relembra uma deliciosa e inteligente comédia dos anos 90. 

O Oposto do Sexo, "The Opposite of Sex" no original, não é uma produção muito conhecida, inclusive é até meio difícil acha-lá disponível em algum streaming para ver. O filme chamou bastante atenção pelo elenco bastante qualificado e com personagens repletos de nuances interessantes, além de uma carga emocional até fora do comum para sua época de lançamento, lá em meados de 1997, onde muitas comédias adolescentes faziam sucesso na época abordando o vazio de uma geração que começava a se acostumar com a futilidade. O filme é a estréia do diretor Don Ross, que não se tornou muito popular, anos mais tarde em 2005 faria outra interessante comédia, Finais Felizes. O filme apresenta a personagem de Dedee (Christina Ricci), uma meio vilã atrapalhada que surpreende na frieza de suas atitudes e questiona uma geração abobada dos anos 90, se realmente vale a pena ser certinha. Lembrando que os anos 90 foi quase uma década de ressaca de toda rebeldia vivida nas décadas passadas com algumas poucas produções com uma atitude reversa. No filme Dedee se entrega aos seus desejos e esquece de todos riscos ao destruir a vida do irmão desconhecido Bill Truitt (Martin Donovan), um professor que tenta esquecer a morte de seu perceiro Tom, ao lado do garotão Matt (Ivan Sergei). A garota de 16 anos mente pedindo abrigo ao irmão até então desconhecido, dizendo ter fugido de sua família desajustada. Bill fica com pena e deixa ela ficar. A partir de então, Dedee transforma sua vida num inferno e desencadeia uma série de fatos bizarros. Toda a confusão é assistida de perto pela insuportável Lucia (Lisa Kudrow), irmã do falecido Tom e "mãe-adotiva" de Bill, que fica dando conselhos na orelha do professor enquanto ele tenta resolver sua vida. Dedee toma atitudes tão absurdas que o diretor precisa se revirar em colocar tudo no lugar. Com um roteiro apurado e bastante promissor para época, o filme sempre foi lembrado pelo poder do elenco e o roteiro bastante esperto, inclusive, o filme trata questões que na época eram tratadas com um certo tabu, como abuso sexual, gravidez na adolescência e a homossexualidade, assuntos tratados com uma maturidade impressionante no filme. Mesmo meio datada em alguns aspectos, como a tecnologia utilizada na época e a imagem filmada em SD, a comédia incrivelmente permanece fresca e deliciosa de assistir pela originalidade e talento de seu diretor em conduzir uma história maluca e muito a frente de seu tempo. Tem um tipo de humor cínico e politicamente incorreto que tira sarro do quão ridículo os personagens são em expor o seu pior. A crueldade exageradamente divertida só ressalta Christina Ricci. Uma dica certeira para quem procura conhecer produções antigas e alternativas em uma comédia bastante original e atemporal. CHARMOSA.


Disponível  no Looke e na Internet para Download!


quinta-feira, 9 de abril de 2020

INVASÃO ZUMBI (2016) - "Train To Busan" de "Sang-ho Yeon"



Nosso Hype TBT de hoje é uma dica de um ótimo filme de Zumbi vindo da promissora Coréia do Sul. 

Invasão Zumbi, "Train to Busan" no original, chamou bastante atenção dos fãs de filmes de zumbis lá em meados de 2016, muito antes de Parasita (2019) conquistar o mundo e colocar o cinema sul-coreano em evidência. É inegável que o país vem atraindo olhares de cinéfilos desde a cerimônia do Oscar 2020, na qual “Parasita” ganhou um grande destaque – o filme venceu as principais categorias: Melhor Filme e Melhor Diretor, para o fantástico Bong Joon Ho – as buscas por produções sul-coreanas nos catálogos de streamings cresceram exponencialmente. A qualidade sempre foi boa só faltava mesmo esse empurrão para o público se engajar com as produções. Esse filme inclusive tem uma carga emocional muito parecida com o cinema feito por Bong, com uma leve crítica social em meio a pandemia zumbi. Lembrando que esse tipo de filme só deve ser visto por quem se sentir confortável devido ao período sensível em que vivemos atualmente. Na trama, um surto viral misterioso deixa a Coréia em estado de emergência. Como o vírus não identificado se alastra pelo país, o governo Coreano declara lei marcial. Todos que estão no trem expresso para Busan, uma cidade que defendeu com sucesso o surto viral, devem lutar por sua própria sobrevivência! Invasão Zumbi foi um enorme sucesso na ásia e abriu portas para o lançamento do filme em outros mercados como o Brasil. Um estúdio americano já planeja uma refilmagem. A história não tem muitas novidades e sua premissa é até simples, o filme faz milagre com efeitos especiais bem produzidos e um ritmo acelerado de tensão e suspense. O ponto alto do filme é justamente não se perder tempo tentando explicar a causa da contaminação das pessoas ou apresentar teorias, todas as respostas estão ali sem mistério deixando toda tensão justamente para o desenvolvimento do filme, que acontece nessa viagem de trem para a cidade de Busan. Dá tempo até para abordar questões sociais e apresentar um excêntrico vilão em meio a Invasão zumbi. Não tem como não se aterrorizar com a tensão e o suspense que o filme proporciona, com destaque para a transformação das pessoas em zumbis com uma rapidez impressionante, somado a uma tensão sem limites muito bem orquestrada por seu diretor. O filme é um bom entretenimento indicado para quem gosta de emoções fortes e ritmo frenético. Esse ano quando o caos da Pandemia do Covid-19 passar, provavelmente no segundo semestre, o filme ganhará uma continuação distribuída no Brasil pela Paris Filmes, intitulada Invasão Zumbi 2 - Península. A nova trama, também dirigida por Sang-ho Yeon, revela uma Coréia do Sul completamente isolada devido ao vírus misterioso que transformou seus habitantes em zumbis. Com isso, inicia-se uma luta desesperada para escapar de uma península abandonada. A assustadora realidade que vivemos atualmente com o Isolamento Social e tudo mais, infelizmente já era uma coisa bastante consolidada em produções como essa onde qualquer semelhança com a realidade chega a ser assustadoramente real.


O filme está disponível na Netflix.



quinta-feira, 2 de abril de 2020

Hype TBT - CUBO (2007) - "Cube" de "Vincenzo Natali"


Nosso TBT de hoje lembra um clássico independente e de certa forma, visionário. 

Se muitas pessoas atualmente se chocaram com O Poço, filme espanhol sensação da Netflix, certamente não conheceram o CUBO, um promissor terror gore que na época de seu lançamento também gerou diversas teorias sobre confinamento, tecnologia e o senso de humanidade das pessoas. O Cubo é uma representação direta de como na vida devemos ter um propósito e de como a tecnologia pode ser usada para o sadismo em prol do entretenimento vazio. Vincenzo Natali, o diretor e co-roteirista do filme, também fez uma alegoria sobre futilidade, confiança e sobre seres humanos que, por um segundo, não se dão ao luxo de não fazer nada. Uma situação de desespero pode nos fazer pessoas melhores? ou o instinto de sobrevivência pode gerar um desvio de caráter? São variadas questões a serem discutidas em um filme que já adiantava uma reflexão sobre a onda do entretenimento onde pessoas reais vivem diversas situações extremas para a diversão de outras, como: sobrevivência (Suvivor), confinamento (Big Brother) e relacionamento (The Bachelor). Na trama, seis pessoas são inexplicavelmente aprisionadas em um sistema de caixas (cubos), um labirinto com armadilhas aonde a sobrevivência é aliada a necessidade de convivência em grupo e o raciocínio lógico. Como não há comida ou água, o melhor é eles descobrirem como sair dali rapidamente mesmo que as consequências de uma decisão errada possa ser fatal. O Cubo tem uma premissa intrigante em ritmo emocionante aliado a uma inteligência que impressiona, principalmente para a época de seu lançamento, no ano de 1997. O elenco composto por desconhecidos consegue sugerir uma certa torcida para quem sobreviverá aos desafios e faz um excelente trabalho no equivalente cinematográfico de um palco vazio. Quentin (Maurice Dean Wint) é um policial que acaba tendo uma personalidade forte e instinto de liderança. Leaven (Nicole de Boer) é uma especialista em matemática do ensino médio cujos talentos, especialmente com números primos, oferecem uma maneira de salvar o dia. Holloway (Nicky Guadagni) é uma médica psiquiatra - que não lida bem com seu próprio estresse. Worth (David Hewlett) é um arquiteto que sabe mais sobre o cubo gigante do que admite a princípio. Rennes (Wayne Robson) é um criminoso profissional e artista de fuga que não é tão inteligente quanto ele acredita. Kazan (Andrew Miller) é um homem autista e o mais subestimado por causa de sua deficiência. Cada um deles tem sua própria teoria sobre quem está por trás dessa prisão peculiar. O filme discretamente foi despertando o interesse de fãs de terror que desejavam consumir outros tipo de filmes, em uma época onde o grande filão do gênero era composto por produções divertidas e juvenis como Pânico, Eu sei o que vocês fizeram no Verão Passado e Prova Final. O Cubo é um thriller de ficção científica muito bom e cheio de reviravoltas apesar de algumas falhas, mesmo com um roteiro fraco está sempre em movimento e adicionando algo à história além do senso de paranóia. Muitas perguntas são deixadas sem resposta e quando olhamos no geral é um filme que fez bastante com muito pouco, afinal, teve um baixo orçamento de produção. A interessante e intrigante idéia gerou diversos outros filmes similares e até hoje existem teorias e reflexões sobre o propósito do Cubo. Sem GPS, sem Mapa, sem Internet, sem bússola e principalmente sem fé, como sobreviver a esse desafio? 

Obs: O filme possui duas continuações: Cubo Hypercube e Cubo Zero.


Disponível no Amazon Prime Video.





quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

TBT: ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO (2008) de "Jose Mojica Marins"


 Hype TBT


Nosso TBT revisita um dos últimos trabalhos de José Mojica Marins o Zé do Caixão que nos deixou ontem aos 83 anos e se tornou um dos mestres do cinema de terror no Brasil com seu cavanhaque e unhas longas, seu cinema tinha foco na vertente trash e na criação de anti-heróis que enfrentavam o sistema, desafiando Deus e o homem, constituíndo caos, violência e niilismo. Zé do Caixão era ensaiado e constituído pelo próprio Marins com uma ofensividade delirante e de uma grosseria imaginativa e surreal. Em sua filmografia era comum encontrar cenas clássicas e assustadoras de rituais de canibalismo, satanismo e anarquismo. Sua carreira infelizmente esbarrou na ditadura e no politicamente correto, ele tentou, sem sucesso, fazer esse filme em 1965 e 1981. Encarnação do Demônio foi realizado em 2008 graças a uma junção de fãs e produtores que conseguiram os recursos necessários para tirar o personagem do limbo e também fechar uma espécie de trilogia iniciada com À Meia-Noite Levarei Sua Alma  (1963), e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967). O filme foi selecionado para ser exibido no Festival De Veneza, em 2008, numa mostra chamada "Midnight Movies". No Brasil venceu o extinto Festival de Paulínia (SP), ganhando 7 prêmios incluindo Melhor Filme. A produção além de prestar uma homenagem ao legado do personagem consegue envelhecer bem a filmografia do diretor com uma produção caprichada e diversas referências aos seus filmes. Se mantém no espírito original do seu criador causando grande impacto e terror. Não é um filme para qualquer tipo de público porém é obrigatório para fãs de todas as vertentes do Horror. Zé do Caixão será lembrado como um cineasta ousado e que usa as normas da sociedade e a confiança das pessoas na religião e nas crenças, como meio para filosofar de maneira delirante e anárquica. Fará muita falta! Esse filme foi o último que assistimos dele! Nossos sentimentos a família!
Jose Mojica Marins (1936 - 2020) 😢