Uma reinvenção pop de uma história atemporal.
Desde que a diretora Emerald Fennell anunciou que, após os sucessos de Bela Vingança e Saltburn, faria sua própria versão de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, os comentaristas da internet não têm poupado críticas — em sua maioria, negativas. Tudo no longa foi alvo de notícias tendenciosas: do elenco majoritariamente branco aos figurinos, dos sotaques à pontuação no título. Em inglês, a obra se chama "Wuthering Heights", com aspas, para enfatizar que se trata da interpretação particular de Fennell, e não de uma transposição literal. O filme é o "bait" do momento; tornou-se hype odiá-lo antes mesmo da estreia.
O fato é que a diretora atraiu muitos haters, mas fica a dúvida: por que Fennell não poderia apresentar sua própria visão extravagante e sensual do clássico? Essas implicâncias levantam questões relevantes ou apenas ignoram uma nova leitura para contemplação? Fennell produz uma obra que ousa mostrar que o estilo pode ser tão vital quanto a "qualidade" técnica tradicional. Com uma estética visual de encher os olhos, este O Morro dos Ventos Uivantes é um blockbuster americano comum. Nele, a paleta de cores vibrante é tão central quanto as reviravoltas da trama embaladas por uma trilha pop moderna assinada por Charli XCX. Nada chega a ser memorável, Margot Robbie e Jacob Elordi assumem os papéis dos icônicos protagonistas, Cathy e Heathcliff.
O cerne do romance narra a intensa e destrutiva paixão entre Heathcliff, um órfão adotado, e Catherine Earnshaw. Marcada por obsessão, preconceito de classe e vingança, a história acompanha como a separação dos dois leva a uma espiral de tragédias familiares. Talvez a principal razão para toda essa irritação antecipada com essa obra seja simples: quem ama o romance de Brontë, o ama com obsessão. Para muitos, o contato com a obra ocorre na adolescência, o que gera uma conexão emocional profunda. Considerando essa devoção, era inevitável que qualquer afastamento do texto original fosse interpretado como um ataque pessoal. Boa parte do enredo permanece lá, mas filtrada pela visão singular de Fennell, que prefere focar na toxicidade da relação entre o casal e em como ela corrói quem está ao redor.
Tudo em " O Morro dos Ventos Uivantes" é grandioso: a fotografia, o design de produção e as atuações constroem uma atmosfera densa. Cathy e Heathcliff orbitam entre o desejo e o desprezo, e a diretora compreende a dor desse relacionamento. O filme soa como um falso clássico instantâneo: dark, esteticamente impecável e profundamente divisivo. Ou você o ama porque é uma releitura descolada da obra literária, ou o odeia com todas as forças porque não é fiel aos padrões do livro— exatamente como o público já fazia antes mesmo da estreia. Meu conselho é relaxar e curtir a experiência entregue no filme de forma independente da obra literária.
⭐️⭐️⭐️ BOM

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