Rejeitado pelas salas de cinema em diversos países, incluindo o Brasil, Sem Cortes (Blue Film) é um filme LGBTQIA+ potente e um estudo transgressor sobre um garoto de programa que se depara com o ex-professor que o desejava na época da escola. Mesmo com uma premissa tão sensível, a obra não esconde nada e recusa-se a entregar uma experiência palatável. O cineasta estreante na direção Elliot Tuttle coloca os atores Kieron Moore e Reed Birney cara a cara para acertarem contas com seus traumas, inseguranças e escolhas de vida.
Ambientado inteiramente em um Airbnb em Los Angeles, o longa conta apenas com os dois atores para ir a lugares que o cinema americano raramente ousa explorar. Tuttle conduz o espectador por territórios sombrios que ressoam o cinema europeu e suas provocações psicossexuais francas. É impressionante a profundidade alcançada por essa abordagem surpreendentemente humanista e empática: até mesmo a fantasia sexual de um professor sobre a apresentação de seu ex-aluno em um show de talentos surge envolta em uma estranha melancolia.
O público em geral pode se sentir alienado por essa exploração sem rodeios de uma sexualidade tida como "aberrante". Por outro lado, aqueles que buscam o desafio do cinema autoral dos anos 90, no estilo de Todd Solondz ou Gregg Araki encontrarão eco na análise de Tuttle sobre como o abuso distorce a memória e como a memória, por sua vez, distorce os relatos do abuso.
Apesar de guardar limitações estruturais de uma peça teatral, o filme extrai enorme complexidade emocional de um diálogo tenso e em constante mutação. Sem Cortes realiza o raro feito de ouvir seus personagens problemáticos com compaixão, deixando o espectador dividir-se entre a curiosidade e o incômodo. Em um cenário onde a maioria das produções evitaria o tema ou ditaria exatamente como o público deve se sentir, essa postura destemida é tão rara quanto bem-vinda.
Meu Hype: ⭐️⭐️⭐️⭐️ (ÓTIMO)
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