quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

APOCALIPSE NOS TRÓPICOS (2025) de "Petra Costa"

 


Uma tese sobre a realidade política brasileira!

  Quando termina uma democracia e começa uma teocracia? Tal questionamento é a base de "Apocalipse nos Trópicos", da documentarista Petra Costa, que investiga a crescente influência de líderes religiosos sobre a política brasileira. Costa obteve acesso privilegiado a figuras centrais do país, incluindo o presidente Lula e o ex-presidente Bolsonaro, bem como ao televangelista Silas Malafaia — um pastor carismático que parece manobrar as peças do tabuleiro a seu favor. O filme revela o papel fundamental do movimento evangélico na recente turbulência política nacional e expõe a teologia apocalíptica que impulsiona seus principais protagonistas.

  ​Petra Costa é uma cineasta que sabe envolver seus personagens. Assim como em seu filme indicado ao Oscar, Democracia em Vertigem, ela documenta um período de profunda confusão e desespero com lucidez e olhar poético. Ao entrelaçar passado e presente, a diretora nos imerge nas realidades contraditórias de uma jovem democracia que se mantém por um fio, apresentando um espelho para o resto do mundo.

  O documentário analisa a expansão evangélica na população brasileira e seus efeitos na política. A obra pode ser sintetizada em dois depoimentos: o de Silas Malafaia, que define a democracia como o "governo da maioria" (sugerindo que ignorará as minorias nesse sistema), e o de Lula, que reconhece que a esquerda e a Igreja Católica falharam onde os evangélicos acertaram.

  A qualidade técnica e a edição são inegáveis, servindo de suporte para que a diretora apresente sua tese gradualmente. É um excelente trabalho, embora, naturalmente, muitos detalhes tenham ficado de fora; a edição foca em "resumir" o complexo cenário brasileiro para o mercado internacional.

  Apocalipse nos Trópicos é uma obra-prima que mescla antropologia, filosofia, política e economia. Um filme que questiona como, mesmo sendo resiliente, uma democracia pode ser desafiada pela manipulação narrativa massiva e pelo poder financeiro, tanto no mundo físico quanto no digital.

​🌟🌟🌟🌟 ÓTIMO 


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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A VOZ DE HIND RAJAB (2025) de "Kaother Bem Hania"


 ​O cinema emocionalmente minimalista!

​  É difícil lançar um olhar crítico sobre algo tão devastador e inegavelmente real como A Voz de Hind Rajab. Trata-se de um docudrama único e oportuno que mescla gravações de áudio reais com a dramatização de eventos verídicos. Ao incorporar elementos tão difíceis de presenciar quanto impossíveis de esquecer, o filme possui um impacto poderoso pela história, comovendo e fazendo um apelo à humanidade, embora possa soar um pouco massante em seu formato narrativo.

​  Em janeiro de 2024, voluntários do Crescente Vermelho receberam um telefonema de emergência de uma jovem palestina em Gaza. Presa em seu carro, sob o som de tiros, ela implorava por socorro. Não é spoiler — visto que uma legenda no início do filme apresenta os fatos — dizer que os esforços foram, em última análise, em vão. O filme consiste nisso: ouvir, em detalhes, os últimos momentos desesperados de uma menina de cinco anos.

​  Trechos da voz pequena e aterrorizada de Rajab viralizaram logo após sua morte, tornando-se uma história entre inúmeras outras no contexto do conflito em Gaza. A cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania (indicada ao Oscar por O Homem Que Vendeu a Sua Pele) teve a sensatez de não dramatizar a própria Rajab, adotando uma abordagem minimalista. O filme se passa inteiramente nos escritórios do Crescente Vermelho na Cisjordânia, focando nos operadores que consolam a menina enquanto lutam contra a burocracia e o tempo.

  ​Em termos de tom, os cineastas consideram — com razão — que a sutileza não é um recurso necessário para esta narrativa. Não é uma obra tranquila ou delicada; é angustiante. O esforço emocional exigido do espectador é imenso e nem todos terão estômago para suportá-lo, pois a dor é intensa mesmo através de uma linha telefônica.

​🌟🌟🌟 BOM


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SIRAT (2025) de "Oliver Laxe"


 Um choque pulsante! 

​  Sirat é um "road drama" de música eletrônica com uma estética desértica que se alinha ao discurso de nômades errantes cercados por um mundo exterior de eterno colapso. O contraste entre o escapismo da rave e a brutalidade do contexto geopolítico, torna-se um lembrete brutal de que a jornada pode ser mais importante que o destino. O filme merece o hype por ser um exercício de tensão que atinge o público como uma explosão ensurdecedora. O som é um personagem importante da história. 

  Um pai (Sergi López) e seu filho chegam a uma rave nas montanhas marroquinas. Eles procuram por Mar, filha e irmã, que desapareceu meses atrás em uma dessas festas intermináveis. Cercados por batidas eletrônicas e uma sensação crua de liberdade, eles distribuem a foto dela repetidamente. A esperança começa a esvair-se, mas ambos perseveram e seguem um grupo de ravers rumo a uma última festa no deserto. À medida que se aventuram na região selvagem e escaldante, a jornada os força a confrontar seus próprios limites. 

  A cultura da música eletrônica traz a este filme um paradoxo interessante: um grupo focado em dança, união e escapismo — com seus figurinos elaborados e a ética do "paz, amor, união e respeito" — contrasta com a solidão de quem busca refúgio em um mundo materialista e regido por guerras. A poética do deserto abre um espaço simbólico que questiona a memória e a condição humana sob a perspectiva subtextual da imigração. 

  Em Sirat (nome que remete à metáfora da jornada circular na imigração islâmica), tudo o que você imagina que vai acontecer, definitivamente não acontece. Esse é o ponto central e, talvez, o maior embate com o público. É uma experiência perturbadora que oscila entre a libertação e o luto, o céu e o inferno. Não traz respostas, mas propõe reflexões profundas. É o cinema visceral que se recusa a caminhar pelo óbvio. 

🌟🌟🌟🌟 MUITO BOM


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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

SONG SUNG BLUE - UM SONHO A DOIS (2025) de "Craig Brewer"

 

O filme musical de sempre! 

​  Sabe aquele filme biográfico musical que parece ser lançado todo ano, mudando apenas os protagonistas e o homenageado? Essa é basicamente a fórmula de Song Sung Blue. Envolto em clichês que geralmente garantem o público pelo apelo musical e atuações impecáveis, o longa toca todas as emoções, oferecendo uma experiência digna de "Sessão da Tarde". Além disso, é uma homenagem apropriada a Neil Diamond, um dos compositores mais amados da música moderna. Tem seu charme e encanta, mas acrescenta pouco ao gênero — o que torna coerente a recepção morna nos cinemas americanos. 

​  O filme narra a vida de Mike Sardina (Hugh Jackman), um veterano do Vietnã e alcoólatra em recuperação que fazia tributos a Neil Diamond. Ao lado de sua esposa Claire (Kate Hudson), ele formou a dupla "Thunder & Lightning" entre os anos 1990 e 2000. Naturais de Wisconsin — embora o filme tenha sido rodado em Nova Jersey —, ambos traziam filhas de casamentos anteriores. A dupla da vida real, tema de um documentário homônimo de 2008, teve um sucesso incomum para bandas cover, chegando a abrir shows para o Pearl Jam. Porém, o casal enfrentou sérias adversidades com a saúde de Mike. Além disso, o aspecto financeiro era uma luta constante. O filme apesar de simpático e bem produzido passa longe de ser o próximo "Nasce uma Estrela", ainda que Kate Hudson tenha um brilho interessante de se acompanhar. 

​  O primeiro e o terceiro atos seguem uma linha inspiradora sobre "azarões" talentosos, com Jackman entregando performances vocais emocionantes. Já o segundo ato é um desfile sombrio de sofrimentos. Embora haja o que gostar, o filme falha em equilibrar tons tão divergentes. Um exemplo é a estranha subtrama da gravidez na adolescência da filha de Mike (Ella Anderson), resolvida de forma cômica e simplista demais. 

​  Graças às atuações comoventes de Jackman e Hudson, além do apoio carismático de Jim Belushi, Song Sung Blue traz dignidade à arte da imitação e se consolida como uma história divertida sobre superação com aquela sensação que você já assistiu esse filme antes. 

​🌟🌟🌟 BOM

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domingo, 25 de janeiro de 2026

JUNTOS (2025) "Together" de "Michael Shanks"


 Bizarro e intrigante! 

  O body horror (horror corporal) sempre foi um subgênero peculiar, utilizado com maestria no passado por cineastas como David Cronenberg em "A Mosca" e "Videodrome" e também no clássico cult "A Sociedade dos Amigos do Diabo" (Society). Recentemente, produções como "A Substância" elevaram o nível de popularidade e a qualidade estética do gênero. Agora, o roteirista e diretor Michael Shanks estreia em longas-metragens com "Juntos", colocando um casal em crise em uma situação de pesadelo. A escolha metatextual de escalar Alison Brie e Dave Franco traz uma dose extra de autenticidade; em seus melhores momentos, o filme entrega um terror tão emocionalmente envolvente quanto memoravelmente grotesco, justificando o hype. 

  Após anos de relacionamento, Tim e Millie (Franco e Brie) encontram-se em uma encruzilhada ao mudarem para o campo, abandonando tudo o que lhes é familiar. Com a tensão à flor da pele, um encontro tenebroso com uma força sobrenatural ameaça corromper suas vidas, seu amor e sua própria carne. Repleto de química entre os protagonistas, "Juntos" funde o bizarro ao perturbador, criando uma alquimia que parece totalmente original. Os efeitos de maquiagem são impressionantes e entregam exatamente o que se espera de uma obra do tipo: são grotescos e viscerais. 

  Contudo, fica a sensação de que o choque é o objetivo principal, o que revela uma certa falta de substância na narrativa. O roteiro enfatiza a situação extrema dos personagens, mas falha em aprofundar o relacionamento a ponto de nos importarmos genuinamente com eles.

  No geral, a ideia central é envolvente e atinge o efeito desejado pelo diretor. Shanks criou um cenário terrível, amparado por efeitos verossímeis e dois atores à altura do desafio. Embora o roteiro careça de profundidade, ele funciona dentro de sua proposta, sugerindo uma ideia com potencial ainda maior. 

  "Juntos" é horripilante e perturbador no melhor sentido do horror corporal, mas também se revela diabolicamente engraçado e perspicaz. 

🌟🌟🌟 MUITO BOM


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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

MORRA, AMOR (2025) "Die My Love" de "Lynne Ramsay"


 O Colapso como Sensação!

​ Uma representação frenética de uma experiência comum, mas frequentemente ignorada: o colapso mental como um evento sensorial. O calor emanando da grama, o latido incessante de um cachorro indesejado, os sons úmidos do sexo na floresta. Não há linguagem clínica aqui; embora "Morra, Amor" possa parecer rebuscado demais para gerar uma conexão imediata com todos, presenteia Jennifer Lawrence com um de seus papéis mais marcantes. O hype do filme se justifica por não camuflar a essência gráfica de quando o bem-estar parece uma fantasia e ninguém percebe que você está sangrando.

​  A diretora Lynne Ramsay não se preocupa com explicações. Ela se concentra em texturas, ritmos e na maneira como a luz incide sobre uma janela enquanto um casamento se desfaz. O filme aposta nessa abordagem estética, o que se torna tanto seu maior trunfo quanto seu eventual obstáculo: por vezes, a narrativa parece não alcançar a força de suas imagens elusivas e perturbadoras.

​  A trama acompanha Grace (Jennifer Lawrence) e Jackson (Robert Pattinson) em sua mudança de Nova York para uma casa em Montana, herdada do tio dele. Grace dá à luz. Jackson viaja a trabalho. O casamento desmorona. Mas descrever a obra dessa forma soa redutivo — seria como tentar explicar um ataque de pânico apenas listando seus sintomas.

  ​O roteiro nunca nomeia o que acontece com Grace. Depressão pós-parto? Psicose? Transtorno depressivo sobreposto a um trauma de infância? Ramsay sugere todas as opções sem confirmar nenhuma. Essa recusa em diagnosticar parece deliberada, quase agressiva.

  "Morra, Amor" é um filme difícil, às vezes frustrante e ocasionalmente exagerado. No entanto, é surpreendentemente honesto sobre como o isolamento, a negligência emocional e uma condição mental não diagnosticada podem culminar em algo catastrófico. Ramsay criou uma obra que submerge o público na mesma confusão que consome a protagonista. Nós a vemos desmoronar e, assim como aqueles que a cercam, somos impotentes para impedi-la.

🌟🌟🌟🌟 IMPACTANTE


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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

A ÚNICA SAÍDA (2025) de "Park Chan-Wook"


 Uma sátira mordaz e sombria do capitalismo 

​  Quando um homem é abruptamente demitido da fábrica de papel onde trabalhou incansavelmente por anos, sua busca por emprego torna-se cada vez mais desesperada. O lendário cineasta coreano Park Chan-Wook — mestre em transitar com elegância entre o sombrio, o absurdo, o devastador e o pastelão — não decepciona em seu décimo longa-metragem. O aclamado e hypado A Única Saída é uma obra-prima satírica e hilária sobre o que significa tentar sobreviver ao atual pesadelo capitalista. Dirigido com precisão impecável, o filme é uma crítica sagaz à corrida corporativa desenfreada. 

  A obra encontra força na atuação habilmente desastrada de Lee Byung-hun, que interpreta Man-su. Relutante em aceitar um trabalho braçal, Man-su luta por uma vaga de prestígio, submetendo-se a humilhações diante de executivos do setor. Ao observar com inveja um influenciador do ramo nas redes sociais, ele tem uma ideia sinistra: por que não descobrir quem são seus concorrentes para as melhores vagas e eliminá-los? ​Ele publica um anúncio em uma revista especializada e aguarda as candidaturas. 

  Uma jornada que começa cômica e termina em puro horror à medida que ele se dedica à sua nova "vocação". Embora Man-su sorria quase o tempo todo, o semblante de Lee nunca alcança os olhos, que permanecem travados em uma expressão de agonia. O diretor não hesita em fazer de Mi-ri (esposa de Man-su) uma mulher forte e assertiva, com autonomia e desejos próprios; sua sensibilidade é o contraponto perfeito para a busca mortal do marido. Se ao menos ele a tivesse escutado. 

  Deliciosamente sombrio e com um humor afiado, este mistério de Park Chan-wook não deixa outra opção ao espectador a não ser adorá-lo.

🌟🌟🌟🌟 MUITO BOM


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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O ÚLTIMO AZUL (2025) de "Gabriel Mascaro"


 A beleza e a tristeza de envelhecer!

​  O Último Azul é uma visão cinematográfica do Brasil do futuro, vividamente realizada pelo diretor Gabriel Mascaro, onde não há espaço para idosos na sociedade. Depois de encantar a crítica e vencer o Urso de Prata no Festival de Berlim em 2025, e de consolidar uma carreira vitoriosa nos cinemas, o filme chega à Netflix para conquistar um novo público. A narrativa inspiradora sobre uma mulher que se recusa a ver a idade como um teto serve como um alerta contundente sobre a marginalização da terceira idade. Denise Weinberg entrega uma atuação coesa e comovente como Teresa, justificando todo o hype em torno da obra.

​  No Brasil de Mascaro, o governo designa seus cidadãos idosos como “patrimônio vivo” e inicia protocolos legais para marginalizá-los. O paternalismo imposto sob o pretexto de proteção inclui aposentadoria forçada, transferência da guarda para parentes mais jovens e o eventual exílio em asilos. Essa premissa vai além de simplesmente catastrofizar o rumo do país; o filme diagnostica a doença, não apenas os sintomas, atacando um sistema de pensamento global. 

 O cenário representa um desfecho assustadoramente lógico da cultura da produtividade e da otimização, em que o Estado reduz cidadãos a meros agentes do mercado de trabalho. Nesse contexto, o cuidado com o idoso torna-se um fardo econômico que exige soluções baseadas na racionalidade técnica em detrimento da humanidade. ​É notável a quantidade de conteúdo que Mascaro condensa nos concisos 86 minutos de duração. Apesar da brevidade, a jornada errante de Tereza transmite profundidade e satisfação. 

  A história é um triunfo silencioso, reconhecendo que o melhor contrapeso à "mão invisível do mercado" é estender uma mão amiga aos sonhos daqueles que foram deixados para trás. Os prazeres e as possibilidades de O Último Azul parecem tão ilimitados quanto as esperanças de Tereza. Com compaixão, o diretor demonstra que um futuro que não acolhe o passado não é um futuro pelo qual valha a pena lutar. O reflexo ligeiramente distorcido do mundo real.

​🌟🌟🌟🌟 MUITO BOM


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domingo, 18 de janeiro de 2026

EXTERMÍNIO - O TEMPLO DOS OSSOS (2025) "28 Years Later - The Bone Temple" de "Nia DaCosta"


 Um filme de arte com zumbis!

  Extermínio: O Templo dos Ossos é o quarto longa da franquia e o segundo de uma nova trilogia nos cinemas. Este filme faz seu antecessor parecer um mero prólogo. Finalmente encontramos o "coração" que faltou na obra anterior, enquanto observamos humanos (e infectados) se massacrando para satisfazer suas necessidades mais básicas. É como se a aura punk e oitentista de Danny Boyle se transformasse, agora, em uma vertente intensa e agressiva de Metal. ​O hype é real? Sim. A talentosa diretora Nia DaCosta revive a série, elevando o nível de violência gráfica e aprofundando o terror com uma direção perturbadora, potencializada pelas performances inspiradas de Ralph Fiennes e Jack O'Connell.

  A trama começa quase imediatamente após o final do controverso filme anterior. Spike (Alfie Williams) é resgatado, apenas para se encontrar em uma situação ainda mais aterrorizante: a gangue que o salvou revela-se um grupo letal de crianças liderado por Jimmy Crystal (O’Connell). No mundo de O Templo dos Ossos, os infectados não são mais a única ameaça; a desumanidade dos sobreviventes consegue ser ainda mais estranha e apavorante.

  O grande destaque é Ralph Fiennes. O filme lhe dá a oportunidade não só de desenvolver seu personagem, mas de transcendê-lo. Seja em suas reflexões sombrias, em seus monólogos com um "amigo" zumbi ou duelando com Jimmy, finalmente vemos o valor desse papel. Fiennes protagoniza um momento tão grandioso e impactante que poderia facilmente distrair o público, mas ele se entrega de tal forma que o transforma em um momento épico de "astro do rock", lembrando-nos de que esta franquia pode ser visceral quando quer. A filmografia de Fiennes é repleta de marcos, e este certamente é mais um deles.

  Felizmente para os fãs de terror, O Templo dos Ossos é tão sólido que nos deixa ansiosos — e quase obrigados — a acompanhar o desfecho desta nova trilogia.

🌟🌟🌟🌟 MUITO BOM


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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

BUGONIA (2025) de "Yorgos Lanthimos"


 Insanidade Cinematográfica!

​  Se existe um diretor que, sem dúvidas, dispensa a terapia, este é Yorgos Lanthimos. Sua filmografia é tão peculiar e instigante que, mesmo quando a mensagem é direta, o resultado é um entretenimento alucinante, sagaz e audacioso. É o caso de Bugonia, sua mais nova investida. Nela, o realizador escala novamente dois artistas no auge de suas carreiras — Emma Stone e Jesse Plemons — para entregar uma obra repleta de elementos das aventuras modernas; uma verdadeira ode à loucura da sociedade contemporânea. Bugonia é hype? Com certeza.

​  Teddy (Jesse Plemons) é o retrato nervoso, superficialmente simpático e, por isso mesmo, cruel de um populista antiglobalista — carregando as conotações antissemitas inerentes ao tipo. Michelle (Emma Stone), por sua vez, personifica a elite corporativa egocêntrica e desdenhosa de forma tensa e igualmente implacável. Lanthimos coloca esses dois arquétipos frente a frente e, com um prazer quase sádico, os lança em uma competição para decidir quem é o mais detestável. Enquanto Teddy submete Michelle a terríveis sessões de eletrochoque divagando sobre invasões alienígenas, ela, ao assumir o controle, vomita um ódio neoliberal ácido, reafirmando que ele sempre será um "perdedor" e ela, a eterna "vencedora".

​  A única alternativa ao vazio ensurdecedor de Teddy ou ao abismo gélido de Michelle é Don (Aldan Deblis), primo de Teddy. Don, que parece estar dentro do espectro autista ou possuir alguma deficiência intelectual, é o único que demonstra preocupação real. Perturbado pela brutalidade do primo, ele tenta convencê-lo a parar ou, em um ato desesperado, tenta interromper a tortura arrancando os aparelhos. Infelizmente, as consequências são duras para todos — afinal, este é o universo de um gênio misantropo do cinema.

  Apesar de toda a ironia e do absurdo, a mensagem de Lanthimos incomoda não por ser insensível, mas por ser desconfortavelmente sincera. Ele nos lembra de que não existem alienígenas para nos destruir ou salvar. O destino das abelhas — e o da humanidade — está em nossas próprias mãos, seja para o bem ou, como o filme sugere, para o mal.

​🌟🌟🌟🌟 MUITO BOM


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ATO NOTURNO (2025) de "Marcio Reolon" e "Filipe Matzembacher"


 Sexy, elegante e fatal. 

  Ato Noturno, thriller erótico gay dirigido por Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, possui um ritmo crescente, melancólico e repleto de apreensão. O ótimo elenco é elevado por uma cinematografia sombria e uma trilha sonora marcante. O filme é visualmente deslumbrante com as incursões noturnas de Matias e Rafael. O filme é "hype"? Sim, pois entrelaça fetiche, influência e autoridade de maneira literal em um cinema de urgência. 

  Gabriel Faryas assume o papel de Matias, um jovem e ambicioso ator que exala confiança e anseia pelos holofotes. Em suas andanças, Matias conhece um homem discreto com quem compartilha uma noite intensa. Contudo, torna-se evidente que Rafael (Cirillo Luna) tem muito a perder: ele está prestes a se tornar uma figura política poderosa. Ambos descobrem um fetiche mútuo pela adrenalina de serem flagrados em locais públicos. À medida que suas carreiras decolam, esse jogo perverso torna-se cada vez mais perigoso. 

  A obra envolve a tela em uma paisagem noturna peculiar, que oferece libertação das restrições do dia. A temática do cruising — no Brasil carinhosamente apelidado de "pegação" — não é novidade no cinema, tendo rendido obras incríveis como o clássico Parceiros da Noite (anos 80), o emblemático português O Fantasma e o inesquecível francês Um Estranho no Lago. No cenário nacional, o tema já foi explorado pelo brasiliense Floresta dos Sussurros, de Thiago Cazado, e pelo goiano Vento Seco, de Daniel Nolasco.

  Embora o cruising ocorra comumente em contextos de anonimato em locais públicos (parques, banheiros, bares), no filme, cada novo encontro ameaça o status social dos personagens — e é exatamente esse risco que os mantém unidos. 

  Ato Noturno proporciona uma experiência sensorial específica sem cair na armadilha da sexualidade performática; há sutileza e um suspense devastador. O horror contido na obra não reside apenas em sua eficiência clínica como thriller, mas no lembrete brutal de que a tentativa de reconciliar o desejo com as normas vigentes pode gerar ressentimento, confusão e violência. 

🌟🌟🌟🌟 MUITO BOM


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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

MANAS (2025) de "Marianna Brennand"

 

Comovente e revoltante! 

​  O filme retrata uma comunidade amazônica de maneira realista e autêntica. Manas aborda temas densos vividos sob a perspectiva de uma criança. Embora a obra trate do abuso, este nunca é mostrado em tela e raramente é discutido de forma direta nos diálogos; no entanto, o tema pulsa de forma proeminente em toda a narrativa. É uma corrente subterrânea que começa como um desconforto sutil e se transforma em uma compreensão dolorosa. A dor é sentida pelo espectador, e a obra cresce à medida que ganhamos a certeza do que realmente está acontecendo. O Hype em torno do filme é legítimo e necessário. 

  Manas, de Marianna Brennand, é cru, intimista e destaca com sensibilidade a coragem de uma jovem presa em um ciclo de violência. A câmera, quase nervosa e de natureza claustrofóbica, confere ao filme intimidade e imediatismo. A urgência do assunto não intimida a realizadora a confrontar a engrenagem violenta que rege essa família e as mulheres da comunidade. O longa aborda a natureza do tabu diretamente, usando o olhar da protagonista para examinar uma estrutura rural assolada por ele. 

  Embora a garotinha não seja ingênua, sua aparente maturidade é atenuada pela dedicação de Brennand em garantir que o público nunca se esqueça de sua infância. Quando não está na escola ou ajudando a mãe, ela está brincando com a irmãzinha ou colorindo desenhos. À medida que sua empolgação em passar tempo com o pai diminui, sua vulnerabilidade permanece exposta. É uma representação dilacerante da perda da inocência, que encontra eco nas mulheres ao seu redor. 

  É um filme que não tem medo de ser ousado e chocante, comovente e revoltante na mesma medida. Manas enfatiza a importância de romper o silêncio e quebrar o ciclo, destacando a coragem necessária para fazê-lo através dos olhos de uma criança. 

🌟🌟🌟🌟 ÓTIMO


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SE EU TIVESSE PERNAS, EU TE CHUTARIA (2025) "If a Had Legs Id Kick You" de "Mary Bronstein"


 Rose Byrne em um caos explosivo!

  Imagine se o clássico Réquiem para um Sonho fosse focado na maternidade. É quase o que acontece em Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, um filme visceral que deixa o público em estado de choque ao promover uma imersão onírica no estresse parental e todo o seu impacto. Essa força estrondosa emana da atuação corajosa de Rose Byrne e da visão intransigente da diretora Mary Bronstein. O filme é hype? Com certeza.

  A trama mergulha na depressão pós-parto, acompanhando uma terapeuta que tenta conciliar a maternidade de uma filha com transtorno alimentar pediátrico (que depende de sonda) enquanto seu marido, capitão da Marinha, está ausente há meses. Tudo gira em torno do vazio. Bronstein demonstra um ótimo senso de humor e timing, comandando um elenco impecável — especialmente Byrne, que personifica a mulher exausta, cuja vida está em turbilhão, atormentada por dúvidas e culpa a cada segundo. Destaque também para os efeitos visuais e as sequências de alucinação, que elevam a experiência sensorial.

  A narrativa funciona praticamente como um monólogo de decisões desesperadas que apenas agravam o cenário. Frustrada, angustiada e indignada, a protagonista recorre à desonestidade, mas engana apenas a si mesma ao negar constantemente a gravidade de suas emoções e do contexto em que vive.

  Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é mais um exemplar potente do cinema dirigido por mulheres sobre mulheres à beira de um colapso. É engraçado, mas dói; é real e estressante na mesma medida.

🌟🌟🌟🌟 MUITO BOM


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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

SONHOS DE TREM (2025) "Train Dreams" de "Clint Bentley"


 Uma jornada visceral pela história americana.

​  Inspirado na novela homônima de Denis Johnson (2011), o filme inicia-se com imagens de forte simbolismo: um túnel, botas de couro devoradas por troncos e o ruído de árvores tombando. É neste cenário que conhecemos Robert Grainier — um homem que viveu oito décadas em Bonners Ferry sem jamais ter visto o oceano. Sonhos de Trem foca na trajetória de Grainier até o fim de seus dias. O filme é Hype? Sim, o entusiasmo em torno da obra é plenamente justificado. 

  O longa é uma belíssima reflexão sobre a formação dos Estados Unidos, ancorada por uma das melhores atuações da carreira de Joel Edgerton. Com uma delicadeza melancólica, Edgerton conduz o espectador pela rotina na Ferrovia Nacional de Spokane, onde trabalhadores migrantes formam famílias temporárias em meio ao isolamento. O filme transita habilmente entre o realismo do trabalho bruto e o surrealismo de alucinações do personagem que exploram culpa e destino. 

  Como antecipa o narrador: “Muitos anos depois, uma ponte de concreto e aço seria construída dez milhas rio acima, tornando esta obsoleta”. Grainier viverá o suficiente para testemunhar o progresso, mas, antes disso, será assombrado por visões onde a modernidade surge como uma força inevitável. 

  A narração de Will Patton nos transporta para dentro e para fora da vida do protagonista. Há algo reconfortante no roteiro de Clint Bentley e Greg Kwedar. Sob a direção de Bentley, a beleza reside nos momentos sem diálogos, em que a trilha sonora carrega o peso emocional em conjunto com a cinematografia lírica do brasileiro Adolpho Veloso e a música de Bryce Dessner. Robert Grainier é um personagem admirável.

  Sonhos de Trem alcança proporções míticas sem perder sua essência intimista, oferecendo um testemunho sereno sobre a resiliência, família e o poder da memória. 

🌟🌟🌟🌟 ÓTIMO


📺 Netflix 

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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O BEIJO DA MULHER ARANHA (2025) "The Kiss of the Spider Woman" de "Bill Condor"

 

O beijo flopado! 🕸🕷 

​  O Beijo da Mulher Aranha (2025) não é uma adaptação direta do romance de Manuel Puig, nem do filme de 1985 dirigido por Héctor Babenco. Trata-se, na verdade, de uma versão do musical da Broadway dos anos 90. Talvez isso explique o tom teatral da produção, com cenários limitados e números musicais sem muita grandiosidade. Mas o filme tem hype? Infelizmente, não. 

​  O que deveria jogar a favor desta nova versão acaba sendo seu principal problema. Como drama musical, falta-lhe o impacto emocional que o gênero exige; não há sequer uma cena musical memorável. Como drama puro, também não consegue comover. Tudo soa plástico e artificial: os cenários são datados e a tentativa de conexão com o público atual não funciona. Citações a marcas famosas e o figurino pomposo de Jennifer Lopez não escondem o desespero do filme em parecer moderno. 

​  Nesta adaptação, a falta de química entre os protagonistas é notável. Em muitos momentos, a ausência de brilho e entusiasmo deixa a narrativa morna, prejudicando o ritmo da história. A trama não se desenrola com a mesma força do clássico estrelado por William Hurt, Raul Julia e Sonia Braga. A elegância, delicadeza e seriedade do filme de 1985 transformam-se aqui em uma intriga musical visualmente suntuosa, mas vazia, apesar das performances razoáveis de Jennifer Lopez, Tonatiuh e Diego Luna. A ditadura é tratada sem profundidade.

​  Para mim, como fã da obra da década de 80, esta releitura fica muito aquém do potencial da história. Mesmo com um esforço admirável dos protagonistas e a escolha ousada pelo formato musical, o resultado final é uma sensação de desperdício. Fica apenas a lembrança do clássico de Babenco, que permanece insubstituível. 

🌟🌟 REGULAR


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domingo, 11 de janeiro de 2026

AGENTES MUITO ESPECIAIS (2026) de "Pedro Antônio"


 Uma comédia de ação gay! 🏳️‍🌈

​Dirigido por Pedro Antonio (que recentemente assinou o ótimo Evidências do Amor e os sucessos Tô Ryca 1 e 2), o filme nasceu de uma ideia original de Marcus Majella e do eterno Paulo Gustavo. Ao assistirem a Tropa de Elite, eles vislumbraram mostrar dois gays nas forças especiais tão competentes quanto qualquer outro colega, reforçando que competência não é uma questão de gênero ou sexualidade. Existe hype para esse filme? Com certeza.

Agentes Especiais é uma comédia leve, uma sátira dos filmes policiais americanos sobre uma missão repleta de percalços enfrentada pelos agentes Jeff (Marcus Majella) e Johnny (Pedroca Monteiro). A trama vai além do riso ao abordar, com delicadeza, os desafios da comunidade LGBTQIA+ — seja na vida pessoal, onde a autoaceitação é o primeiro passo para o bem-estar, ou na profissional, onde muitas vezes é preciso ser o melhor para se destacar e conquistar o respeito.

A história foca no desejo da dupla em provar que, independentemente da orientação sexual, são extremamente capazes. Desde o treinamento, Jeff e Johnny sofrem com o preconceito e as chacotas; Johnny, inclusive, ainda lida com dúvidas sobre como expressar sua sexualidade. Os dois se tornam o porto seguro um do outro para sobreviver ao ambiente hostil, acreditando que o reconhecimento dos colegas virá apenas com a solução de um grande caso.

A luta LGBTQIA+ começa na coragem de ser quem somos, algo que se fortalece com uma rede de apoio e pessoas que compartilham vivências — o verdadeiro conceito de comunidade. O filme é didático ao explicar esse funcionamento ao espectador "comum", mas faz isso de forma natural, aproveitando o timing para usar as principais "piadas internas" da comunidade em momentos hilários.

Para completar o enredo, temos uma vilã à altura interpretada por Dira Paes e coadjuvantes afiados. Bem produzido e cumprindo o objetivo de ser uma comédia leve e despretensiosa, o longa certamente abre caminho para novas histórias. Divertido e necessário para a comunidade LGBTQIA+!

🌟🌟🌟🌟 - MUITO BOM!


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@marcusmajella @pedrocapedroca @dtfilmes

A EMPREGADA (2025) "The Housemaid" de "Paul Feig"


 O Hit do Verão! ☀️ (Sem Spoilers)

O filme mais comentado da temporada é uma adaptação, assumidamente vulgar, do best-seller de Frieda McFadden, e certamente foi daí que surgiu o enorme boca a boca positivo que transformou o filme em um sucesso inesperado, até entre quem não conhecia o livro e sua história. O hype é real e se sustenta.

​Em uma temporada onde os cinemas são invadidos por filmes infantis devido às férias e dramas pesados e pretensiosos devido à temporada de prêmios, A Empregada surge como um alívio: uma obra pop envolvente e cativante, que certamente encantará tanto os novatos quanto os fãs do livro.

A trama é engenhosa, repleta de intrigas e falsas pistas, com várias reviravoltas que homenageiam aqueles thrillers que fizeram sucesso nos anos 90 — só que desta vez nunca sabemos ao certo quem está no comando. Os personagens brincam com nossa simpatia e ressentimentos de classe o tempo todo, flertando abertamente com o exagero na medida certa. A obra subverte tudo o que havíamos previsto, tornando a história difícil de ser discutida em detalhes com quem não viu. Afinal, qualquer detalhe estraga a experiência!

​O filme é astuto, graças ao seu humor ácido, e vira uma vitrine para Sydney Sweeney e Amanda Seyfried mostrarem seu talento, em contraste ao elenco masculino que esbanja sedução. Tudo isso embalado em uma trilha pop, sendo o equivalente cinematográfico de um livro de leitura leve e viciante. Imperdível! 

🌟🌟🌟🌟 MUITO BOM


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sábado, 10 de janeiro de 2026

HAMNET - A VIDA ANTES DE HAMLET (2025) de "Chloé Zhao"

 

A beleza e o tédio de Hollywood! 💀

  A diretora Chloé Zhao, cineasta responsável por Nomadland e pelo filme da Marvel (Eternos), ganha uma nova  chance de produzir um filme para um grande estúdio (Universal) e conta com a ajuda de Spielberg e Sam Mendes para entregar um drama pretensioso, estrelado por Jessie Buckley e Paul Mescal, sendo o filme o atual queridinho de Hollywood. Mas o hype é real?

  Infelizmente não me conectei com a obra, o inicio muito lento, que por exemplo, em Nomadland era contemplativo, aqui é suficiente para fazer seus olhos lacrimejarem. Não é sobre o estilo de Chloé Zhao, que quem conhece sabe que seus filmes são mais lentos, é a falta de ritmo e impulso para não desgastar o expectador. 

  A história é uma adaptação para o cinema do romance de Maggie O'Farrell, de 2020, sobre o luto de William Shakespeare (Paul Mescal) e sua esposa Agnes Hathaway (Jessie Buckley) pela morte do filho Hamnet e como sua trágica morte inspirou a grande peça do bardo, Hamlet. Sem dúvida, Hamnet é filmado de forma belíssima e com Jessie Buckley entregando uma atuação comovente que lhe renderá o Oscar de Melhor Atriz. Ainda assim tudo é muito arrastado e egocêntrico. 

  Cena após cena, assistimos aos Shakespeares em casa, vivendo suas vidas sem que muita coisa aconteça ao longo de duas horas de tela. Para ser justo, Jacobi Jupe, sósia do Príncipe George, impressiona como o filho moribundo, assim como seu irmão na vida real, Noah Jupe, que interpreta Hamlet no palco no final. Mas tudo é tão prolongado e pretensioso, como se estivesse acenando para o público e dizendo: "Sim, este será um filme vencedor do Oscar, podem ter certeza." 

  O filme será particularmente impactante para pais que sofreram a perda irreparável de um filho. Mas o filme já foi acusado de manipular o público. Talvez. A única coisa da qual certamente se pode dizer – e isso é uma grande façanha considerando o tema – é que ele é um drama belo e entediante. 

    🌟🌟🌟 BOM 



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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

MARTY SUPREME (2025) de "Josh Safdie"


 Uma visão suprema de si mesmo! 🏓

  Marty Supreme dirigido por Josh Safdie, um cineasta bem interessante que dirigiu os ótimos Joias Brutas e Bom Comportamento é um filme que parece ter sido escrito para Timothée Chlamet, quase como um passaporte para o mesmo figurar nas maiores premiações. 

  O ator se entrega em cena para dar vida ao personagem Marty Mauser, um jovem visionário com um sonho que ninguém respeita, que vai ao inferno e volta em busca da grandeza. É suficiente? O Filme sustenta todo hype da crítica mundial? Sim, mas a resposta depende muito do ponto de vista do espectador e da experiência que ele deseja ter com a obra. 

 Marty Supreme mostra um Timothée Chalamet em sua forma mais carismática e contagiante como um "herói" de grandes aspirações mas com uma ambição tóxica, confesso ter em vários momentos torcido contra o protagonista, suas atitudes de caráter duvidoso para atingir seus objetivos ultrapassa aquela linha entre, uma pessoa admirável e uma pessoa que segue impulsiva para alimentar seu ego. Mérito do empenho do ator no filme.

  Analisando como obra cinematográfica a fotografia de época é boa, a ótima trilha sonora é conflitante com o enredo, são hits musicais dos anos 80 que não se conectam com a ambientação, uma história eletrizante e bem dirigida que foca na batalha de seu protagonista deixando seus coadjuvantes brilharem em poucos momentos, a participação de alguns personagens na trama é quase um alívio a massante exposição em tela de Marty Mauser

  Marty Supreme tem uma trama esportiva que se torna uma odisséia que atropela qualquer espírito esportivo, onde o protagonista nunca aceita perder mesmo quando ele merece. A reconstrução de Marty após os fracassos são baseados na sua ambição desenfreada e seu egocentrismo, existem batalhas muitos maiores na história que são deixadas de lado para simplismente exaltar seu personagem, por essa ótica o filme se torna conflitante, segue como um bom entretenimento mas longe de ser memorável. 

🌟🌟🌟 BOM 


🎬👀 CINEMA


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