quinta-feira, 14 de abril de 2022

MEDIDA PROVISÓRIA (2022) de "LAZÁRO RAMOS"

 


ORDEM EXECUTIVA, FUTURO SOMBRIO - Às vezes, nuances e subtextos são os métodos mais fortes para atingir um público, permitindo que eles descubram organicamente o significado por trás de temas e atributos específicos de um filme. Outras vezes, usar uma marreta proverbial para golpear o espectador sobre a cúpula é a melhor maneira de passar sua mensagem, e é exatamente isso que Lázaro Ramos faz em seu primeiro filme solo como diretor. Medida Provisória é situado em um futuro não muito distante, o filme centra-se em uma série de eventos antes e depois que o governo brasileiro passa por uma série de mudanças radicais nas quais o governo reverte seus padrões de igualdade mais progressistas e tenta empurrar cidadãos “melanizados” para a África, numa espécie de "limpeza". Esse “incentivo” obviamente incomoda os brasileiros de cor e, embora alguns sigam o plano, a maioria protesta contra esse programa opressivo e abertamente racista. Muito rapidamente, no entanto, depois que apenas um pequeno número de pessoas concorda em sair voluntariamente, o governo, sem surpresa, promulga uma lei que força qualquer indivíduo de pele mais escura a deixar o país. Isso transforma o Brasil em uma zona de guerra distópica da noite para o dia, explodindo as cidades e favelas em turbulência e violência. O filme que contém algumas boas ideias, performances sólidas e alguns bons momentos, esbarra na natureza desarticulada do roteiro e faz com que a experiência no geral não seja tão provocadora como deveria, ainda que seja um bom filme. Alfred Enoch, Taís Araújo e Seu Jorge são algumas peças importantes do elenco. A maior parte do tempo de execução é gasto com Antônio e André presos em seu apartamento e Capitu tentando manter a si mesma e as pessoas que ela está escondendo com calma e sensatez. Isso faz com que o ritmo perca uma quantidade significativa de intensidade, levando muito mais a algumas revelações de enredo do que à narrativa no geral. O elenco complementar ainda conta com Emicida, Adriana Esteves, Renata Sorrah, Mariana Xavier e Rincon Sapiência em participações especiais. No geral, os temas abertos do racismo sistêmico, produz um nível superficial fascinante, ainda que um pouco demais para parecer que está realmente tentando dizer algo profundo. Uma sátira sombria de um evento ficcional devastador que deixa claro os caminhos perigosos do Brasil e do mundo em não refletir a história de opressão do seu povo, o coletivo e a diversidade. LUTA ETERNA POR IGUALDADE!


Em cartaz nos Cinemas!

Hype: BOM

quarta-feira, 13 de abril de 2022

ANITTA - VERSIONS OF ME (2022)

 

AS MÚLTIPLAS VERSÕES DE ANITTA 💃 Em momento de auge em sua carreira, a cantora brasileira foca no mercado global e apresenta álbum com coragem de transitar nas batidas do funk, na vibração do reggaeton, nos riffs eletrônicos, no rap e até na bossa nova, esse multiverso de quem é a Anitta mostra uma artista que entrega para o mundo e não só para o Brasil. A cantora canta com desenvoltura em três línguas diferentes e se aprofunda em detalhes que fazem bastante diferença quando se analisa a produção musical junto com Ryan Tedder, o produtor executivo escolhido pela cantora para conseguir rebuscar seu trabalho musical, no geral ela consegue êxito não só musicalmente, como consegue uma estética sempre atraente em seus vídeos assim como seu posicionamento sobre temas atuais e marketing sempre bem conduzido de suas conquistas. O próximo feito da cantora será nesta próxima sexta-feira, dia 15 onde se apresenta no festival mais importante do mundo, o Coachella 2022 nos EUA. Anitta esbanja sensualidade, poder feminino e tem uma versatilidade invejável. O trunfo de Versions Of Me é seu apelo popular que dialoga com públicos variados. Algumas canções já haviam sido lançados e não são novidades, Girl from Rio usa sample de "Garota de Ipanema" de Tom Jobin para mostrar ao mundo outra versão da garota que pode ser de Ipanema ou até mesmo de Honório Gurgel, subúrbio do Rio de Janeiro onde residia a cantora antes da fama. Me Gusta mescla o rap com batidas de funk e contagia com colaboração de Cardi B, a inofensiva Faking Love parceria com Saweetie aos poucos cativa. O hit global Envolver mostra seu poder sensual além da divertida Boys Don't Cry. Das canções mais novas destaque para a maluca Gata, feat. com Chencho Corleone, a dançante I'd Rather Have Sex, a "good vibes" Ur Baby com Khalid e o funk  Que Rabão feat. com Mr. Catra e Papatinho. Maria Elegante com feat. de Afro B também cresce com as audições. Em tempos tão pesados, onde artistas do pop focam bastante na melancolia, Anitta envolve com todas as versões de quem ela pode ser e entrega bastante. DIVERTE! 🕺💃

🎧 OUÇA: "I"d Rather Have Sex" e "Versions of Me"
 
🏅
Hype: MUITO BOM



quinta-feira, 7 de abril de 2022

SONIC 2 - O FILME (2022) de "Jeff Fowler"


DIVERSÃO GARANTIDA 💍 Sonic, live-action lançado em 2020, foi uma das últimas grandes estreias nos cinemas, no período pré-pandemia, em março daquele ano, antes que as salas fossem fechadas por meses. Saudosistas do divertido jogo do porco espinho azul  sabiam que mais aventuras e personagens clássicos poderiam ser explorados em novas continuações, caso o primeiro filme obtivesse sucesso. E foi o que aconteceu: Sonic 2 estreia nessa quinta-feira, 07/04. O Meu Hype conferiu e afirma: a diversão leve e despretensiosa continua presente! O maligno Dr. Robotnik (um cartunesco Jim Carrey, agora aposentado da carreira 😔) está num planeta distante, planejando sua vingança após ser derrotado por Sonic no primeiro filme. Para esse plano ele recebe ajuda de Knuckles: uma espécie de Sonic turbinado, vermelho e com grandes punhos (já conhecida pelos gamers). Essa improvável dupla dirige-se à terra atrás de Sonic. Por sua vez o solitário porco espinho Sonic, está reflexivo em casa, após seus "pais" humanos viajarem. Eis que junto dessa ameaça, surge também a simpática raposinha de duas caudas: Tails, antigo aliado de Sonic no game clássico. É nesse momento que o jogo, digo o filme, se desenvolve em um agradável ritmo, com boas piadas do universo pop: as referências vão desde personagens da Marvel aos atores da infinita franquia Velozes e Furiosos (ponto positivo pra Paramount, que não teme citar obras de outros estúdios). Sem desperdiçar potencial, conta ainda com pequenos easter-eggs que homenageiam a dinâmica de jogo no mega drive. Se você gostou do filme original, pegue a pipoca e divirta-se. (Thiago Resende)


🎬 NOS CINEMAS! 🍿🍿🍿🍿

quinta-feira, 31 de março de 2022

MORBIUS (2022) de "Daniel Espinosa"


O VAMPIRO VIVO, O FILME MORTO 🦇Originalmente um vilão do Homem Aranha da Marvel, Morbius segue os passos de Venom e ganha seu próprio filme de origem. O Dr. Michael Morbius de Leto é considerado um gênio desde a infância, quando salvou seu amigo Lucien de uma máquina de transfusão de sangue com defeito, consertando-a com uma pequena mola. Isso claramente o marcou como o tipo de gênio. Ironicamente, talvez, Michael e Milo sofram de uma rara condição sanguínea na qual faltam pedaços de seu DNA. De alguma forma, ele busca uma cura no DNA no morcego vampiro. O filme não se preocupa em levar sua ciência a sério, mas pelo menos também não espera que você o faça. Ambos os garotos deveriam ter recebido dicas antienvelhecimento de seu mentor Nicholas (Jared Harris), que não parece diferente quando o filme corta para 25 anos depois, só pra citar alguns dos erros grotescos do filme. Os dois seguem para travar uma batalha de interesses sobre a cura de suas enfermidades, sendo esse o foco principal da produção. Um dos grandes problemas de Morbius é justamente seu enredo não fornecer antecedentes suficientes para o personagem principal como acontece com Venom. Tudo é novo para o público e praticamente todas as escolhas são equivocadas. O resultado é um filme de origem carregado de soluções fáceis que até quem "ama" Venom vai se questionar da preguiça de realizar algo mais consistente. Morbius tenta transitar como um anti-herói e falha drasticamente por não se encontrar, é raro ver Jared Leto tão perdido, raso e sem substância como no filme. Os efeitos especiais erram no uso bizarro de uma poluição atmosférica em torno do vampiro. Quando Morbius enfrenta seu colega vampiro no clímax, parece uma luta entre dois vazamentos de gás de tamanho humano. Os coadjuvantes são superficiais e esqueciveis, nem há necessidade de citá-los. Talvez precisássemos deste filme para nos lembrar como realmente é um desperdício super-heróis no espaço do cinema, algumas vezes. A bomba do ano, com certeza! Detalhe para a cena final CANASTRONA! FUJA!

Em cartaz nos Cinemas!

quarta-feira, 2 de março de 2022

BATMAN - "The Batman" (2022) de "Matt Reeves"


A ESCURIDÃO DA VINGANÇA 🦇 Um retorno a Gotham City melancólico, metódico, hiper realista, noir, sombrio, corajoso e emocionante. O vislumbre da cultura pop mundial por Batman se transforma em um choque poderoso de acertos na nova produção, onde Bruce Wayne é Robert Pattinson, mas por causa dos hematomas pesados ​escurecendo seu rosto pálido é como se ele estivesse usando uma máscara por baixo da máscara. Espancamentos sangrentos são esperados para um vigilante que vasculha as profundezas de Gotham à noite, mas esses ferimentos em particular podem muito bem ter sido infligidos de dentro. Esse Bruce Wayne não parece um playboy ou um bilionário, muito menos um herói, com seus cachos desleixados e ar de degradação da manhã seguinte, ele é mais como um viciado prestes a cair, ou um jovem astro do rock rebelde. O diretor, Matt Reeves, que escreveu o roteiro denso do filme com Peter Craig, reproduz essas associações sombrias do personagem com um trecho de Kurt Cobain cantando “Something in the Way”, um hit de angústia acústica em meio a escuridão. Charada (Paul Dano), logo nos coloca em um labirinto de corrupção financeira e política onde o filme se transforma em um delicioso thriller de investigação. Estamos em uma Gotham City dura e chuvosa sem a excentricidade gótica de Tim Burton ou o excesso de neon de Joel Schumacher. Vale a pena notar que The Batman não tem ação constante e são quase três horas de duração, embora tenha coragem de fugir da flutuabilidade pop em favor do realismo psicológico, o filme avança com uma seriedade que alguns podem confundir como pompa e pretensão. O elenco de alto nível ainda conta com Zoë Kravitz como Mulher Gato, o interessante Pinguim de Colin Farrel e o muito necessário James Gordon de Jeffrey Wright. Todas as peças se encaixam, o Batman de 2022 parece estar à beira de criticar o seu herói principal e os compromissos do seu próprio e inestimável privilégio, os amantes do cinema pipoca que lutem pois aqui está uma obra cinematográfica bonita e cheia de gatilhos inteligentes! 🦇🦇

👀 NOS CINEMAS - Breve HBO MAX

🏅 Hype: ÓTIMO

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

EUPHORIA - Segunda Temporada (Season 2)


EUFÓRICO 💥 Intencionalmente provocante, os novos episódios do seriado de sucesso da HBO/A24 conseguem mobilizar uma nova geração com elementos saborosos ainda que não seja para todos os gostos. Por mais que sejamos rápidos em celebrar atores experientes que impressionam infalivelmente em todos os papéis, às vezes deixamos de reconhecer adequadamente o novo grupo de talentos que se junta à indústria, especialmente aqueles que estão tão maduros em potencial. A atuação de Zendaya na segunda temporada de Euphoria organiza esse descuido. A ex-estrela da Disney não apenas surpreende, mas seu desempenho é uma confirmação sólida de que o futuro da indústria está em boas mãos. Podemos também apenas parar por um segundo e simplesmente apreciar as proezas de Zendaya como Rue Bennett, uma adolescente viciada em drogas tentando entender a dor da perda e da vida enquanto, ao mesmo tempo, está confiante em sua sexualidade. Tudo ganha contorno como um batismo de fogo no mundo da adolescência. Em meio a essa jornada de Rue, vários personagens estão às voltas com inúmeras lutas também, relacionamentos flácidos, desejos proibidos, lutas mentais e falta de confiança para simplesmente tentar sobreviver a uma situação ruim. Entre os destaques da temporada, difícil não enaltecer os inúmeros atos musicais que a produção proporciona, afinal, qual série seria capaz de viralizar um hino atemporal de Sinead O'Connor em um dos momentos mais emocionantes da TV em 2022 ou simplesmente resgatar para nova geração Bonnie Tyler e também exaltar o talento de Labrinth. Dentre os episódios todos possuem destaques além do maior ato dessa temporada, o episódio (05) "Stand Still Like The Hummingbird", digno de prêmio. Euphoria prega as nuances da vida adolescente com uma irreverência subjugada por regras ou normas sociais, é livre porém consciente e provocativa. Ela suprime suas emoções e atraí de forma viciante. 

                                                                    👀 8 Episódios no HBO MAX 

 🏅 Hype: ÓTIMO

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

K-FLAY - "Inside Voices e Outside Voices" (2022)


FAZENDO AS PAZES COM AS VOZES EM SUA CABEÇA - Para Kristine Flaherty, que se apresenta sob o apelido de K.Flay, seu ano de 2021 foi focado em lançar dois EPs. que agora nesse ano juntos formam o delicioso álbum: "Inside Voices e Outside Voices". Sua intenção era transformar o trabalho de um em "lado A" e o de outro em "lado B" e formarem um disco. O trabalho é uma mistura bastante energética de indie e hip-hop alternativo, com Inside Voices representando o lado mais impulsivo e Outside Voices incorporando o lado mais consciente. Com músicas lançadas em cenários diferentes, algumas antes das restrições leves do coronavírus e outras durante o pico da pandemia, é interessante como a artista os abrangem sem perder o "timing", a frustração de estar preso em um sistema capitalista, a estranha experiência de estar o tempo todo online, a dor de ser identificado erroneamente  dentre outros temas muito atuais dessa geração. Os atalhos por vezes simplistas alternados com um sabor residual de déjà vu pop transformam "Inside Voices" em uma experiência agradável. Já "Outside Voices" é um exercício de não repressão e lida com uma infinidade de emoções humanas, centralizadas nas próprias experiências de K.Flay. Dessa forma é um trabalho que explora bem a vertente do pop divertido com o pop reflexivo em faixas que  mostram o quanto a artista tem muito potencial em explodir.

Escute: TGIF e Nothing Can Kill Us

Hype: BOM

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Uncharted - Fora do Mapa (2022) de "Ruben Fleischer"

                                     

NOVA BUSCA AO TESOURO PERDIDO 💎😒 Se Uncharted não fosse uma franquia tão famosa e respeitada nos games, dificilmente encontraria espaço para expectadores que já se divertiram com Indiana Jones, Goonies, A Lenda do Tesouro Perdido e outras histórias similares. O filme é uma diversão inofensiva e boba que chega aos cinemas essa semana com a difícil missão de não ser comparada com tais títulos citados. É o típico filme que você já assiste com aquela sensação de "Déjà vu". A busca pela sua personalidade própria transforma "Uncharted - Fora do Mapa" em um projeto ambicioso, baseado em uma franquia de sucesso nos games com uma clara tentativa de romper sua bolha e flertar com franquias de sucesso do cinema Hollywoodiano. Esse cálculo sempre é bastante complicado quando envolve um produto tão consolidado em seu formato de origem, as altas expectativas dos fãs se transformam em uma bomba relógio prestes a explodir. Não faltou boas intenções, com um elenco promissor (porém sem química nenhuma 😑), extraindo o melhor de seu material (sem muito filtro 🤪), a aventura pode ser decepcionante para quem espera algo fora da caixinha mas entrega um entretenimento leve e divertido, tudo flui como aquele típico filme clichê sobre um explorador em busca de um tesouro perdido rodeado de adversários traiçoeiros com a mesma missão. Uncharted em sua versão cinematográfica atrairá principalmente os fãs dos astros Tom Holland e Mark Wahlberg porque seu apelo como filme de ação é bastante problemático. O nível de verdade some já quando começa e Holland salta de forma irrealista de caixa em caixa no ar, se desvia de um carro Alfa Romeo vermelho que de repente começa a sair de um avião diretamente em sua direção, alguém então agarra sua mão para salvá-lo e percebemos já no início do filme que tudo que será apresentado depois disso será uma mistura sem medida de Velozes e Furiosos e qualquer filme de aventura sobre tesouro perdido. 

 Obs: Assista na sala de cinema com a melhor imagem e o melhor som possível, a experiência sem dúvidas ganha bastante emoção! 😉 

👀 Exclusivamente nos Cinemas! (Streaming: HBO MAX) -🏅 Hype: REGULAR




sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

MØ - Motordrome (2022)

                                             

POP MULTIFACETADO 👅 Karen Marie Ørsted ou MØ não economiza elementos atraentes da música pop em seu terceiro álbum. Sintetizadores orquestrais, batidas exuberantes e quando necessário ampliação do seu alcance auditivo, evocando uma mistura de arrogância e bem-estar. Motordrome entrega uma mensagem fortalecedora em tempos que artistas sombrios ganham mais adeptos. MØ consegue leveza em sua paleta emocional. "Sinta meu pulso / perigoso / me beije debaixo dos dentes de leão / você é minha única paixão verdadeira", ela proclama em Youth Is Lost movendo-se entre contenção volátil e a catarse sensual. Hits providenciais como "Kidness", "Live to Survive" e "New Moon" se desenvolvem como baladas que flertam com o eletropop melancólico. Mesmo quando a cantora entrega a melancolia textual como em  “Goosebumps” ou na sexy "Hip Bones" ecoa sua voz de protagonista sem deixar a frequência baixar. Brad Pitt é uma ode à paixão de infância de MØ e ao relacionamento do ator com Juliette Lewis. A música contém o refrão: 'Se nunca conseguirmos, estou bem com isso'. Você tem a sensação de que – realmente – ela está longe de estar bem com isso." Estas são canções para noites escuras em grandes metrópoles, dançando através do desgosto de algoritmos de senso comum sem nunca deixar o drink no copo.  

 🎧 Escute: New Moon e Live to Survive 

 🏅 Hype: BOM


sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

TITANE (2021) de "Julia Ducournau"

 


VISCERAL OU DOENTIO? 🚘 Em Titane, a cineasta Julia Ducournau (Raw) apresenta a glória visceral, evitando a representação de poucas funções corporais, enquanto explora a identidade de gênero e a necessidade esmagadora de afeto em um mundo onde fazer a escolha errada sobre qualquer um deles pode ser fatal. Gratuito e com imagens perturbadoras, mas também projetado para distorcer as normas tradicionais, de tal forma que o filme se torne uma experiência para o público, somos desafiados a desviar o olhar e buscar o entendimento da interessante narrativa. Nossa heroína é Alexia (Agathe Roussel), quando criança ela incitou seu pai em um acidente automobilístico que a deixou com uma placa de titânio em sua cabeça. Já adulta ela mostra a cicatriz, enrolada como o lobo pré-frontal de seu cérebro sem por menores, ela se tornou uma serial killer. Enquanto sua família é confortavelmente de classe média alta, ela se rebela realizando danças exóticas com carros clássicos americanos na frente de uma multidão adoradora que não consegue entender as profundezas de sua psique danificada. Em meio a tudo isso, Alexia demonstra um tédio francês adequado, ficando irritada em vez de ansiosa quando seu último assassinato se torna complicado. Sua afeição se limita aos carros, desde o veículo em que foi ferida, até um Cadillac que a seduz depois de um assassinato. Isso muda quando seus crimes ameaçam alcançá-la, e ela foge, apenas para se ver adotada por Vincent (Vincent Lindon), um chefe dos bombeiros envelhecido que está convencido de que ela é o filho sequestrado dele 10 anos antes. Para um filme que arma a nudez impunemente, esta é uma obra distintamente não erótica. O corpo de Alexia, tão potente em conquistar os outros no início, rapidamente se transforma em seu inimigo. Ducournau não nos poupa de nada, Titane apresenta o carnal como um exercício intelectual, vicioso e incessante em externalizar a violência cultural sobre as normas de gênero em uma sátira estilizada que o deixará devidamente desconcertado e surpreendido. 
 
🏆 Vencedor da Palma de Ouro no último Festival de Cannes 👏
 
👀 Disponível no Mubi  - 🏅 Hype: ÓTIMO



quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

BELLE (2021) de "Mamoru Hosoda"

 


FÁBULA PÓS MODERNA SOBRE CURA - Belle é um filme nipo-francês realizado e escrito por Mamoru Hosoda (indicado ao Oscar de melhor animação por "Mirai", em 2019) e produzido pelo Studio Chizu, com base no conto de fadas francês "La Belle et la Bête" da autora Jeanne-Marie Leprince de Beaumont. A animação é um mergulho em uma realidade virtual vibrante chamada "U" e como Suzu vive os reflexos de uma vida apática no mundo real e em "U" consegue se realizar como Belle, uma cantora conhecida e adorada por milhões de usuários da plataforma. A emocionante narrativa entra em paralelo com à história de "A Bela e a Fera" em uma releitura para o universo de anime. Belle representa bem o típico clichê do jovem geralmente retratado na cultura pop japonesa ou coreana, cheio de sentimentalismo, desajustado, cercada por pressões, traumas e uma família incomunicável ou não presente. O que poderia ser banal se torna seu grande trunfo, é nesse universo virtual que se desenrola o verdadeiro conto de fadas, onde diversas questões se confrontam, amor e ódio, desejo e agressividade, vida e morte, essas forças que habitam no ser humano e estão presentes no cotidiano e nem sempre ultrapassam a barreira entre o real e o virtual. Essa bipolaridade é o centro dos conflitos psíquicos e sociais que vivemos atualmente, os jovens se escondem e se ocupam em redes sociais fúteis onde conseguem enorme visibilidade e viram "celebridades" e se esquecem de viver o real. Mamoru Hosoda entende o mundo caótico da internet e infiltra a narrativa com um verdadeiro turbilhão de telas, lives, sites de notícias e balões de comentários. Nesse mundo de simulacros, as histórias reais são engolidas pelo excesso de informação, em que a violência e o entretenimento recebem os mesmos patrocinadores. Esse dualismo se torna uma grande reflexão e faz-se presente questionamentos sobre as forças da vida e como a realidade virtual pode se tornar aparato para confundir, desunir e separar. Belle é mais que um deleite visual, é sobre a vida moderna.
 
👀 CINEMA - 🏅 Hype: ÓTIMO 👌 




quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

AURORA - The Gods We Can Touch (2022)

 


OS DEUSES QUE PODEMOS TOCAR - O enigma pop norueguês de Aurora retorna em seu terceiro álbum "The Gods We Can Touch" onde 15 canções usam mitos clássicos para ilustrar os problemas modernos sobre o mundo. A artista recentemente declarou à publicação Gay Times que o single Cure For Me lançado em julho de 2021, foi escrito após ela refletir sobre os horrores das terapias de conversão, onde profissionais prometem “curar” a homossexualidade. “Eu estava na Austrália e prestes a ir para o Brasil, onde tenho muitos fãs gays. Sentei-me em algum lugar pensando no mundo e no amor. Ela disse ainda que o Brasil passa por um “difícil clima político”, acrescentando que o presidente do Brasil é o “pior humano do mundo”. O single sombrio e melancólico 'Cure For Me' serve como o cerne do álbum - não apenas soltando uma bomba de libertação em seu refrão viciante, mas também servindo de inspiração para a temática da divindade grega. Um fato curioso sobre o álbum é que em cada uma das músicas faz referência a deuses diferentes da mitologia grega, o que cria o fio condutor da obra - caminhando e dialogando com essas narrativas. Por exemplo, em “On Exist For Love” é Afrodite, “Heathens” está ligado à Perséfone, “This Could Be A Dream” com Morfeu e “A Dangerous Thing” sobre Peitho. Essas músicas monumentais são totalmente fascinantes do início ao fim, com momentos sinceros e de profunda construção. Aurora transmite mensagens positivas através da arte contemporânea ousada e sonoramente irresistível. The Gods We Can Touch  é uma produção provocativa que explora as faces dos nossos sentimentos, como a vergonha, o desejo e a mortalidade presente em nossas vidas que paralelamente estão em diálogo com esses personagens da mitologia grega. Energias vibrantes e catárticas se exibem de forma maximalista neste terceiro álbum de estúdio, provando mais uma vez que Aurora assim como outras estrelas da música pop atual possuem força em sua voz embalada por sensações contundentes com algo realmente importante a dizer a essa geração. 
 
🎧 Escute: CURE FOR ME e GIVING IN TO THE LOVE.
 
👌 Hype: ÓTIMO 
 

 


terça-feira, 25 de janeiro de 2022

SPENCER (2021) de "Pablo Larraín"

 


O TERROR DA REALEZA - Quem espera uma biografia tradicional sobre a Princesa Diana em Spencer se depara com uma fábula que é quase um filme de terror, sobre uma princesa que vive uma tragédia pessoal e intima longe do rótulo Princesa do Povo (como o ex-primeiro-ministro Tony Blair a batizou). Sua dor é ouvida de perto com a respiração pesada, olhar vazio e a solidão da redoma dos muros do palácio real, que na verdade encurralam o seu verdadeiro eu: Spencer. O diretor, Pablo Larraín recria o seguinte cenário: ano de 1991 durante as festividades natalinas. A família real reúne-se na propriedade de Sandringam, em Norfolk. E passam-se aqueles que seriam os últimos dias do casamento de Diana e Charles. Esta é a hipotética história de uma mulher acorrentada por convenções e formalismos, adormecida em nostalgia e apressada numa busca incessante pelo autoconhecimento. Na abertura do filme, uma perdiz fica ingenuamente no meio da estrada antes de ser prontamente esmagada por um caminhão. Pronto, tal metáfora já implica em afastar Spencer de uma biografia tola. A atriz Kristen Stewart (Maravilhosa no papel!) vive uma princesa em crise; sofrendo de um distúrbio alimentar, perseguida pela mídia e com assustadoras alucinações. Embora o filme mostre a família real ela aparece como uma presença incidental. Diana está muitas vezes sozinha. Seu marido, Charles, Príncipe de Gales (Jack Farthing), oferece fiapos periódicos de atenção e desânimo com ela. Seus filhos não entendem suas angústias. Sua única confidente é Maggie (Sally Hawkins) que pouco sustenta sua inquietude. O simbolismo bombástico do filme dispensa o decoro, as intenções problemáticas de Larraín vêm à tona, dispensando de representar respeitosamente a realeza. As ocasionais explosões de exuberância e transgressões tolas do filme estão de acordo com a desobediência de Diana. Um presente de Natal comprado em um posto de gasolina ou um passeio solitário à meia-noite são subversivos suficientes para quebrar qualquer glamour de uma vida de princesa e mostrar que a arte pode ser encontrada sob qualquer lente ou olhar. Uma OBRA PRIMA! 👏👏
 
👀 CINEMA - 🏅 Hype: ÓTIMO 👌



 


quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

BENEDETTA (2021) de "Paul Verhoeven"

 


PROFANO E AUTOCONFLITANTE! 🙏 O drama/suspense erótico de Paul Verhoeven sobre o relacionamento entre duas freiras lésbicas em um convento italiano do século XVII ( Esse caso se tornou um dos primeiros casos documentados de lesbianismo da civilização ocidental moderna depois que um escrivão da paróquia escreveu sobre isso em seu diário) troca o típico romance contido em filmes de época que tratam o amor entre duas mulheres por um enumerado de cenas provocadoras e até certo ponto com interessante reflexão e fetiche de uma sociedade fascista pela dor e pelo fanatismo. Encarnada por Virginie Effira, Benedetta é uma crente devota no amor de Jesus que nem sempre tem certeza da melhor forma de retribuí-lo. Uma certa grandiosidade acompanhou sua fé desde que ela foi aceita no convento. A única guerra que Benedetta tem que travar é aquela contra a integridade de suas próprias crenças, mesmo que esse conflito interno se transforme em uma luta pelo poder com a "chefe" do convento, a freira L"abbesse (Charlotte Rampling, em atuação apagada). Em meio a sua estranha conexão com a religião, se envolve com a inocente e traumatizada, Bartolomea (Daphne Patakia). Há um choque instantâneo de intimidade entre essas duas belas mulheres, embora nunca se transforme em algo sentimental. Como Benedetta lida com seu sofrimento pessoal é o caminho para conhecer o seu Cristo particular, inclusive o diretor Paul Verhoeven apresenta uma das cenas mais interessantes do filme, a aparição de um Jesus "diferente" (sem mais detalhes para não estragar a experiência de quem não viu o filme ainda). O que Benedetta deve fazer com seu prazer? Verhoeven obviamente rejeita a ideia de que nossos corpos não devem ser desfrutados isso rende momentos intensos de erotismo e nudez. Com todos esses elementos e a experiência de Verhoeven em ficção científica intensificam o hype de Benedetta, porém seu argumento reforçado por um terceiro ato exagerado conflita muito com toda a estrutura apresentada. Se a história se aproxima dos relatos verídicos, é decepcionante acompanhar o excesso de culpa que carrega o seu desfecho, quase jogando tudo a perder. 

👀 CINEMA (Streaming: Telecine) - 👌 Hype: BOM




terça-feira, 11 de janeiro de 2022

EDUARDO E MÔNICA (2022) de "Renê Sampaio"


QUEM UM DIA IRÁ DIZER 🎵  A "canção-história" Eduardo e Mônica de Renato Russo do álbum "Dois" da banda Legião Urbana ganha um belo filme sobre a vida, sobre encontros, desencontros, sobre o amor e sobre Brasília. O diretor Renê Sampaio que também realizou a adaptação de Faroeste Caboclo (2013), mostra toda a força da composição atemporal de Renato Russo e transforma o filme em um romântico e dramático conto urbano. O adolescente Eduardo (Gabriel Leone) e a descolada adulta Mônica (Alice Braga) se encontram por acaso, apaixonam-se loucamente e vivem os altos e baixos de uma relacionamento na década de 80. O diferencial do filme é não se apegar a canção adaptada deixando a memória afetiva do espectador transitar enquanto rola a história. Obviamente cada trecho da música tem sua abordagem, a história se desenvolve no passo a passo como qualquer comédia romântica, as diferenças de personalidades começam  a gerar atritos que qualquer relacionamento pode ter ("A barra mais pesada que tiveram" da letra da música). Essa barra mais pesada ganha uma profundidade interessante imposta no filme, Mônica é estudante de medicina mas também é artista performática, filha de um artista plástico exilado pela ditadura militar. Eduardo não apenas "jogava futebol de botão com seu avô", mas foi criado por ele, militar da ditadura reformado (papel de Otávio Augusto). Esse conflito de ideais político soa como uma clara provocação a polaridade que vivemos atualmente. O drama sincero é de fácil apego e esconde algumas problemáticas que são detalhes que passam despercebidos, seja em incoerências no roteiro ou no excesso de didatismo. Com uma excelente reconstrução de época, Brasília está linda, vanguardista e provinciana como deve ser, a trilha de rock oitentista é deliciosa assim como as diferenças tecnológicas da época, além da ótima química dos protagonistas. Uma carinhosa e reconfortante forma de voltar no tempo e lembrar da poesia musical de Renato Russo. 

👀 CINEMA (Streaming: Telecine) - 👌 Hype: ÓTIMO 



segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

THE WEEKND - "Dawn FM" (2022)

 


ESTAÇÃO DE RÁDIO DO PURGATÓRIO - O quinto álbum de estúdio do cantor canadense The Weeknd é mais um trabalho conceitual que enriquece sua veia melódica e sua angústia existencial. O trabalho funciona como uma estação de rádio, com direito a vinhetas, interlúdios e até comerciais fictícios. Logo na primeira faixa, podemos ouvir o apresentador de um programa recebendo os ouvintes: “Você está ouvindo agora a 103.5, Dawn FM”. A voz, que pontua diversas faixas do álbum, é do comediante Jim Carrey, amigo pessoal do cantor. O trabalho tem diversas participações especiais.  Abel Tesfaye está mais seguro do que nunca como artista na linha de frente da música  pop, Dawn FM chega como o primeiro grande lançamento do ano. É uma produção grandiosa e ousada, com canções que se complementam e se alternam entre potenciais hits e baladas. A primeira metade do álbum é mais agitada. Ele segue oitentista em "How do I make you love me" e "Sacrifice", alternando em tons extremos, "Take my breath" já lançada em 2021 é a mais dançante. "A Tale by Quincy" traz Quincy Jones, para falar sobre lições de vida. "Out of time" puxa a segunda metade do álbum, mais calma. A ideia do álbum surgiu a partir de um período depressivo de The Weeknd durante a pandemia, no qual ele começou a imaginar um mundo de fantasia onde essa FM era a única trilha sonora enquanto caminhava em direção à luz no fim do túnel. Nessa vertente surge alguns versos sobre a vida após a morte que parecem estar ligadas aos assuntos atuais somado ao bloqueio causado pelas incertezas. “Você esteve no escuro por muito tempo, é hora de entrar na luz”, diz a faixa-título de abertura, e complementa (“agora que todos os planos futuros foram adiados, em breve você será curado, perdoado e revigorado, livre de todo trauma, dor, culpa e vergonha"). Então, talvez esse acontecimento signifique maturidade nascida de uma experiência amarga. O The Weeknd transita da asfixia erótica a drogar-se a se sentir ferido. Dawn FM é uma maneira fantástica de celebrar o auge da carreira do cantor com belas melodias e canções.

🎧 OUÇA: "Gasoline" e "Take my Breath"

 👌 Hype: ÓTIMO


quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

SOBRE A ETERNIDADE (2019) ou "Da Eternidade" ou "Om det oändliga" de "Roy Andersson"

 


SOBRE O INFINITO ⏳ O cineasta Roy Andersson entrega reflexões humanas do que somos e fazemos para continuar aqui em uma sátira que reflete um pedaço de cada um de nós, por inteiro. O filme tem sempre metade da tela nublada e cores opacas, sem definição dos cenários pra parecer mais importante o que acontece dentro de cada situação. A psicologia analítica de Carl Jung,  preenche algo que sempre fez parte dos questionamentos humanos sobre o inconsciente coletivo, presente nessa obra. Agradecer pela vida, lutar pra continuar aqui e não ir além do que a fantasia nos permite pra nos confortar de que não teremos mais esses sentimentos e sensações que nos proporcionam a sentir algo. O religioso e seu questionamento por perder a fé, o jovem que encontra o amor pela primeira vez, um rapaz tocando instrumento no metrô pra não lembrar da dor de saber que uma mina arrancou suas pernas, a sensação reconfortante de escutar música, jovens dançando, o início da vida com a celebração de ser criança, termodinâmica, o casal apaixonado sobrevoando a cidade em ruínas, a queda de um ditador, a indecisão e a incompreensão numa briga em local público, a chuva forte e o sacrifício do pai ajudando sua filha, feminicidio e a honra da família questionada pelo arrependimento. Esses esboços permitem ao espectador ir além do proposto pra continuar o desenvolvimento de cada história. Todas as sensações que nos mantém vivos, seja pelo amor, solidão ou crueldade, são de alguma forma elevadas ao máximo pelo diretor. O filme tem quase um desenvolvimento hermenêutico para interpretá-lo, passeando pela filosofia de Martin Heidegger, onde discursa sobre nosso existencialismo. É forte e enumerado para esboçar como vivemos cada um à sua maneira. Uma obra prima que deve ser conhecida por quem realmente ama cinema e uma das maiores injustiças do mercado de exibidores do Brasil, não  lançando o filme para o público em geral mesmo após 2 anos do lançamento na Europa! 
 
👀 Não lançado no Brasil até o momento! Exibido em festivais! 
(Lançado no país de origem em 2019) 
 
🏅 BEST OF 2021 (Menção Honrosa)




segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

ATAQUE DOS CÃES (2021) - "The Power of the Dog" de "Jane Campion"


VINGANÇA🧵 Sobre o cão que ladra e não morde e o cão que não ladra mas morde. O faroeste sútil e provocador foca nas nuances de seus personagens e nas paisagens de tirar o fôlego, a direção de Jane Campion (O Piano), deixa o expectador hipnotizado com a tensão entregue graças também ao forte elenco e sua trama arrebatadora que segura a tensão até o seu final. Campion, cuja carreira inteira tem sido sobre encontrar maneiras sutis de arrancar o que não está sendo expresso, ou que talvez não seja nem mesmo expressável, talvez seu hiato longe das câmeras, sem muita pressa e ansiedade de novos projetos é a constatação de uma cineasta atemporal. De mãos dadas com personagens que se disfarçam e se distorcem, Campion constrói questões narrativas opacas e ambíguas. As nuances entrega muitas cenas de contemplação e um conjunto cinematográfico espetacular. Grande força do filme está em seu elenco. Benedict Cumberbatch entrega uma atuação única e brilhante. Em suas mãos, o personagem transita entre protagonista e antagonista da mesma história de forma admirável, o suporte vem na atuação doce e quase discreta de Jesse Plemons, que vive seu irmão. Kirsten Dunst também faz um excelente trabalho como o alvo de tamanha fúria, e sua transformação gradual causada pelo peso constante do cunhado é tão sutil que lembra o de alguém se envenenando aos poucos. É possível visualizar sua expressão de forma acentuada conforme a história acontece. Seu filho interpretado por Kodi Smit-McPhee é quem aos poucos assume o papel mais revelador da trama. Inicialmente caçoado por causa de seu jeito frágil, considerado impróprio para o velho oeste, e consciente do sofrimento da mãe, ele é inevitavelmente atraído pelo magnetismo do novo tio. É tudo muito nervoso e pesado, ainda mais por uma aplicação excepcional da fotografia e as belas composições de Jonny Greenwood, músico da banda Radiohead. O filme é profundamente baseado em sua abordagem para os dois irmãos, suas visões mútuas e o que realmente significa ser uma figura masculina (tóxica ou não) na sociedade.

👀📺 Netflix 🏅 BEST OF 2021



 

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

MATRIX RESURRECTIONS (2021) de "Lana Wachowski"

 

"Novo Matrix busca novos caminhos e se perde em um rumo sem brilho"

      O primeiro Matrix foi lançado no final da década de 90 e revolucionou a indústria Hollywoodiana com efeitos especiais inovadores e com bastante filosofia em sua história, o filme estremeceu a cultura pop da época ao mostrar uma realidade onde poderíamos ser manipulados pelas máquinas, isso deixou de ser algo do futuro e se provou uma grande realidade nos dias de hoje. Tanto tempo depois o desafio de trazer esse universo de volta tentar ser relevante para os tempos atuais. Infelizmente a trajetória de Matrix já se mostra problemática dentro de sua trilogia clássica, Matrix Revolutions que fechou a trilogia não foi unânime, deixou tudo muito confuso e não passou nem perto do original. A nova produção entra na onda recente de Hollywood em reciclar franquias antigas, seja através de sequências, de remakes ou de reboots. Sem qualquer elemento "fenomenal" que justifique sua existência a produção não se conecta visualmente com a trilogia original visto que a fotografia é bastante diferente e inferior ao que já foi feito e sobra aos flashbacks tentar tal conexão com a trilogia original. O filtro esverdeado que marcou a simbologia original dá espaço para um tom azulado meio cafona. O filme surge com uma narrativa cômica e uma escala bem mais intimista que os filmes anteriores, até devido a pandemia do Covid-19 que afetou sua pós produção. Ainda que a história traga boas discussões, o uso de uma metalinguagem esquisita não funciona como deveria e representa alguns erros nas escolhas que fazem a experiência ser inferior as expectativas.


Ao final de Matrix Revolutions, Neo acaba morrendo para salvar a humanidade e dar fim à guerra contra as máquinas. Logo, o novo filme da franquia se passa alguns anos após os eventos conclusivos do terceiro longa. Para descobrir se sua realidade é uma construção física ou mental, o Sr. Anderson, também conhecido como Neo, terá que escolher seguir o coelho branco mais uma vez. Se ele aprendeu alguma coisa, é que a escolha, embora seja uma ilusão, ainda é a única maneira de sair - ou entrar - na Matrix. Neo já sabe o que deve fazer, mas o que ainda não sabe é que a Matrix está mais forte, mais segura e muito mais perigosa do que nunca. Keanu Reeves retorna ao papel de Neo e Carrie-Anne Moss assume novamente o papel de Trinity. As novidades incluem Yahya Abdul-Mateen II, como Morpheus, Neil Patrick Harris, de How I Met Your Mother e diversos atores de Sense 8, série da Netflix criada pelas irmãs Wachowski. Quase 20 anos depois do terceiro filme, a diretora Lana Wachowski retorna para a Matrix. O motivo por trás dessa volta à franquia está ligado a uma tragédia pessoal dela. Lana revelou que o filme foi inspirado por três perdas na vida dela, do pai, de um amigo e da mãe dela. Com isso, a mente da diretora voltou-se à Matrix. Ainda que o relato de Lana faça sentido o filme mostra outras nuances desse retorno da franquia.


Nos primeiros 45 minutos ou mais, Matrix Resurrections segue com uma metalinguagem onde Neo confunde as linhas que separam a realidade, a ficção e os sonhos. Essa dimensão pode até ser aprimorada mas quando a história começa, Neo (Reeves) está mais uma vez vivendo a vida inútil e sem alma de “Thomas Anderson”, tendo sido conectado de volta à simulação algum tempo depois dos eventos de Revolutions. Neste programa específico, Thomas Anderson é um desenvolvedor de jogos de renome mundial, aclamado por seu trabalho visionário em uma trilogia de videogames. Presumindo que teve um surto psicótico depois de completar a trilogia Matrix, Thomas toma seus comprimidos azuis todas as manhãs e visita um terapeuta (Neil Patrick Harris), que explica que às vezes os criativos ficam tão imersos em seu trabalho e que perdem a capacidade para discernir a imaginação da memória. Então, o parceiro de negócios de Anderson, Smith (Jonathan Groff), o chama em seu escritório e anuncia que “ a controladora do negócio, Warner Bros. decidiu fazer uma sequência de Matrix. Assim começa a jornada mais gratificante do filme, quando Wachowski coloca todo o seu ressentimento sobre a existência de Matrix Resurrections. Lana e sua irmã Lilly declararam várias vezes que não tinham interesse em continuar Matrix como uma série de filmes. Resurrections se mostra que a única razão pela qual Lana voltou para um quarto filme foi porque a Warner Bros. o teria feito com ou sem sua participação. Matrix Resurrections é um compromisso calculado e nem sempre divertido. Falha na encenação da ação com coreografias menos legíveis e um olhar minimalista ao seu universo e pode ser um sinal de esperança. Uma esperança confusa e vulnerável, que ainda deve cativar algumas pessoas mas em sua totalidade deixa de ser atrativo como deveria. GENÉRICO.


O filme entra em cartaz exclusivamente nos cinemas hoje 22/12! Em breve no HBO MAX.

O Meu Hype conferiu o filme em sua sessão de imprensa realizado pela Warner Bros. e Espaço Z.

Hype: REGULAR / BOM (🌟🌟🌟) (Nota: 6,0)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

AMOR SUBLIME AMOR (2021) "West Side Story" de "Steven Spielberg"


 Revisitação da história por Spielberg é impecável em quase todos aspectos ainda que seja um programa direcionado a amantes de musicais.

        AMOR, SUBLIME AMOR é uma adaptação cinematográfica de um musical da Broadway baseado em "Romeu e Julieta" e explora as consequências de um amor avassalador e proibido entre jovens representantes de gangues inimigas, os brancos (Jets) e os porto-riquenhos (Sharks), na Nova York da década de 1950. A história já ganhou vida nos cinemas no filme 1961 dirigido por Jerome Robbins e Robert Wise, exaltado na época do lançamento, o filme ganhou dez Oscars em 1962, incluindo o de Melhor Filme e se tornou um clássico do cinema. Esse tipo de projeto de atualizar obras definitivas sempre é muito questionável, ainda que Amor Sublime Amor encontre-se meio datado para essa geração atual, nesse ponto é bem-vinda diferença na retratação da comunidade latina por Spielberg abandonando os estereótipos e com uma rotina mais presente e viva na tela, o bairro de imigrantes ganha contornos mais reais. Muito ajuda também a escalação de um elenco realmente latino para os papéis necessários, alguns outros detalhes obviamente seriam uma missão bastante complicada e objeto de comparações. Mesmo com as mudanças necessárias, alguns expectadores ainda devem ter dificuldades para engolir a paixão avassaladora de poucas horas entre o casal de protagonistas e momentos clássicos para uma geração pouco  acostumada a passos de balé e ao ritmo do jazz. Com mais de duas horas e meia, "Amor, sublime amor" não é um exatamente um filme fácil para quem não está acostumado às grandes montagens da Broadway.



      Dirigida pelo vencedor do Oscar,  Steven Spielberg, a partir de um roteiro do vencedor do prêmio Pulitzer e de um Tony, Tony Kushner e adaptado de um musical da Broadway, Amor, Sublime Amor, conta a clássica história de rivalidade e amor juvenil na cidade de Nova York em 1957. As gangues Jets, estadunidenses brancos, e os Sharks, descendentes e/ou porto-riquenhos, são rivais que tentam controlar o bairro de Upper West Side. Maria (Rachel Zegler) acaba de chegar à cidade para seu casamento arranjado com Chino (Josh Andrés Rivera), algo ao qual ela não está muito animada. Quando em uma festa a jovem se apaixona por Tony (Ansel Elgort), ela precisará enfrentar um grande problema, pois ambos fazem parte de gangues rivais; Maria dos Sharks e Tony dos Jets. Nesta história inspirada por Romeu e Julieta, os dois pombinhos precisarão enfrentar a tudo e todos se quiserem celebrar este romance proibido. A nova adaptação do cativante musical ainda é protagonizada por: Ariana DeBose (Anita), David Alvarez (Bernardo), Mike Faist (Riff), Ana Isabelle (Rosalía), Corey Stoll (Tenente Schrank), Brian d’Arcy James (Oficial Krupke) e Rita Moreno (como Valentina, a dona da loja da esquina onde Tony trabalha).


        A nova versão não é perfeita. A partir do relacionamento complicado entre o casal de protagonistas, ainda há personagens menos interessantes da trama, o enredo está mais interessado em explorar as complexidades da rivalidade desnecessária entre os grupos marginalizados jogados uns contra os outros por aqueles que detém o poder. O caráter histórico respeitado por Spielberg corre poucos riscos dentro da complexidade dos assuntos atuais de nossa sociedade. Algo positivo são as nuances do novo elenco, mais dinâmico, sendo brilhantemente fotografado com um  visual deslumbrante. Nesse sentido, é possível dizer que a nova versão supera em muito a original, com seu olhar mais delicado e distanciado pelo tempo e pelas convenções sociais atuais, sobre as delicadas dinâmicas da época. Ainda assim falta uma firmeza consistente no discurso da real rivalidade das gangues e de todo propósito da guerra entre os personagens. Assistir a nova versão da emblemática história de amor musical, 60 anos após a estreia da versão original se torna uma experiência muito interessante e cinematográfica. Steven Spielberg se sai bem ao deixar sua zona de conforto e enfrentar, pela primeira vez, o desafio de produzir e dirigir um musical. Esta revitalização é pouco atualizada, o filme reproduz o ambiente original do período com impressionantes manipulações digitais de Nova York do final dos anos 50, cujos detalhes autênticos coexistem com uma teatralidade descarada. Falta um pouco de Cultura Pop e as músicas são adultas demais, pode se tornar cansativo e não muito divertido em alguns momentos, ainda assim é um espetáculo muito recomendado para qualquer fã de musical. VÍVIDO E LINDO.


O filme entra em cartaz exclusivamente nos cinemas hoje 09/12!

O Meu Hype conferiu o filme na Cabine de Imprensa realizada pela Disney e Espaço Z! 

Hype: MUITO BOM (🌟🌟🌟🌟) (Nota: 8,0)