A leveza da infância, o sopro da liberdade e o brilho do Nordeste no cinema, existe uma tendência no cinema brasileiro de retratar o interior do Nordeste através da lente implacável da dureza, da seca, da pobreza e da violência. Mas Feito Pipa escolhe um caminho corajoso e luminoso. Ao fazer isso, entrega uma história bonita que olha para essa mesma região e enxerga espaço para brilho, glitter e liberdade.
A metáfora da pipa, que dá título ao filme, ganha contornos poéticos logo na cena em que o protagonista Gugu (interpretado com muita sensibilidade por Yuri Gomes) a prepara para voar. O colorido, a dança ao sabor do vento e o fio controlado pelas mãos de quem a segura dizem muito sobre aquele menino de 11 anos. A imprevisibilidade do vento representa o mundo de Gugu e do conservadorismo social.
Logo na abertura, somos cativados por Gugu dançando com trejeitos livres e femininos ao som de hits dos anos 1980 (músicas que pertenciam à memória de sua mãe, já falecida). A partir daí, o roteiro costura com delicadeza uma rede densa de temas: a ausência materna, a convivência com a avó Dilma (vivida por Teca Pereira), que é extremamente protetora mas enfrenta os avanços do Alzheimer, e a figura de um pai (Lázaro Ramos) que tenta forçar uma masculinidade rígida sobre o filho.
Apesar de um certo incômodo com o ritmo em alguns momentos e da opção por um final aberto que deixa algumas pontas, o cinema brasileiro contemporâneo encontra neste recorte da infância um espelho perfeito dos conflitos do nosso tempo: o garoto que enfrenta o bullying na tela representa muito mais do que a si mesmo; ele ecoa a voz de uma comunidade que clama por atenção, afeto e respeito.
Meu Hype: ⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️ HYPE
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