sexta-feira, 14 de março de 2025

VITÓRIA de Andrucha Waddington


O possível último filme da carreira da atriz Fernanda Montenegro (95 anos) apresenta uma atuação forte e marcante de uma lenda do cinema brasileiro em uma história reflexiva e típica do Brasil, sobre  coragem, força e resiliência.


Vitória é um filme que mergulha na história real de Joana da Paz, uma mulher que desafiou o tráfico de drogas em uma favela do Rio de Janeiro. Aposentada, ela desmontou uma quadrilha carioca de traficantes e policiais a partir de filmagens feitas da janela do seu apartamento. Solitária e aflita com a violência, passa seus dias em busca da paz perdida em sua própria casa, enfrentando constantes tiroteios e criminalidade à beira da sua janela. Essa jornada, que representa a vida de milhares de brasileiros, é retratada nesta obra de forma sensível, sincera e dura.

Fernanda Montenegro é o coração deste filme; ela se entrega com paixão em sua atuação. E, ainda que seja um filme simples, que mostra o poder do cinema em contar histórias de personagens da vida real, muitas camadas desse cenário são deixadas de lado, transformando Vitória apenas em um palco para a personagem principal. Essa escolha artística é um tanto acertada, tendo em vista que outros filmes clássicos do cinema brasileiro focam na história do tráfico no Brasil de forma mais complexa e detalhista. O foco em Vitória está no olhar humano de uma senhora idosa vivendo nesse contexto pesado e, infelizmente, normalizado.

Andrucha Waddington (Eu, Tu, Eles/Sob Pressão) assumiu o posto como realizador do filme após a morte de seu amigo, o diretor Breno Silveira, em 2022. Seu trabalho é bastante satisfatório; é um filme que carrega sua assinatura ao conduzir vidas humanas no caos do cotidiano de uma metrópole. Os atos de coragem de Joana da Paz, que viveu seus últimos dias em um programa de proteção à testemunha, por si só, já são uma narrativa interessante e, com o brilhantismo de Fernanda Montenegro nessa personagem, transformam Vitória em mais um "hit" do cinema brasileiro. Deve dividir opiniões e encantar na mesma medida.


Muito Bom! ⭐️⭐️⭐️⭐️

Em cartaz nos cinemas brasileiros! 

quarta-feira, 12 de março de 2025

BETTER MAN - A HISTÓRIA DE ROBBIE WILLIAMS de "Michael Gracey"

 


A biografia do popstar britânico Robbie Williams é uma produção ousada e criativa que substitui sua estrela principal por uma criação de efeitos visuais: um macaco.

"Better Man" é baseado na história real da ascensão meteórica, da queda dramática e do ressurgimento notável do astro pop britânico Robbie Williams, um dos maiores artistas de todos os tempos. Sob a direção visionária de Michael Gracey (O Rei do Show), o filme é contado exclusivamente da perspectiva de Robbie, capturando sua sagacidade característica e espírito indomável. Ele segue a jornada de Robbie desde a infância até se tornar o membro mais jovem da boyband líder das paradas britânicas, Take That, e suas realizações inigualáveis como um artista solo recordista — ao mesmo tempo em que enfrenta os desafios que a fama e o sucesso estratosféricos podem trazer.

A superprodução utiliza números musicais de alta performance, com energia e tecnologia de calibre próximo ao trabalho impecável dos filmes recentes da franquia "Planeta dos Macacos", e transforma Williams (Jonno Davies) em um primata crível. O filme, inclusive, foi indicado ao Oscar 2025 na categoria de Efeitos Especiais. Além da qualidade técnica, o roteiro é bem escrito, cheio de vulnerabilidade e verdades desconfortáveis o suficiente sobre o passado de Williams para não parecer um projeto de vaidade total. O filme não é chapa branca em relação aos problemas de Williams, e o popstar não tem problemas em incluir aspectos de seu passado, como seu relacionamento tóxico com rivais, como a banda Oasis, ou mesmo o uso excessivo de drogas e a falta de responsabilidade com os fãs.

A primeira metade do longa é bem divertida e, depois, fica muito centrada nas alucinações do cantor e nos anseios de sucesso. Algumas cenas são surpreendentemente gráficas, mas poderosamente imaginativas, e a maneira como essas versões aparecem realmente incorpora o que é estar em guerra consigo mesmo. Um filmaço!


MUITO BOM ⭐️⭐️⭐️⭐️

Em cartaz nos cinemas do Brasil em 13/03!

terça-feira, 11 de março de 2025

O MELHOR AMIGO de Allan Deberton


O musical LGBTQIA+ é uma divertida comédia onde seus protagonistas precisam encontrar em si mesmos as respostas para seus sentimentos ao som de hits nacionais.


O filme se passa na praia de Canoa Quebrada, quando Lucas e Felipe se reencontram, fazendo acender antigos desejos. Enquanto Lucas se joga neste paraíso solar e musical em busca de uma paixão ardente e incerta, Felipe, com sua presença misteriosa, parece disperso e receoso em relação aos seus sentimentos. Esse enredo bem "água com açúcar" ou, melhor, "água de chuca", rende bons momentos; ainda que apresente muitos estereótipos do gay masculino, quase sempre resumido à busca incessante por sexo e paixões momentâneas com pouca profundidade.

Na história, Lucas (Vinicius Teixeira) é um rapaz tímido e deslocado. Após romper com o namorado e seguir em viagem para o Ceará, o personagem mostra uma certa insegurança em sua decisão e, aos poucos, vai permitindo-se viver outras histórias, seja em aplicativos de encontros ou mesmo acidentalmente encontrando seu amigo das antigas, Felipe (Gabriel Fuentes), que exala sexualidade; ele tanto pode ser sedutor a ponto de ninguém duvidar de suas intenções, como, no instante seguinte, desaparecer e refugiar-se em si mesmo. Essa dinâmica entre os dois é customizada por sentimentos que são expressos em números musicais que servem para a fuga do real.

Nessa jornada, com um dilema que perde intensidade e se torna bobo e pudico, Lucas ainda tem a ajuda de coadjuvantes que servem para confrontar seus medos. Cláudia Ohana, Solange Texeira, Mateus Carrieri e Gretchen, além de alguns outros nomes da comunidade LGBTQIA+, estão presentes. Embora muita expectativa tenha sido gerada em relação ao novo projeto do diretor Allan Deberton, que nos trouxe a obra-prima "Pacarrete" (2019), "O Melhor Amigo" merece destaque pela investida em um musical gay, com números de canto e dança, em moldes raros no cinema brasileiro. Sua atmosfera cafona e com referências acessíveis ao grande público do mundo "queer" são seus pontos fortes. Se a intenção era realizar um exemplar da "sessão da tarde", leve e divertido, sem maiores pretensões, esse objetivo foi alcançado.



BOM ⭐️⭐️⭐️

Em cartaz nos cinemas em 13/03!

quinta-feira, 6 de março de 2025

MICKEY 17 de "Bong Joon-ho"

Bong Joon-ho, um dos melhores cineastas dessa geração está de volta em uma aventura de ficção científica irônica, que beira o genial mas esbarra em inconsistências, fugindo das questões que abrange.

Mickey 17, embora seja um conto de gênero pesado em sátira, não é tão afiado quanto se poderia esperar de um diretor que já entregou filmes geniais como O Hospedeiro (2006) e Parasita (2019). Em uma história que lida com identidade, consciência e o que significa ser humano, esse terreno fértil para uma exploração elevada e instigante se esvazia em meio a uma trama nonsense. Não que seja um grande problema, tudo vai ganhando forma durante o filme mas compromete o resultado final que foge do minimalismo elegante das obras de Bong.

O espetáculo visual da ficção científica é gratificante e coroado com uma atuação muito boa de Robert Pattinson, que interpreta Mickey Barnes, um perdedor que aceita um emprego mal pago em uma missão de colônia interplanetária. Ele é um "dispensável", regularmente jogado em situações perigosas sem se preocupar com seu bem-estar. Cada vez que ele morre, um corpo novo é impresso e infundido com uma gravação de suas memórias. Quando em uma missão ele de forma improvável sobrevive e retorna para sua nave de colônia, ele descobre que já foi substituído: uma duplicata recém-impressa está morando em seus aposentos e dormindo com sua namorada Nasha (Naomi Ackie). Uma situação grave que precisa ser contornada rapidamente.

Em algum lugar depois da primeira hora, Mickey 17 nunca se endireita. Nessa parte da trama existe problemas com alguns personagens, principalmente o interpretado por Mark Ruffalo, entregando uma performance exagerada e desequilibrada e Toni Collette muitas vezes irritante no papel. O aspecto caótico desses personagens existem com muitos malabarismos em tópicos de liberdade, política e religião, embora ofereça bastante espetáculo também.

No geral, o roteiro abandona quase completamente os temas mais inebriantes e se torna totalmente simplista e com soluções fáceis ainda que atrativas, é ambicioso, provocativo e estimulante.

Um bom entretenimento. ⭐️⭐️⭐️


👀 Em cartaz nos Cinemas! 🎬