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sexta-feira, 1 de maio de 2020

CORPUS CHRISTI (2019) - "Boze Cialo" de "Jan Komasa"


Filme polonês é uma intensa surpresa seja pela atuação vibrante do ator Bartosz Bielenia ou pelo interessante relato de um jovem perdido em seus caminhos que busca conforto na religião em uma história que foge da linha reta.

O filme já havia chamado a atenção quando foi escalado para concorrer na Categoria Filme Internacional no Oscar 2020, tirando escolhas certeiras e favoritos a categoria, dirigido pelo quase desconhecido Jan Komasa, o filme foi um sucesso no país de origem e chamou bastante atenção no tradicional Festival de Veneza participando também de outros festivais como o TIFF em Toronto com forte comentário da crítica, principalmente por ser um filme agradável de assistir mesmo com um tema bastante forte. Inspirado em fatos reais, a trama segue Daniel (Bartosz Bielenia), um rapaz problemático de 20 anos que usa a religião como meio de sobrevivência enquanto cumpre pena em uma prisão para adultos e jovens delinquentes. Mesmo trancafiado por razões semelhantes que os demais presos, ele não é como a maioria deles, seu passatempo entre as atividades na prisão e ser hostilizado pelos colegas de confinamento é orar em seu quarto e cantar hinos religiosos enquanto ajuda o pregador da prisão durante seus sermões. Sem uma rigorosa disciplina de ser um “homem de Deus”, logo após sua libertação ele recebe um chamado para seguir sua vida no norte do país em uma cidade tranquila. Ele aposta na sorte e em vez de treinar para ser um humilde carpinteiro como Jesus, ele espalhará sua palavra como um apóstolo 2.0 se vestindo de padre e acidentalmente assumindo uma paróquia local. A chegada do jovem e carismático pregador é uma oportunidade para a comunidade local iniciar um processo de cura após uma tragédia que aconteceu na região. O que poderia ser um drama carregado ou preocupado em agradar aos conservadores, se torna surpreendente ao se desprender de fórmulas e desafiar lógicas, principalmente em confronto ao tradicional, chega a ser difícil de acreditar que Corpus Christi é baseado em histórias reais de pessoas que fingem ser clérigos, no entanto, ele não é um filme religioso mesmo tratando a religião. A compreensão da natureza humana muda conforme o tempo e exige o desprendimento de dogmas mesmo que sua essência ainda seja importante. O filme pode parecer perturbador, com cenas de grande intensidade, presentes na vida real mas ironicamente julgadas, mas seu mérito é conseguir ser cativante na construção de uma história simples e complexa em sua total reflexão de como usamos as ferramentas que possuímos para sermos melhores. No final, possivelmente sirva como um alerta que a pureza está no coração de cada um, longe da necessidade de uma graduação em um seminário ou aprofundamento na teologia, certas regras já se mostraram falhas dentro da igreja e precisam de mudança. A história alerta o quão é importante reavaliarem o significado de noções religiosas, como salvação, julgamento, culpa, reparações, tentações ou arrependimento pelos pecados, tudo apresentado no filme de sua maneira intensa e sem máscara. O filme explora temas universais, não apenas específicos para a Igreja Católica mas para quem acredita na humanidade e na capacidade das pessoas de fazer o bem.  Um filme imperdível. A FÉ NÃO TEM FÓRMULA.


Filme exibido na Mostra Competitiva do  7° Festival Internacional de Cinema de Brasília - BIFF. Vencedor como Melhor Filme pelo Júri oficial.

O filme não tem previsão de estréia no Brasil!

Hype: ÓTIMO - Nota: 8,5

quinta-feira, 30 de abril de 2020

THE FRENCH TEACHER - UM AMOR A TRÊS (2019) de "Stefania Vasconcellos"



O drama intergeracional exibido no BIFF é frio e orgânico sem comover.

O filme ainda não foi lançado comercialmente e apresenta uma trama no estilo "soft porn", onde mesmo com uma bonita fotografia esconde um roteiro sem muito desenvolvimento. Uma mulher mais velha, a professora de francês (Marie Laurin), se vê amargurada na vida e nos relacionamentos e acaba vivendo uma tórrida paixão por um de seus alunos (Sean Patrick McGowan), bem mais novo que ela. Só para constar, esse tipo de relacionamento já não é novidade em filmes, porém a trama acrescenta a filha da professora (Anna Maiche), que tem a mesma idade do aluno e também se interessa no rapaz. O grande problema da história é justamente sugerir esse triângulo amoroso, o título nacional já automaticamente faz isso, mas não é o foco principal do filme. Na verdade nada se mostra muito específico nessa relação, muito do que se deseja retratar torna-se subjetivo ao expectador, quase que já aderindo ao senso comum de julgamento. Quando se nega algo que já está claro fica uma sensação de culpa em abordar tal relação, algo percebido principalmente pelos diálogos ou situações que surgem em tela sem a menor preparação e as vezes soltas sem nenhuma cerimônia, tudo é realizado sem deixar claro as reais intenções. Os elementos de sustenção do filme se perde em personagens pouco carismáticos ou misteriosos ao ponto de não se expressarem. O drama não é substancial ficando grande parte do tempo sem qualquer embasamento sobre as problemáticas e termina esvaziado em um romance pouco sólido. Infelizmente a trama não evolui e não estimula o expectador, oferecendo uma história pouco cativante e bastante previsível. O presente colide com o passado e questões familiares são desenterradas, porém o propósito real dessa exposição não fica claro também. No fim das contas, um filme que falta pimenta em tudo, bastante morno e indicado para quem não quer se intensificar nos fatos abordados. SONOLENTO


Filme exibido na Mostra Competitiva do  7° Festival Internacional de Cinema de Brasília - BIFF. Sem previsão de estréia no Brasil. 

Hype: RUIM - Nota: 4,0

quarta-feira, 29 de abril de 2020

HÁLITO AZUL (2019) de "Rodrigo Areias"



Documentário busca ser uma poesia sobre a preciosidade da água e da vida de pescadores de uma área ameaçada em Portugal.

Exibida no BIFF, produção conta a história de uma região localizada na Ilha de São Miguel, em Portugal, a pequena vila Ribeira Quente, que se sustenta com a pesca. O lugar fica entre o oceano e a costa de um vulcão, onde a principal atividade de subsistência dos habitantes pode estar ameaçada com sua possível erupção. O filme busca apenas mostrar o amor da comunidade aos seus pescadores e também ao mar onde passam maior parte de suas vidas dedicadas a pesca. Rodrigo Areias se desvia da ameaça que a comunidade sofre para observar reuniões de pescadores que expõem problemas relacionados ao alto mar, assim como viagens de pesca que exploram as etapas desta profissão escolhida por eles. Esses relatos cobrem boa parte do filme que por um momento também insere trechos literários de "Os Pescadores", do escritor Raúl BrandãoHálito Azul então é um documentário que também serve de poema com uma camada ficcional que une as duas vertentes. A idéia infelizmente não engrena e o tom reflexivo se torna massante em meio a história dos moradores de Ribeira Quente. O destaque são as cenas em que o espectador acompanha as belas e coloridas homenagens feitas aos pescadores de uma tradição que sobrevive através dos anos, com cenas teatrais e personagens reais da região inspirados nos contos de Brandão. Toda essa mistura narrativa, mesmo com sua beleza, faz a história se perder, sem levar a narrativa a nenhum lugar em potencial. Sua poesia visual é o grande atrativo com belas cenas no mar e no farol mesmo que falte ritmo e objetivos maiores em uma gama interessante de assuntos mal servidos ao expectador, sobra então a bela paisagem natural ameaçada por um vulcão, a vida dos pescadores ou mesmo uma homenagem a água por si só, termina sem encontrar seu verdadeiro caminho como documentário. CONTEMPLATIVO



Filme exibido na Mostra Competitiva do  7° Festival Internacional de Cinema de Brasília - BIFF. Sem previsão de estréia no Brasil.

Hype: REGULAR - Nota: 5,5


terça-feira, 28 de abril de 2020

MAPA DE SONHOS LATINO-AMERICANOS (2020) - "Mapa de Suenos Latinoamericanos" de "Martin Weber"



O documentário foi um dos destaques do BIFF ganhando menção honrosa do júri por falar de sonhos e diferenças culturais nas Américas.

A produção idealizada pelo fotógrafo argentino Martin Weber é a representação real das desigualdades sociais de países e pessoas que possuem sonhos. Ele viajou por toda a América, começou em 1992 e terminou em meados de 2013, onde fotografou várias pessoas pedindo que escrevessem um sonho com um giz em uma pequena lousa. Décadas depois, ele se perguntou se algum desses desejos havia sido cumprido e iniciou uma nova jornada na busca pelas mesmas pessoas para dar testemunho de suas vidas. Tal iniciativa rendeu além de fotos esse documentário que mostra como foi esse lindo e emocionante trabalho. Surge então o retrato filmado "Mapa de Sonhos Latino-Americanos". Nos últimos 8 anos, Martin retornou à Argentina, Peru, Nicarágua, Cuba, Brasil, Colômbia, Guatemala e México. A pobreza e a desigualdade social nesses países destruiu milhões de sonhos. Pessoas com vontades relativamente simples. Alguns querem estudar música, ter uma família, o que comer ou um medicamento importante para alguém doente. O filme resgata testemunhos da violência econômica, política, social e militar que marca o continente. Martín se aventura além dos limites convencionais do olhar e entra em situações que mostram claramente as conseqüências das migrações e a degradação da organização social. As experiências compartilhadas revelam personagens resistentes que lutam entre esperança e desespero. A cada fotografia, o espectador é convidado a unir as palavras escritas na lousa aos rostos, imaginando assim a história por trás daquele momento. Todos esses países possuem particularidades e passaram de alguma forma por um regime ditatorial, muitos deles financiados pelos Estados Unidos da América, em alguns casos durando décadas. Em uma das fotos, que retrata a história do Brasil, mostra idosos de classe média no Rio de Janeiro, presos e torturados pelos militares na década de 1960. Seus sonhos abordam justiça para quem sofreu tortura e humilhação. Um reflexo do loop que vivemos no continente, com a sensação de que governos não buscam tal evolução desse cenário, com a ditadura militar sempre voltando á tona em governos atuais. Weber substitui a tristeza por poesia em uma construção interessante e apropriada em respeito a essas pessoas. Essa jornada convida o espectador a se identificar com histórias coletivas e privadas. Se uma foto congela um momento, este filme analisa a vida em movimento, com o reflexo de caminhos bem próximos dos nossos. EMOCIONANTE


Filme exibido na Mostra Competitiva do  7° Festival Internacional de Cinema de Brasília - BIFF. Sem previsão de estréia no Brasil. 

Hype: ÓTIMO - Nota: 8,0

segunda-feira, 27 de abril de 2020

ENCANTADO, O BRASIL EM DESENCANTO (2019) de "Felipe Galvon"


O vencedor do 7° Brasília International Film Festival - BIFF na categoria Júri Popular é um documentário que reflete um ponto de vista sobre o atual Brasil.

Encantado, o Brasil em Desencanto foi produzido na França, co-produzido pelo canal francês Public Sénat e por LaClairière Ouest, ele segue uma onda de diversos documentários que são recortes dos acontecimentos políticos recentes do Brasil, são produções aclamadas, como o O Processo (2018) e Democracia em Vertigem (2019) ou produções mais independentes como Excelentíssimos (2018) e O Mês que não Terminou (2019). O expectador acompanha o ponto de vista do diretor do filme, Felipe Galvon, que explora uma camada mais específica, o da primeira geração popular a estudar no exterior, fato proporcionado pelas políticas públicas do Brasil em ascensão da década passada. O cineasta faz questão de sinalizar que o filme é fruto do olhar particular de quem observa o Brasil a distância e se assusta com o cenário atual. Ele utiliza como referencial, o bairro onde morou no país, Encantado, que foi transfigurado para as Olimpíadas de 2016 e em seguida marcado pelo abandono, remontando a história recente do Brasil. O filme reconta o início dos anos 2000, quando os governos de Lula e Dilma Rousseff permitiram significativos progressos sociais e econômicos no país, passando em seguida ao progressivo declínio destes avanços, marcados pelo surgimento dos protestos de Junho de 2013 e pelo Impeachment de Dilma Rousseff em 2016. Em paralelo à narração de Felipe, o filme é entrecortado por entrevistas dos habitantes do bairro Encantado, que apresentam seu desencanto com a democracia e com a política, além dos testemunhos das jovens gerações formadas nas últimas décadas que observam os novos rumos tomados por seu país. O Encantado, situado na zona norte do Rio de Janeiro, surge como uma maneira poética e pessoal pelo diretor de direcionar seu ponto de vista sobre tudo que aconteceu e acontece no Brasil. A produção consegue mostrar a desorientação daqueles que cresceram na euforia massiva com a eleição presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva e depois viram a derrocada do político e do partido dele até a atualidade polarizada, onde a direita encontrou um caminho para chegar ao poder. Há no filme também depoimentos de políticos como Ciro Gomes, Jandira Feghali e Guilherme Boulos, além de filósofos, professores e analistas sociais de várias frentes. Eles contribuem para o diagnóstico do diretor sobre o desencantamento com o Brasil de hoje, suas convicções e seu posicionamento ideológico. É um campo aberto para que cada expectador tire suas conclusões amparado na melancolia de nossa realidade mesmo que muita coisa seja deixada de lado. É mais uma importante reflexão para a construção de um futuro melhor ciente dos erros cometidos, enxergar o que mudou para pior e mensurar que essa guerra política prejudica nosso futuro. A ANGÚSTIA DA POLÍTICA DO PRESENTE.


Filme exibido na Mostra Competitiva do  7° Festival Internacional de Cinema de Brasília - BIFF. Sem previsão de estréia no Brasil.

Hype: BOM - Nota: 7,5


domingo, 26 de abril de 2020

ME LEVE PARA UM LUGAR LEGAL (2019) - "Take me Somewhere Nice" de "Ena Sendijarevic"


Roadie Movie europeu tem essência indie e elementos frios.

O filme participou de diversos festivais pelo mundo dentre eles o Festival de Roterdã 2019, onde foi premiado com a Menção Especial, o Festival de Sarajevo 2019, premiado como Melhor Filme e Mostra de São Paulo 2019 na seleção oficial (Novos Diretores). Selecionado para a Mostra Competitiva no Festival Internacional de Cinema de Brasília - BIFF 2020, o interessante trabalho de estréia da diretora Ena Sendijarevic trabalha com planos fixos e composições descoladas para uma história de auto-conhecimento de uma jovem. Ela adota uma abordagem criativa de uma experiência de solidão para simplificar sua personagem central e mesmo abrindo mão de longos diálogos e de expor sentimentos, consegue transpor identidade própria ao filme. O retrato do deslocamento de região realizada pela personagem denota diferenças culturais. Existe um equilíbrio de poder na Europa Ocidental-Oriental, entre os privilegiados de um lado e os deixados para trás do outro, divididos muitas vezes entre os amargos e os oportunistas, aqueles que gostariam de se juntar ao Ocidente e aqueles que ativamente vira as costas para ele. Essa tensão é facilmente indentificada quando percebemos a jornada de Alma, que se torna imprudente ao se aventurar na Bósnia tentando forjar uma conexão significativa com seu pai, saindo de sua zona de conforto na Holanda. A narrativa não impõe muitos avanços deixando todo propósito da personagem como reflexo da adolescência, onde pouco se mede as consequências dos atos e os sentimentos nem sempre são esclarecidos. A produção é bastante atrativa, desde a fotografia deliciosa até sua trilha sonora bastante contagiante, destaque para uma cena onde ao som de Sonic Youth os personagens vivem seu momento de rebeldia. Na trama, Alma (Sara Luna Zoric) deixa a casa da mãe na Holanda e viaja para a Bósnia, sua terra natal, para visitar o pai que nunca conheceu. Mas, desde o início, nada ocorre como planejado. Seu primo Emir (Ernad Prnjavorac) lhe recepciona de forma fria e zomba de sua vida fácil no Ocidente. Ao mesmo tempo, rola uma química sexual com Denis (Lazar Dragojevic), melhor amigo de Emir. À medida que os obstáculos aumentam, Alma segue determinada a achar o pai. Ela só precisará conhecer a si mesma antes. A história movimentada de Alma, mesmo quando se aventura em temas mais sombrios ainda parece esperançoso e energético, fugindo de clichês e em vários momentos demostrando frescor invertendo expectativas. Mas, no geral, é um filme elegante que nos mantém a uma distância segura, em um estado de inquietação constante. A conexão da personagem com sua verdadeira identidade é sincera e ao mesmo tempo pessoal, colorida e sensorial, uma construção simples porém bastante promissora onde, nem toda história de vida precisa caminhar em uma linha reta. ESTÉTICO E VASTO.


Filme exibido na Mostra Competitiva do  7° Festival Internacional de Cinema de Brasília - BIFF. Sem previsão de estréia no Brasil. 


Hype: ÓTIMO - Nota: 8,0




sábado, 25 de abril de 2020

LIBERTÉ (2019) de "Albert Serra"


O deleite dos libertinos em uma obra prima da perversão e do prazer sem limites. 

O Festival BIFF apresentou no Brasil o filme que dividiu o público e a crítica na Mostra Um Certo Olhar (Un Certain Regard) do Festival de Cannes de 2019. Ainda inédita no Brasil, a produção do interessante diretor Albert Serra (A Morte de Luís XIV) é uma obra peculiar e um exercício de paciência para expectadores tradicionais. O filme, com mais de duas horas, se passa por inteiro em uma floresta de eucaliptos, aonde acontece dirversos encontros noturnos e clandestinos para práticas sexuais libertinas e declarações de seus incessantes desejos. Sado-masoquismo, práticas bissexuais e outros feitiches numa busca incessante pelo prazer. O ano é 1774. Os aristocratas de Louche expulsos da corte francesa por seu comportamento debochado procuram o apoio de seu colega alemão, o duque de Walchen. O objetivo deles é alistá-lo em seu movimento filosófico: libertinagem. Eles se esquivam da guilhotina lutando contra o tédio, espreitando na vegetação rasteira e embarcando em um ataque competitivo de ascensão fetichista recusando qualquer moral e autoridade. O fascínio do diretor Albert Serra por esse período distorcido e decadente da história européia continua firme. Este filme em particular evoluiu de uma peça que Serra encenou em 2018 em Berlim, que tratava do lado sombrio e do desejo humano. É um filme escuro, tanto espiritual quanto visualmente, o cenário noturno da floresta é fracamente iluminado dando a sensação de voyeurismo dos personagens em querer entender o que se passa ali. Temos dicas das atividades ao ar livre nos choramingos e gritos abafados que cortam o som das cigarras. Serra acaba por mostrar os libertinos em ação, em várias cenas gráficas. A escolha do título, combinada com o tom do filme, é intrigante. Serra joga várias sugestões de reflexão sobre liberdade, instinto e impulso. Esse mergulho faz com que o estilo de filme seja único e consistente no que pretende, indo além da necessidade de um cinema cerebral, que exige esforço para ser entendido. O consentimento para embarcar na obra já é dado no início quando o duque de Wand (Baptiste Pinteaux), relembra lascivamente a execução esquartejante de algum criminoso infeliz antes de cair a noite e começar o livre encontro de pessoas sedentas por prazer. Em alguns momentos o filme cria um universo sensorial, contemplando a paisagem e a coragem de quem consegue se aproximar e se permitir ao êxtase. É um filme mais adequado a quem busca produções mais experimentais ou filmes como "Saló, ou os 120 dias de Sodoma" (1975) de Pasolini. E quanto mais o diretor atrasa o momento de gratificação, fazendo pleno uso de toda a duração do filme, dando a impressão de que está acontecendo em tempo real, mais ele força os espectadores a ficarem atentos e serem atraído pelas expectativas desses libertinos. A INSANIDADE DO PRAZER.


Filme exibido na Mostra Grandes Pré-estréias do  7° Festival Internacional de Cinema de Brasília - BIFF. Sem previsão de estréia no Brasil. 

Hype: ÓTIMO - Nota: 8,0





sexta-feira, 24 de abril de 2020

FENDAS (2019) de "Carlos Segundo"



Filme potiguar imersivo revela poesia cinematográfica sobre o isolamento de si mesmo em um prol maior.

A produção exibida no BIFF vem trilhando uma interessante carreira em festivais, tendo estreado mundialmente no Festival FID Marseille (França) em 2019, sendo exibido também na República Tcheca e Estados Unidos. Participou também de vários festivais nacionais como Mostra Internacional de São Paulo (SP), Panorama Internacional Coisa de Cinema (BA) e Mostra de Cinema de Gostoso (RN) onde levou Menção Honrosa. O filme acompanha um recorte da vida de Catarina, uma pesquisadora do campo da física quântica que trabalha com espaços sonoros na imagem. O mergulho em sua pesquisa é, ao mesmo tempo, um mergulho em sua vida. Por imersão nas imagens que ela distorce, Catarina descobre um novo espectro de som, que aparentemente abre acesso para outra linha temporal. O tom instrospectivo das dúvidas de seu trabalho, do sentido de sua pesquisa e a até de sua vida pessoal, ressalta também a questão social, ela efetua uma pesquisa pouco acessível e sem qualquer forma de supervisão ou cobrança. Fendas é um filme que orbita no território científico e humano e surge em um momento singular em que a cultura e a educação sofrem ataques declarados por parte do poder público e do governo brasileiro. O filme não deixa de ser também uma resposta a esse movimento crescente mostrando a solidão de quem estuda e pesquisa em prol de um bem maior a toda sociedade. A história não apresenta conflitos explícitos e muito menos define seu caminho, são cenas onde Catarina vive sua rotina e na maior parte do tempo observa imagens sonoras, mergulhando em um vazio e faz dele um laboratório para sua pesquisa. A obra conta a história de Catarina (Roberta Rangel), uma pesquisadora do campo da física quântica que mora em Natal e estuda os espaços sonoros na imagem. Sua vida e pequisa se misturam e convergem seu passado, presente e futuro. O filme percorre diversos cenários reais da capital do RN, como ruas da cidade, as dunas, o Forte dos Reis Magos, o Parque da Cidade, todos ambientes sob o olhar poético de seu diretor Carlos Segundo em um desvaneio bonito e sereno. Fendas é uma produção entre Brasil e França que estimula o expectador a imaginar o exterior por dentro de si mesmo, muitas vezes focado em uma monotonia controlada e uma reflexão dos fenômenos físicos. Não deixa de ser um filme diferente ao mostrar seu potencial na falta de uma estrutura padrão. SOBRE PROFUNDIDADES


Filme exibido na Mostra Competitiva do  7° Festival Internacional de Cinema de Brasília - BIFF. Sem previsão de estréia no Brasil. Distribuição Elite Filmes.

Hype: BOM - Nota: 7,0






quinta-feira, 23 de abril de 2020

CANO SERRADO (2018) de "Erik de Castro"


Filme se espelha em um viés conservador e reacionário em Western contemporâneo.

A produção ainda inédita nos cinemas brasileiros foi exibida na Mostra de SP e Festival do Rio em 2018 e depois esquecida. O filme ganhou exibição no BIFF na Mostra Spotlight Brasilia. Esse é o segundo trabalho na direção de Erik de Castro que já havia se aventurado no gênero de ação em Federal (2010) com relativo sucesso. Cano Serrado tem uma proposta até interessante, com boa produção e efeitos especiais mas se perde sem um roteiro consistente e na mão pesada do diretor. O bom elenco é esvaziado em atuações bizarras e personagens repletos de clichês e esteriótipos. Combinaria se fosse na década de 90, hoje em dia não cola mais. O roteiro constrói um faroeste contemporâneo, com diferentes tipos masculinos medindo forças até o esperado duelo final em que os grupos opostos se encontram no acerto de contas. A representação exagerada do típico filme de ação "brutamontes" beira o caricato, seja pelas soluções fáceis ou reviravoltas sem muito preparo. O "Plot Twist" do filme, que seria a virada da história para o seu clímax, é a única boa cartada do filme. São temas controversos, como a violação de direitos humanos e a justiça com as próprias mãos abordados de forma rasa com uma estética que busca o entretenimento de maneira visceral e banal. Sem charme algum, Cano Serrado expõe um tipo de história onde não existe diversidade e a masculinidade tóxica se reflete nas piadas machistas, mulheres como coadjuvantes e péssimos argumentos para justificar tortura, violência e sadismo por armas. O thriller policial é o puro reflexo de uma fórmula datada no cinema de ação e também perigosa dando vazão a um discurso violento sem o aprofundamento necessário. A narrativa acompanha a vingança do Sargento Sebastião (Rubens Caribé) aos homens que assassinaram seu irmão, um homem baleado no início do filme. Em seguida conhecemos Luca (Jonathan Haagensen) e Manuel (Paulo Miklos), dois policiais da cidade grande que partem para o interior rumo a um fim de semana de retiro junto ao pessoal de uma igreja. No caminho, são atacados em uma emboscada. Com o desaparecimento dos dois, seus colegas da capital partem atrás do paradeiro deles. É quando o delegado Marcos (Fernando Eiras) e seus auxiliares, como a perita Sílvia (Sílvia Lourenço) e o agente Rico (Milhem Cortaz), entram em cena para tentar solucionar o ocorrido. Surge o embate da polícia do interior com a polícia da capital. Acompanhamos um roteiro sofrível sobre vingança, onde as polícias se confrontam em meio a uma trama simplória com violência desmedida, corrupção e elementos facistas. Com ecos de filme de ação dos anos 1980, o diretor usa de várias referências se concentrando em anti-hérois em uma alegoria a hierarquias da lei e os bastidores do universo policial. Deve agradar quem gosta de ação e violência, nesse quesito ele decola. THRILLER POLICIAL DO CERRADO.


Filme exibido na Mostra Spotlight Brasilia do  7° Festival Internacional de Cinema de Brasília - BIFF. Sem previsão de estréia no Brasil. Distribuição pela H2OFilms e Globo Filmes.

Hype: REGULAR - Nota: 5,0

BLUE GIRL (2020) de "Keivan Majidi"



Documentário mostra a inocência de um grupo de crianças do Curdistão que exergam no futebol a esperança de dias melhores.

Metade dos títulos da seleção desse ano do Brasilia Internacional Festival é de documentários, entre eles “Blue Girl”, do novato Keivan Majidi, que conta a história de um grupo de crianças que procura por um lugar plano nas montanhas para jogar futebol. O esporte é a unica distração dessas crianças em um vilarejo onde todos os moradores são apaixonados por futebol. A princípio parece um filme simples sobre infância e a vida de pessoas humildades mas fala sobre uma questão interessante, a busca pela ocupação do seu lugar no mundo. A produção se infiltra no mundo dessas crianças e quem conta a história é uma das crianças, a garota é responsável pela descrição do local, apresenta adultos e crianças relacionando-os com a grande paixão do lugar pelo futebol. O termo Blue Girl curiosamente faz lembrar ao famoso caso onde uma garota iraniana que amava futebol, Sahar Khodayari, corria o risco de passar seis meses na prisão por desafiar a regra que proíbe a entrada de mulheres nos estádios de futebol do Irã. Diante de um tribunal religioso, ela decidiu atear fogo no próprio corpo e morreu. Esse caso chocou o mundo em 2019 e se tornou um símbolo do apoio contra a opressão das mulheres que gostam de futebol. Esse fato não é citado mas é a grande inspiração do filme, fica claro a intenção de mostrar o quanto esses países erram em privar as mulheres do gosto pelo esporte, nesses países islâmicos elas ainda vivem uma escravidão conservadora e misógina sem previsão de fim. É uma questão cultural da região, infelizmente. Falta essa pimenta no documentário, a Blue Girl retratada aqui, uma gorotinha que ama futebol, joga escondido dos adultos e acompanha os meninos jogarem, não desafia o expectador, é só um retrato que permanece frio mesmo com os horrores sofridos por Sahar Khodayari. O filme busca ser leve, um caminho entendiante em meio a um assunto tão voraz. O direcionamento de ser um filme família em meio a um importante fato deixa o filme avulso e sem pulso. Ainda sim é fácil se envolver com a história daquele lugar distante e com crianças em busca de um sonho. Visualizar a rotina de um lugar e o apego pelo futebol entre as pessoas da vila mostra a dimensão de um evento mundial como a Copa do Mundo. Cenas como a cerimônia de previsão antes da Copa do Mundo da Rússia começar, os muitos diálogos sobre os jogos, as seleções de outros países defendidas de forma sagrada por seus torcedores formam um cenário curioso para a realidade local. O futebol tem seu papel, em especial à união e ao trabalho de equipe. Os adultos são mostrados como pessoas passivas diante a energia e a vontade das crianças de brincar e buscar um sentido. A jornada dessa Blue Girl do filme é de coadjuvante, de manter o padrão estabelecido e voltado principalmente no objetivo dos garotos em encontrar o campo de futebol ideal nas montanhas. Qual sentido realizar um documentário com o desconforto que esse nome tem, onde o foco é mostrar os meninos conseguindo fazer o seu campo de futebol ideal e não questionar porquê as meninas estão ajudando se os meninos não as deixam jogar. Embora cheio de boas intenções, o documentário não muda em nada essa visão machista e atrasada, fazendo questão de se manter em um lugar seguro em não aprofundar temas importante e tenta mostrar beleza na opressão. Um filme cheio de potencial esvaziado na falta de coragem. RETRATO VAZIO.


Filme exibido na Mostra Competitiva do  7° Festival Internacional de Cinema de Brasília - BIFF. Sem previsão de estréia no Brasil. Distribuição pela Elite Filmes

Hype: REGULAR - Nota: 5,0

quarta-feira, 22 de abril de 2020

ANNA KARINA PARA VOCÊ LEMBRAR (2017) - "Anna Karina, Souviens-Toi" de "Dennis Berry"



Documentário é uma carta de amor cinematográfica de Dennis Berry para sua esposa Anna Karina em um dos seus últimos registros.

Documentário sobre a ''musa da Nouvelle Vague'' abre o Brasília International Film Festival em sua primeira exibição no Brasil. A lendária, ganhou dois anos antes de sua morte esse lindo filme realizado por seu marido na época. Francesa, de origem dinamarquesa, a atriz de rosto pálido e grandes olhos azuis começou a carreira como modelo, até que conheceu Jean-Luc Godard (com quem casaria anos mais tarde), passando a atuar em filmes, até se tornar uma das atrizes-símbolo da Nouvelle Vague. Em 1967, Serge Gainsbourg a homenageou com seu único filme musical, “Anna”. A atriz morreu vítima de câncer em 2019 e está intimamente relacionada ao renascimento do cinema francês na década de 1960. O documentário é simples porém impecável, onde apresenta a própria Anna Karina, 2 anos antes de seu falecimento, dando depoimentos em uma sala de cinema e vendo cenas de seus filmes e peças de teatro. A narração é do próprio diretor Dennis Berry. Interessante que grande parte do filme se concentra especialmente em suas memórias de Jean-Luc Godard, ex- marido, memórias essas emocionantes. Dennis Berry com muita maturidade não deixa de focar essa fase tão brilhante da atriz, é um filme de quem é apaixonado, que não demonstra ciúme ao tratar desse romance e nem do possível flerte da moça com Serge Gainsbourg durante as filmagens do musical Anna (1967), de Pierre Koralnic. Aliás, as cenas desse raríssimo filme é um dos pontos altos do documentário. O filme não apenas retrata o ícone da Nova Onda Francesa ao longo das décadas, mas também é uma carta de amor para quem o diretor deste documentário compartilhava sua vida há mais de 30 anos.  Sua gratidão é visível em seu olhar emocionado em ver trechos de sua infância numa Copenhague sob a ocupação nazista, sua adolescência sozinha, seu olhar cada vez mais intenso para as artes que admirava, tendo como referência Judy Garland, Charles Chaplin, Anna Magnani, que ela viu em “Roma Cidade Aberta”, de Rossellini e a paixão por Louis Armstrong e Count Basie. Decidida a seguir seus sonhos, partiu sozinha para Paris, onde realizou trabalhos como modelo até conhecer Godard que seria o inicio de seu estrelato. O filme mesmo curto faz cruzar a história de Anna até com acontecimentos históricos como a Segunda Guerra Mundial. Anna foi uma estrela considerada até hoje como uma das mais humildes mesmo trabalhando com diversos gênios do cinema como Rivette (A Religiosa), Visconti (O Estrangeiro), Zurlini (Mulheres no Front), Cukor (Justine), Fassbinder (Roleta Chinesa) e Schlöndorff (O Tirano da Aldeia). O resumo de sua vida cinematográfica ainda têm tempo para mostrar imagens preciosas de bastidores de filmes de Godard, da encenação teatral francesa de Depois do Ensaio, de Bergman, e de uma de suas duas experiências na direção, Vivre Ensemble, de 1972. Com trechos de filmes muito bem escolhidos e com uma qualidade surpreendente, graças aos acervos da TV Francesa e do INA (Instituto Nacional de Arquivos), Dennis e Anna realizam um documentário que é uma obra prima para a Cultura Pop, com linda fotografia e obrigatório para fãs da nouvelle vague, além de apresentar muito bem a essa nova geração sua maior musa. LUMINOSA TRAJETÓRIA.



O filme foi exibido no  7° Festival Internacional de Cinema de Brasília - BIFF

Distribuição: Elite Filmes.

Hype: ÓTIMO - Nota: 8,5